18/02/1993, Belfast – Ulster
Sean observava o movimento da rua, sentado no parapeito de um prédio condenado. Via as pessoas andarem apressadas, com medo, já que, noites atrás um grupo de Unionistas massacrou uma família em um supermercado ao entardecer.
A policia não mostrava muita ênfase nas investigações, e boatos de uma represália do IRA logo viria, corria pela cidade. A mobilização policial, logo se tornou algo mais militar, não para pegar os Unionistas e sim para prender o maior numero de agentes do IRA.
O Sinn Féin condenou o ato dos Unionistas e a pouca ação policial, porém pediu aos “irmãos” do IRA que nenhuma represália fosse feita, pois eles estavam tentando mobilizar acordos de paz e não a manutenção da guerra. Alegou que os irlandeses não são bárbaros teimosos, apenas teimosos.
Naquele dia vários pontos da cidade, em bairros protestantes e centros comerciais, tinham amanhecido com mensagens pichadas do tipo; “Não somos bárbaros, mais também não levamos na cara”, “Aqui se faz, aqui se paga!”, “Quando a policia se mostra inútil, o Exercito tem que resolver!”, “A proteção em primeiro lugar, não podemos deixar os verdadeiros bárbaros matar mais do que já mataram”.
Vários jovens foram presos, pichadores e inocentes. Eles sofreriam interrogatórios condenáveis pelos direitos humanos, seriam tratados como o pior do lixo, falariam o que sabiam e o que não sabiam. Há maioria realmente não sabia de nada, eram apenas pessoas revoltadas com a situação.
Os Unionistas lançaram uma contra-ameaça, dizendo que assim que tivesse um ataque eles invadiriam um grande bairro católico, queimando, pilhando e matando. A policia notificou não-oficialmente que usaria de medidas extremas para a manutenção da paz. Isso queria dizer que o “descascador” estaria pronto para invadir as ruas.
Sean observava toda a crescente tensão sobre a cidade, o clima de preparação para a guerra.
Preparou seu fumo lentamente, no belo cachimbo de carvalho, presente de seu avô. Procurava pelo isqueiro quando ouviu passos atrás dele. Virou-se já com a mão por dentro da jaqueta, apenas para perceber que era o homem que ele esperava.
- É sempre assim que você recepciona suas entrevistas, Seanny? – disse o velho, com intimidade, apesar de ser a primeira vez que conversa com o ruivo.
Sean o encarou com certa indiferença, virando-se totalmente para o homem. Diferente de Sean, ele estava trajado como se fosse para uma reunião, um terno cinza, calças sociais, sapatos de couro, gravata com o nó bem feito. Tinha uma bela pasta em sua mão esquerda, enquanto oferecia um isqueiro com a direita. Seus cabelos grisalhos e bem cortados, um tanto bagunçados pelo vento, seus olhos castanhos, fundos, vivos, escondidos atrás de uns óculos meia lua.
- Você é sorrateiro MacCurry. - disse Sean, ascendendo seu cachimbo.
O homem sorriu, sentando ao lado de Sean.
- No meio que eu ando é necessário. - sorriu MacCurry - E me chame de Philip.
Sean apertou vigorosamente a mão de Philip, o fazendo mudar um pouco as feições frente à pressão do aperto.
- Bem, vocês políticos não são dados a explodir pessoas, pelo menos não literalmente, mas realmente são mais gatunos do que eu imaginava.
- E então, Seanny, pensou na proposta que eu, quer dizer, que o partido lhe fez? - disse MacCurry, com voz adocicada.
Sean o encarou, depois olhou por cima do ombro, vendo a cidade. Tragou o cachimbo, jogando a fumaça para o alto.
- Não sei se é a hora certa para mudar o campo de atuação, Philip, nem se eu seria levado a serio por vocês políticos. Pelo amor de Deus, eu não sei se sou levado a serio por meus irmãos de armas. - disse o ruivo, coçando seus cabelos.
Philip sorriu, encarando Sean. Retirou os óculos, os guardando no bolso, coçou levemente os olhos com o indicador e o polegar.
- Sabe Seanny, você tem prestigio, muita gente te conhece, muita gente te respeita. Você se tornou uma peça de destaque muito rápido nesse meio conturbado de poderes na Irlanda. Você tem fibra para ‘guentar o rojão, caráter para não ceder aos idiotas da Coroa. Sinceramente, eu acredito que você está perdendo seu tempo nesse meio. Sejamos sinceros, há muito tempo o IRA perdeu seu encanto, há mais “filiais” de vocês que da “Coca-Cola®” e muitas querem apenas lucrar com o tráfico. - Philip pigarreou, vendo certo desgosto no rosto de Sean - Com as articulações que está tendo por toda a Europa, logo será de suma importância tomar outras medidas para garantir nosso sucesso, e para isso será necessário bons jogadores que há muito conhecem esse jogo.
- Você se juntando a nos, não só teria a certeza de continuar na briga, como também estaria mais seguro quanto a sua relação com a policia e o exercito britânico. Eu soube que há agentes do MI atrás de você. - sorriu MacCurry, um mixto de orgulho e temor.
Sean sorriu, dando de ombros, sua face mostrava que ele realmente não se importava com quem estivesse caçando-o, nunca fora efetivamente pego quando criança, não seria agora que era experiente.
- Não me juntaria a vocês apenas para me esconder, MacCurry. Na verdade não tenho ânsias por me esconder atrás de politicagens.
Philip sorriu, olhando Sean.
- Você não estará se escondendo Sean, imagine quantas pessoas realmente pode ajudar com uma única pincelada. Bem mais que você já ajudou com todas as explosões, seqüestros e brincadeiras de bang-bang.
Sean o encarava serio. Não apreciava as brincadeiras que o político fazia, porém tinha certeza que ele tinha alguma razão em muitos pontos.
Levantou-se, olhando a rua abaixou, andou um pouco pelo terraço, sendo observado pelo homem de terno.
- Sabe Seanny, eu nunca imaginei que você ficaria tão igual a seu pai, sempre te vi mais parecido com sua mãe, apesar dos cabelos ruivos. - sorriu Philip - Mas no fim, você se parece com ele em muitos quesitos, pelo que eu pude notar, ao ler a sua história levantada pelo partido e pelo IRA.
Sean parou o encarando, sorriu meio orgulhoso, apesar do pesar em seus olhos azul-acinzentados. Pensou em dizer algo, perguntar sobre os pais, mas não conseguiu, fazendo as duvidas se entalarem em sua garganta.
- Eu, eu vou pensar Philip. Não posso dar uma resposta de imediato. - disse Sean, tentando manter-se sereno.
Philip sorriu, levantando-se. Caminhou até Sean, o dando um abraço paterno.
- Sábia decisão Seanny. Cuida-te, filho. - disse olhando nos olhos de Sean, dando leves tapinhas em seus ombros.
Sean sorriu, voltando ao parapeito, vendo a cidade, que para ele naquele momento parecia mais vibrante, viva.
- Ei Sean, você ainda participa dos mutirões? - perguntou Philip parando a porta que dava para o interior do prédio.
Sean virou-se surpreso, concordando com a cabeça.
- Imaginei. Bem Seanny, seus pais ficariam orgulhosos de você, e por isso gostaria que você continuasse o trabalho do Gerald, onde quer que ele esteja, tenho certeza que seria isso que ele gostaria que você fizesse. Até breve Seanny, se der apareça em uma das reuniões do Sinn Féin. - disse sumindo atrás da porta que se fechava.
Sean sorriu, sentando no parapeito, imaginando se ele realmente podia continuar o trabalho do pai.
