Mítica - arquivos pendentes
Não sei se e a quem interessará o texto abaixo, mas estou colocando-o aqui por garantia. Eu o postei originalmente na Rede e como o forum está em reforma e como não sei quando voltará ao seu formato definitivo, achei melhor já deixá-lo arquivado aqui também. Eu não tenho mais ligação com o Mítica, mas ainda tenho simpatia pelo cenário e por este artigo de 2004-2005 (que não entrou no livro por questões de espaço).
III - Xintoísmo Ancestral: O culto aos grandes antepassados
Nas terras de Ryuujin, os humanos da etnia kojin e o povo-gato neko seguem a fé dos kamis, divindades que representam cada faceta da natureza e do mundo, presentes em todos os lugares. A grande maioria dos kamis venerados não são deuses propriamente, mas espíritos. Os maiores e mais conhecidos kamis, tais como Amatsukami, Michiko, Hachiman e Reikon, são divindades verdadeiras e capazes de conceder magias aos clérigos, mas o culto aos kamis como um todo é honrado. Uma vertente culturalmente importante que surgiu desta religião foi o xintoísmo ancestral, que reconhece e honra os kamis, mas concentra sua reverência nos antepassados gloriosos das famílias de seus seguidores. Esta fé, graças a um pacto feito entre Hachiman e Reikon com o consentimento de Amatsukami, permite a um indivíduo receber magias divinas ao invocar preces aos ancestrais de sua família, caso esta tenha um antepassado de grande honra e renome. Assim, o xintoísmo ancestral disseminou-se em Ryuujin, mesmo entre as famílias menos afortunadas que não recebam tal privilégio divino, pois estas acreditam que a honra de seus membros possa um dia elevá-los junto aos kamis do Mundo Superior.
A Origem
O kami Hachiman, apesar de reconhecido e venerado pelos mortais de Ryuujin, sempre preferiu que os kojins honrados seguissem um estrito código de princípios morais em seu nome, o bushido, ao invés de venerar sua imagem. Por esta razão, Hachiman não tem clérigos, restringindo suas dádivas apenas aos mortais que mais se esforçavam em seguir o ideal de seu código, os samurais. Porém, este distanciamento provocou um efeito imprevisto. Enquanto os samurais reverenciavam o bushido, os demais kojins, especialmente seus parentes próximos, admiravam mais a figura do samurai do que seu código. Após algumas gerações, esta admiração tornou-se idealização e finalmente transformou-se em veneração aos honrados ancestrais. Hachiman observava com apreensão este comportamento, mas não podia culpá-los: para os mortais que se guiavam na figura de um herói lendário, era mais fácil imitá-lo do que seguir um código abstrato. Além disto, estes mortais trilhavam um caminho honrado, buscando auxílio na própria estrutura familiar. Acreditando que proibir este tipo de conduta apenas traria mais desordem, Hachiman procurou o conselho de Reikon, o Guardião das Almas que julgava os espíritos para decidir seu destino: reencarnação, ascensão ao Mundo Superior ou expulsão para o Mundo Inferior. O kami compreendeu a preocupação de Hachiman, mas acreditava que as preces das famílias de Ryuujin direcionada aos seus antepassados não poderiam gerar frutos. Afinal, não apenas as almas dos mortos eram proibidas de se manifestar e guiar seus descendentes em Lieh como também não possuíam poder para tal. Além disso, o destino final destes espíritos após o julgamento de Reikon muitas vezes os tornavam inacessíveis para as preces dos mortais; como pedir ajuda para alguém que sofre no Mundo Inferior ou que já foi reencarnado?
Os dois kamis então indagaram à sua matriarca, Amatsukami, que ofereceu uma resposta e uma obrigação: “Para responder aos anseios dos mortais, à honra dos ancestrais homenageados e ao julgamento do Além Vida, existe a servidão. Reikon, os mais honrados heróis que vierem a perecer poderão habitar o seu reino e aguardar seu julgamento até que surja alguém digno para substituí-los, devendo até lá servir sua descendência mortal por pelo menos cinco gerações. Somente então poderão conhecer seu destino final. Durante este tempo, eles ouvirão as preces de sua família assim como ouvimos nossos seguidores. Cabe a vocês o encargo deste poder. Os descendentes de cada mortal valoroso poderão aceitar ou recusar, mas apenas saberão seu julgamento após a escolha feita. Assim, aqueles que temem por sua sentença podem ter a chance de se redimir. Hachiman, cabe a você escolher cada espírito fundador e seus líderes futuros”.
Com este edito, ambos kamis partiram satisfeitos, estabelecendo regras para espíritos ancestrais e mortais. Quando morre um devoto dos kamis de tendência leal e que tenha ou grande poder (como regra geral, pelo menos nível 11) ou realizado algo excepcional e honrado, Hachiman pode escolhê-lo como uji-gami, representantes póstumos de sua família no além. O espírito pode recusar o título, sob risco de grande desonra e desaprovação. Um uji-gami recebe então um shiro shinden (“mansão daqueles que já se foram”), uma grande residência no plano de Reikon que o abrigará, bem como todos seus descendentes, os quais ele comandará como autoridade familiar.
Uma vez intitulado, cada uji-gami recebe uma porção de poder de Reikon e Hachiman, obtendo a capacidade de prover magias divinas aos seus descendentes que dediquem a vida em honra aos ancestrais, sendo estes denominados clérigos xintoístas. Exceto quando houver um abuso de poder, um uji-gami só deixa sua posição se todos os seus descendentes tiverem falecido ou quando houver um substituto honrado, valoroso e de tendência leal, aprovado por Hachiman para substituí-lo. Ainda assim, o espírito serve sua família mortal através dos clérigos xintoístas até o nascimento de seu trineto (a 5ª geração, contando a partir da vida do uji-gami). Se após este evento houver um substituto à altura, Reikon finaliza o julgamento do espírito, indicando sua jornada final. Não é incomum que uji-gamis leais e malignos sejam muito dedicados com seus descendentes, pois um serviço duradouro por gerações pode salvá-los do tormento no Mundo Inferior, recebendo ao invés o veredicto da reencarnação.
Após a formação do shiro shinden familiar, cada parente que falecer terá a opção de prorrogar o julgamento de Reikon no Além Vida para servir como conselheiro do uji-gami. Recusar implica em egoísmo, mas a negação de um outrora clérigo xintoísta provoca extrema desonra à família e a si. Independente da resposta, um espírito tem o prazo de espera de um ano até sua sentença ou servidão. Após este prazo e durante sua servidão no shiro shinden, tentativas de ressurreição falham automaticamente. Cada espírito que se juntar ao uji-gami é capaz de ouvir as preces de seus descendentes, participando do conselho familiar no Além Vida por cinco gerações mortais, quando então será reencaminhado para a corte de Reikon para receber a sua sentença.
O Credo e a Sociedade
Os seguidores dos kamis conhecem a origem do xintoísmo ancestral e a honrosa servidão que pode os aguardar no Além Vida, mas eles não sabem que a fonte dos poderes divinos provém de Hachiman e Reikon. Para os mortais, acredita-se que as duas divindades levaram a questão do culto ancestral para Amatsukami, que então permitiu que os espíritos pudessem zelar por seus descendentes. Por esta generosidade, todo local de veneração ancestral porta um jardim florido e bem cuidado em homenagem à matriarca dos kamis, seja um local consagrado por um único neko que teve um antepassado importante, seja um ostentoso templo do daimiô local. E como Hachiman e Reikon deixam toda a responsabilidade do poder concedido aos uji-gamis, para todos os efeitos os espíritos ancestrais são os responsáveis pela delegação de magias aos seus descendentes, inclusive para responder magias como comunhão. Mas antes que um mortal possa se tornar um clérigo xintoísta, é preciso cumprir os seguintes pré-requisitos:
- Que possua tendência leal.
- Que honre e venere genuinamente os ancestrais de sua família.
- Que preste respeito e reconhecimento aos kamis, não adorando outras divindades.
- Que seja descendente de um ancestral uji-gami.
Os dois últimos quesitos são particularmente importantes na vida social de Ryuujin. Um ancestral que foi reconhecido pelos kamis como uji-gami e a manifestação de sua bênção em um descendente são motivos de grande celebração, trazendo honra e status à família. Quando se cogita um casamento, um dos maiores interesses de ambas as famílias é saber se o noivo ou a noiva é descendente de um uji-gami e se há clérigos xintoístas para comprovação. É de todo interesse da família que não possua um estimado ancestral que um consorte privilegiado desta forma passe a integrá-la como parente. Assim, a próxima geração desta família, independente de quem sejam seus pais, passará a fazer parte da descendência uji-gami, inclusive para tornar-se clérigo xintoísta. Para famílias de casta superior, mas de linhagem pouco significante e com indisposição a grandes feitos de glória, o casamento torna-se o principal meio de ascensão ao shiro shinden, podendo inclusive até ignorar a rígida estratificação das classes de Ryuujin. Para as famílias de camponeses que tenham o privilégio de serem vigiadas por um uji-gami, a ancestralidade é a maior chance para se elevarem à baixa nobreza. Por outro lado, famílias nobres que já possuam uma tradição gloriosa desencorajam uniões com pessoas de “linhagem inferior que possam desonrar os ancestrais”. Uma forma tradicional para vencer esta resistência se dá quando o pretendente alcança tamanha fama e honra que resta pouca dúvida de que seria elevado a uji-gami ao falecer.
Um clérigo xintoísta, independente de sua tendência, tem uma conduta muito criteriosa com cerimônias e rituais de homenagem aos ancestrais, sendo considerada até excessiva para quem não é familiar com esta fé. Para um viajante, as obrigações ritualísticas diminuem um pouco, devido à impossibilidade de certos cerimoniais. Eis os principais preceitos e rituais:
- Quando puder, assista ao nascer do sol, agradecendo à Amatsukami pela graça que permitiu e dirija-se aos ancestrais, começando pelo uji-gami, continuando com os espíritos familiares que possam lhe oferecer maior orientação no momento, terminando com a citação de pelo menos um ancestral das últimas cinco gerações. Não ignore seus ancestrais, mesmo que um deles tenha sido um ninja.
- Durante a meditação para suas magias diárias, relembre e cite os fatos mais honrosos de sua ancestralidade, elogiando cada autor e pedindo que o ilumine com sabedoria e capacidade para enfrentar os desafios futuros.
- Pondere sobre suas ações para assegurar que não sejam ofensivas a sua família. Práticas desonrosas trazem desgraça e desapontamento dos ancestrais, necessitando uma reparação em preces ou atos. Nos piores casos, como traição familiar, pode levar à perda permanente de poderes divinos. Dentre os atos desonrosos, citam-se: cometer um crime, macular ou permitir que o nome, propriedade ou entes da família sejam lesados sem oposição, mentir diretamente (omissão cuidadosa de fatos e evasão de perguntas são permitidas), quebrar promessas, desobedecer a um comando honrado de um membro mais velho da família, negar um pedido justo de um membro mais novo da família, deixar de cuidar da área de veneração dos ancestrais e seu jardim adjacente (esta obrigação pode ser suspensa se um outro clérigo xintoísta da família assumir a responsabilidade), desrespeitar pessoas de grande honra como daimiôs, clérigos não-malignos de outras religiões ou seres de pureza inquestionável como dragões e kamis.
- Quando se alimentar reserve uma pequena porção de arroz (cru ou sakê) para agradecer aos entes passados pela prosperidade que lhe foi garantida.
- Em homenagem a Hachiman, lute sem recorrer a técnicas desonradas como envenenamento ou assassinato. Nem todos possuem os mesmos ideais; você pode tolerá-los com tristeza por seus atos, mas não é recomendável compactuar com seus modos.
- Realize suas ações de forma virtuosa e agradável aos ancestrais. Atos que trazem honra e prosperidade para a família são sempre bem-vindos. Enumeram-se algumas ações: ensine aos familiares mais jovens o caminho do xintoísmo ancestral, escreva um relato de feitos da família para que sejam relembrados por seus descendentes, componha um haiku em homenagem a um ou mais ancestrais, doe com generosidade quando seus parentes precisarem, seja espontâneo com seus atos de caridade em épocas de prosperidade, traga renome e glória à sua família realizando missões de mérito, declare sua ancestralidade quando se apresentar formalmente pela primeira vez para uma pessoa honrada ou após realizar um ato honroso. Isto é feito citando “Uji-gami [nome completo do ancestral]” antes de seu nome completo, denotando que você é um clérigo xintoísta. Note que o primeiro nome do personagem e do ancestral será o mesmo – o nome da família – mas esta repetição é mantida para evitar a sugestão de que o clérigo xintoísta ou seu ancestral não possuem família. Por exemplo: quando Hamada Kenshin da família Hamada cujo uji-gami chama-se Hamada Naomi, se apresenta pela primeira vez ao daimiô local ele se entitula “Uji Gami Hamada Naomi Hamada Kenshin”. Após o nobre reconhecê-lo, Hamada Kenshin está livre para utilizar apenas o seu nome.
- Antes de dormir, agradeça aos ancestrais por sua bênção e peça que o vigiem durante o sono. Agradeça a Reikon por ceder sua terra sagrada para o shiro shinden de sua família e retribua o favor ao Guardião das Almas combatendo ferozmente os espíritos que não descansam, para que recebam o julgamento do kami.
Mecânica de Jogo
Um clérigo xintoísta tem os mesmos benefícios do clérigo do Livro do Jogador e possui a seguinte escolha de domínios: Ancestrais, Honra e Ordem. Sua arma predileta é a wakisashi, pois simboliza a nobreza de sua ancestralidade, mesmo que o xintoísta em questão não possua título. Todo clérigo xintoísta recebe gratuitamente no primeiro nível a perícia Falar Idioma (Tenjou), uma vez que devem ser versados no idioma dos espíritos. O símbolo sagrado varia de acordo com a família, geralmente representado na forma de uma mandala de madeira com ideogramas relacionados a seus ancestrais, cada um estando sobreposto ao desenho de uma mansão simbolizando o shiro shinden. Os clérigos xintoístas podem ser de qualquer tendência leal, podendo canalizar energia positiva (tendência leal e boa ou leal e neutra) ou negativa (tendência leal e má apenas) para fins de expulsão ou fascinação de mortos-vivos, respectivamente. Os clérigos xintoístas de tendência maligna não devem criar mortos-vivos, utilizando energia negativa ao invés para mantê-los indefesos enquanto seus aliados se encarregam de sua destruição.
Domínios:
Domínio: Ancestrais*
Deus: Antepassados tokages ou nagas; antepassados do clérigo xintoísta
Poderes concedidos: Uma vez por dia, como uma ação livre, o clérigo pode pedir orientação àqueles que já se foram para obter respostas. Por uma rodada, o clérigo ganha em uma perícia a sua escolha um número de gradações virtuais igual ao seu nível de clérigo, que substituem (não se acumulam) as gradações que possui normalmente. Este poder concedido é uma habilidade sobrenatural.
* Descrito originalmente em “Mítica – Desbravando o Oriente”, sendo considerado conteúdo aberto (OGC), de acordo com a especificação na página 64 daquele livro.
Magias do Domínio dos Ancestrais:
1 – Auxílio divino
2 – Ajuda
3 – Falar com os mortos
4 – Adivinhação
5 – Comunhão
6 – Banquete de Heróis
7 – Lendas e Histórias
8 – Instante de Presciência
9 – Sexto sentido
Domínio: Honra
Deus: Hachiman (através dos antepassados do clérigo xintoísta)
Poderes concedidos: Sua fé o torna um combatente resistente a táticas tidas como desonradas. Você ganha um bônus de +2 em testes para resistir a manobras de imobilizaçao. Ainda, quando for atacado por inimigos que estejam lhe flanqueando, estes não recebem o bônus padrão de +2. Note que você permanece flanqueado, estando vulnerável a ataques furtivos. Em contrapartida, você recebe uma penalidade de -2 ao realizar uma manobra de imobilização ou quando flanquear e atacar um adversário.
Magias do Domínio da Honra:
1 – Remover Medo
2 – Zona da Verdade
3 – Heroísmo
4 – Poder Divino
5 – Marca da Justiça
6 – Tarefa/Missão
7 – Heroísmo, Maior
8 – Escudo da Ordem
9 – Virtude Inflexível
Virtude Inflexível
Transmutação [Ordem]
Nível: Honra 9
Componentes: V, G, FD
Tempo de execução: 1 ação padrão
Alcance: Pessoal
Alvo: Você
Duração: 1 rodada /nível
Teste de Resistência: sim (somente a aura de honra; veja abaixo)
Resistência à Magia: sim (somente a aura de honra; veja abaixo)
Ao conjurar esta magia você se torna um representante máximo dos ideais honrados, incapaz de ser ludibriado por mentiras ou artimanhas mágicas e lhe conferindo poder para fazer frente contra o mais vil inimigo. Virtude Inflexível confere um bônus sagrado (profano se o conjurador canalizar energia negativa) de +4 em força, constituição e carisma. A arma que estiver portando ganha um bônus de melhoramento de +5 (substitui e não se acumula com o bônus original), além de receber a qualidade especial: axiomática, inflingindo 2d6 de dano extra em criaturas caóticas e sendo considerada uma arma alinhada à ordem, para propósito de redução de dano. Em adição, você adquire redução de dano 10/caótico e torna-se imune a efeitos de ação mental. Se por acaso você cair abaixo de zero pvs ainda pode agir normalmente, ainda que perca 1 pv por rodada, morrendo ao chegar a -10. Finalmente, uma aura de honra de 3m de raio centrada em você confere a todos os personagens, aliados ou inimigos, os mesmos benefícios das magias círculo mágico contra o caos e zona da verdade.
III - Xintoísmo Ancestral: O culto aos grandes antepassados
Nas terras de Ryuujin, os humanos da etnia kojin e o povo-gato neko seguem a fé dos kamis, divindades que representam cada faceta da natureza e do mundo, presentes em todos os lugares. A grande maioria dos kamis venerados não são deuses propriamente, mas espíritos. Os maiores e mais conhecidos kamis, tais como Amatsukami, Michiko, Hachiman e Reikon, são divindades verdadeiras e capazes de conceder magias aos clérigos, mas o culto aos kamis como um todo é honrado. Uma vertente culturalmente importante que surgiu desta religião foi o xintoísmo ancestral, que reconhece e honra os kamis, mas concentra sua reverência nos antepassados gloriosos das famílias de seus seguidores. Esta fé, graças a um pacto feito entre Hachiman e Reikon com o consentimento de Amatsukami, permite a um indivíduo receber magias divinas ao invocar preces aos ancestrais de sua família, caso esta tenha um antepassado de grande honra e renome. Assim, o xintoísmo ancestral disseminou-se em Ryuujin, mesmo entre as famílias menos afortunadas que não recebam tal privilégio divino, pois estas acreditam que a honra de seus membros possa um dia elevá-los junto aos kamis do Mundo Superior.
A Origem
O kami Hachiman, apesar de reconhecido e venerado pelos mortais de Ryuujin, sempre preferiu que os kojins honrados seguissem um estrito código de princípios morais em seu nome, o bushido, ao invés de venerar sua imagem. Por esta razão, Hachiman não tem clérigos, restringindo suas dádivas apenas aos mortais que mais se esforçavam em seguir o ideal de seu código, os samurais. Porém, este distanciamento provocou um efeito imprevisto. Enquanto os samurais reverenciavam o bushido, os demais kojins, especialmente seus parentes próximos, admiravam mais a figura do samurai do que seu código. Após algumas gerações, esta admiração tornou-se idealização e finalmente transformou-se em veneração aos honrados ancestrais. Hachiman observava com apreensão este comportamento, mas não podia culpá-los: para os mortais que se guiavam na figura de um herói lendário, era mais fácil imitá-lo do que seguir um código abstrato. Além disto, estes mortais trilhavam um caminho honrado, buscando auxílio na própria estrutura familiar. Acreditando que proibir este tipo de conduta apenas traria mais desordem, Hachiman procurou o conselho de Reikon, o Guardião das Almas que julgava os espíritos para decidir seu destino: reencarnação, ascensão ao Mundo Superior ou expulsão para o Mundo Inferior. O kami compreendeu a preocupação de Hachiman, mas acreditava que as preces das famílias de Ryuujin direcionada aos seus antepassados não poderiam gerar frutos. Afinal, não apenas as almas dos mortos eram proibidas de se manifestar e guiar seus descendentes em Lieh como também não possuíam poder para tal. Além disso, o destino final destes espíritos após o julgamento de Reikon muitas vezes os tornavam inacessíveis para as preces dos mortais; como pedir ajuda para alguém que sofre no Mundo Inferior ou que já foi reencarnado?
Os dois kamis então indagaram à sua matriarca, Amatsukami, que ofereceu uma resposta e uma obrigação: “Para responder aos anseios dos mortais, à honra dos ancestrais homenageados e ao julgamento do Além Vida, existe a servidão. Reikon, os mais honrados heróis que vierem a perecer poderão habitar o seu reino e aguardar seu julgamento até que surja alguém digno para substituí-los, devendo até lá servir sua descendência mortal por pelo menos cinco gerações. Somente então poderão conhecer seu destino final. Durante este tempo, eles ouvirão as preces de sua família assim como ouvimos nossos seguidores. Cabe a vocês o encargo deste poder. Os descendentes de cada mortal valoroso poderão aceitar ou recusar, mas apenas saberão seu julgamento após a escolha feita. Assim, aqueles que temem por sua sentença podem ter a chance de se redimir. Hachiman, cabe a você escolher cada espírito fundador e seus líderes futuros”.
Com este edito, ambos kamis partiram satisfeitos, estabelecendo regras para espíritos ancestrais e mortais. Quando morre um devoto dos kamis de tendência leal e que tenha ou grande poder (como regra geral, pelo menos nível 11) ou realizado algo excepcional e honrado, Hachiman pode escolhê-lo como uji-gami, representantes póstumos de sua família no além. O espírito pode recusar o título, sob risco de grande desonra e desaprovação. Um uji-gami recebe então um shiro shinden (“mansão daqueles que já se foram”), uma grande residência no plano de Reikon que o abrigará, bem como todos seus descendentes, os quais ele comandará como autoridade familiar.
Uma vez intitulado, cada uji-gami recebe uma porção de poder de Reikon e Hachiman, obtendo a capacidade de prover magias divinas aos seus descendentes que dediquem a vida em honra aos ancestrais, sendo estes denominados clérigos xintoístas. Exceto quando houver um abuso de poder, um uji-gami só deixa sua posição se todos os seus descendentes tiverem falecido ou quando houver um substituto honrado, valoroso e de tendência leal, aprovado por Hachiman para substituí-lo. Ainda assim, o espírito serve sua família mortal através dos clérigos xintoístas até o nascimento de seu trineto (a 5ª geração, contando a partir da vida do uji-gami). Se após este evento houver um substituto à altura, Reikon finaliza o julgamento do espírito, indicando sua jornada final. Não é incomum que uji-gamis leais e malignos sejam muito dedicados com seus descendentes, pois um serviço duradouro por gerações pode salvá-los do tormento no Mundo Inferior, recebendo ao invés o veredicto da reencarnação.
Após a formação do shiro shinden familiar, cada parente que falecer terá a opção de prorrogar o julgamento de Reikon no Além Vida para servir como conselheiro do uji-gami. Recusar implica em egoísmo, mas a negação de um outrora clérigo xintoísta provoca extrema desonra à família e a si. Independente da resposta, um espírito tem o prazo de espera de um ano até sua sentença ou servidão. Após este prazo e durante sua servidão no shiro shinden, tentativas de ressurreição falham automaticamente. Cada espírito que se juntar ao uji-gami é capaz de ouvir as preces de seus descendentes, participando do conselho familiar no Além Vida por cinco gerações mortais, quando então será reencaminhado para a corte de Reikon para receber a sua sentença.
O Credo e a Sociedade
Os seguidores dos kamis conhecem a origem do xintoísmo ancestral e a honrosa servidão que pode os aguardar no Além Vida, mas eles não sabem que a fonte dos poderes divinos provém de Hachiman e Reikon. Para os mortais, acredita-se que as duas divindades levaram a questão do culto ancestral para Amatsukami, que então permitiu que os espíritos pudessem zelar por seus descendentes. Por esta generosidade, todo local de veneração ancestral porta um jardim florido e bem cuidado em homenagem à matriarca dos kamis, seja um local consagrado por um único neko que teve um antepassado importante, seja um ostentoso templo do daimiô local. E como Hachiman e Reikon deixam toda a responsabilidade do poder concedido aos uji-gamis, para todos os efeitos os espíritos ancestrais são os responsáveis pela delegação de magias aos seus descendentes, inclusive para responder magias como comunhão. Mas antes que um mortal possa se tornar um clérigo xintoísta, é preciso cumprir os seguintes pré-requisitos:
- Que possua tendência leal.
- Que honre e venere genuinamente os ancestrais de sua família.
- Que preste respeito e reconhecimento aos kamis, não adorando outras divindades.
- Que seja descendente de um ancestral uji-gami.
Os dois últimos quesitos são particularmente importantes na vida social de Ryuujin. Um ancestral que foi reconhecido pelos kamis como uji-gami e a manifestação de sua bênção em um descendente são motivos de grande celebração, trazendo honra e status à família. Quando se cogita um casamento, um dos maiores interesses de ambas as famílias é saber se o noivo ou a noiva é descendente de um uji-gami e se há clérigos xintoístas para comprovação. É de todo interesse da família que não possua um estimado ancestral que um consorte privilegiado desta forma passe a integrá-la como parente. Assim, a próxima geração desta família, independente de quem sejam seus pais, passará a fazer parte da descendência uji-gami, inclusive para tornar-se clérigo xintoísta. Para famílias de casta superior, mas de linhagem pouco significante e com indisposição a grandes feitos de glória, o casamento torna-se o principal meio de ascensão ao shiro shinden, podendo inclusive até ignorar a rígida estratificação das classes de Ryuujin. Para as famílias de camponeses que tenham o privilégio de serem vigiadas por um uji-gami, a ancestralidade é a maior chance para se elevarem à baixa nobreza. Por outro lado, famílias nobres que já possuam uma tradição gloriosa desencorajam uniões com pessoas de “linhagem inferior que possam desonrar os ancestrais”. Uma forma tradicional para vencer esta resistência se dá quando o pretendente alcança tamanha fama e honra que resta pouca dúvida de que seria elevado a uji-gami ao falecer.
Um clérigo xintoísta, independente de sua tendência, tem uma conduta muito criteriosa com cerimônias e rituais de homenagem aos ancestrais, sendo considerada até excessiva para quem não é familiar com esta fé. Para um viajante, as obrigações ritualísticas diminuem um pouco, devido à impossibilidade de certos cerimoniais. Eis os principais preceitos e rituais:
- Quando puder, assista ao nascer do sol, agradecendo à Amatsukami pela graça que permitiu e dirija-se aos ancestrais, começando pelo uji-gami, continuando com os espíritos familiares que possam lhe oferecer maior orientação no momento, terminando com a citação de pelo menos um ancestral das últimas cinco gerações. Não ignore seus ancestrais, mesmo que um deles tenha sido um ninja.
- Durante a meditação para suas magias diárias, relembre e cite os fatos mais honrosos de sua ancestralidade, elogiando cada autor e pedindo que o ilumine com sabedoria e capacidade para enfrentar os desafios futuros.
- Pondere sobre suas ações para assegurar que não sejam ofensivas a sua família. Práticas desonrosas trazem desgraça e desapontamento dos ancestrais, necessitando uma reparação em preces ou atos. Nos piores casos, como traição familiar, pode levar à perda permanente de poderes divinos. Dentre os atos desonrosos, citam-se: cometer um crime, macular ou permitir que o nome, propriedade ou entes da família sejam lesados sem oposição, mentir diretamente (omissão cuidadosa de fatos e evasão de perguntas são permitidas), quebrar promessas, desobedecer a um comando honrado de um membro mais velho da família, negar um pedido justo de um membro mais novo da família, deixar de cuidar da área de veneração dos ancestrais e seu jardim adjacente (esta obrigação pode ser suspensa se um outro clérigo xintoísta da família assumir a responsabilidade), desrespeitar pessoas de grande honra como daimiôs, clérigos não-malignos de outras religiões ou seres de pureza inquestionável como dragões e kamis.
- Quando se alimentar reserve uma pequena porção de arroz (cru ou sakê) para agradecer aos entes passados pela prosperidade que lhe foi garantida.
- Em homenagem a Hachiman, lute sem recorrer a técnicas desonradas como envenenamento ou assassinato. Nem todos possuem os mesmos ideais; você pode tolerá-los com tristeza por seus atos, mas não é recomendável compactuar com seus modos.
- Realize suas ações de forma virtuosa e agradável aos ancestrais. Atos que trazem honra e prosperidade para a família são sempre bem-vindos. Enumeram-se algumas ações: ensine aos familiares mais jovens o caminho do xintoísmo ancestral, escreva um relato de feitos da família para que sejam relembrados por seus descendentes, componha um haiku em homenagem a um ou mais ancestrais, doe com generosidade quando seus parentes precisarem, seja espontâneo com seus atos de caridade em épocas de prosperidade, traga renome e glória à sua família realizando missões de mérito, declare sua ancestralidade quando se apresentar formalmente pela primeira vez para uma pessoa honrada ou após realizar um ato honroso. Isto é feito citando “Uji-gami [nome completo do ancestral]” antes de seu nome completo, denotando que você é um clérigo xintoísta. Note que o primeiro nome do personagem e do ancestral será o mesmo – o nome da família – mas esta repetição é mantida para evitar a sugestão de que o clérigo xintoísta ou seu ancestral não possuem família. Por exemplo: quando Hamada Kenshin da família Hamada cujo uji-gami chama-se Hamada Naomi, se apresenta pela primeira vez ao daimiô local ele se entitula “Uji Gami Hamada Naomi Hamada Kenshin”. Após o nobre reconhecê-lo, Hamada Kenshin está livre para utilizar apenas o seu nome.
- Antes de dormir, agradeça aos ancestrais por sua bênção e peça que o vigiem durante o sono. Agradeça a Reikon por ceder sua terra sagrada para o shiro shinden de sua família e retribua o favor ao Guardião das Almas combatendo ferozmente os espíritos que não descansam, para que recebam o julgamento do kami.
Mecânica de Jogo
Um clérigo xintoísta tem os mesmos benefícios do clérigo do Livro do Jogador e possui a seguinte escolha de domínios: Ancestrais, Honra e Ordem. Sua arma predileta é a wakisashi, pois simboliza a nobreza de sua ancestralidade, mesmo que o xintoísta em questão não possua título. Todo clérigo xintoísta recebe gratuitamente no primeiro nível a perícia Falar Idioma (Tenjou), uma vez que devem ser versados no idioma dos espíritos. O símbolo sagrado varia de acordo com a família, geralmente representado na forma de uma mandala de madeira com ideogramas relacionados a seus ancestrais, cada um estando sobreposto ao desenho de uma mansão simbolizando o shiro shinden. Os clérigos xintoístas podem ser de qualquer tendência leal, podendo canalizar energia positiva (tendência leal e boa ou leal e neutra) ou negativa (tendência leal e má apenas) para fins de expulsão ou fascinação de mortos-vivos, respectivamente. Os clérigos xintoístas de tendência maligna não devem criar mortos-vivos, utilizando energia negativa ao invés para mantê-los indefesos enquanto seus aliados se encarregam de sua destruição.
Domínios:
Domínio: Ancestrais*
Deus: Antepassados tokages ou nagas; antepassados do clérigo xintoísta
Poderes concedidos: Uma vez por dia, como uma ação livre, o clérigo pode pedir orientação àqueles que já se foram para obter respostas. Por uma rodada, o clérigo ganha em uma perícia a sua escolha um número de gradações virtuais igual ao seu nível de clérigo, que substituem (não se acumulam) as gradações que possui normalmente. Este poder concedido é uma habilidade sobrenatural.
* Descrito originalmente em “Mítica – Desbravando o Oriente”, sendo considerado conteúdo aberto (OGC), de acordo com a especificação na página 64 daquele livro.
Magias do Domínio dos Ancestrais:
1 – Auxílio divino
2 – Ajuda
3 – Falar com os mortos
4 – Adivinhação
5 – Comunhão
6 – Banquete de Heróis
7 – Lendas e Histórias
8 – Instante de Presciência
9 – Sexto sentido
Domínio: Honra
Deus: Hachiman (através dos antepassados do clérigo xintoísta)
Poderes concedidos: Sua fé o torna um combatente resistente a táticas tidas como desonradas. Você ganha um bônus de +2 em testes para resistir a manobras de imobilizaçao. Ainda, quando for atacado por inimigos que estejam lhe flanqueando, estes não recebem o bônus padrão de +2. Note que você permanece flanqueado, estando vulnerável a ataques furtivos. Em contrapartida, você recebe uma penalidade de -2 ao realizar uma manobra de imobilização ou quando flanquear e atacar um adversário.
Magias do Domínio da Honra:
1 – Remover Medo
2 – Zona da Verdade
3 – Heroísmo
4 – Poder Divino
5 – Marca da Justiça
6 – Tarefa/Missão
7 – Heroísmo, Maior
8 – Escudo da Ordem
9 – Virtude Inflexível
Virtude Inflexível
Transmutação [Ordem]
Nível: Honra 9
Componentes: V, G, FD
Tempo de execução: 1 ação padrão
Alcance: Pessoal
Alvo: Você
Duração: 1 rodada /nível
Teste de Resistência: sim (somente a aura de honra; veja abaixo)
Resistência à Magia: sim (somente a aura de honra; veja abaixo)
Ao conjurar esta magia você se torna um representante máximo dos ideais honrados, incapaz de ser ludibriado por mentiras ou artimanhas mágicas e lhe conferindo poder para fazer frente contra o mais vil inimigo. Virtude Inflexível confere um bônus sagrado (profano se o conjurador canalizar energia negativa) de +4 em força, constituição e carisma. A arma que estiver portando ganha um bônus de melhoramento de +5 (substitui e não se acumula com o bônus original), além de receber a qualidade especial: axiomática, inflingindo 2d6 de dano extra em criaturas caóticas e sendo considerada uma arma alinhada à ordem, para propósito de redução de dano. Em adição, você adquire redução de dano 10/caótico e torna-se imune a efeitos de ação mental. Se por acaso você cair abaixo de zero pvs ainda pode agir normalmente, ainda que perca 1 pv por rodada, morrendo ao chegar a -10. Finalmente, uma aura de honra de 3m de raio centrada em você confere a todos os personagens, aliados ou inimigos, os mesmos benefícios das magias círculo mágico contra o caos e zona da verdade.


