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Na Língua dos Melros

MensagemEnviado: 31 Ago 2008, 01:28
por Blackbird
Na Língua dos Melros


A selva está gelada hoje como em todo começo de inverno e as folhas estão quase que inteiramente cobertas por pingos d’água, que surgem pela manhã. Está frio. Aprumo as plumas enquanto os pequenos acordam, já piando alto como se a fome os tivesse açoitado durante todo o sono. Pio com eles. Hoje será difícil alimentá-los. O frio, mais intenso que nunca, os acordara cedo demais, e, sem uma mãe para acalmá-los e aquecê-los, não poderei deixar o ninho. Mas devo. Mas preciso.

Mas não se calam, os pequeninos. Os três nasceram Pretos, como eu; a quarta, única Castanha, não quebrou o ovo. E não se calam. Piam alto, piam forte, piam fome. Eu silencio. Olho à volta, disfarço, acreditando que todos entenderiam se eu quebrasse as regras uma vez apenas; uma vez ou outra, talvez, mas saberiam meus motivos. Saberiam que é começo do inverno e que acordamos cedo demais, saberiam que o Jaguar tomou a mãe Castanha e que não se pode deixar um ninho sem cuidados. Saberiam que eu não tinha escolha. A grande Mãe sabe dessas coisas, e nenhum filho padece sob elas. Por isso modifico o procedimento. Entôo a canção, a primeira do dia, pois hoje o Melro cantará três vezes. Não é a canção da Manhã, que se canta depois do desjejum e que se saúda a luz da aurora. É a canção da Noite, na qual concordamos com a treva que o crepúsculo traz e restamos em silêncio. Nós Melros conhecemos muitas canções.

Grave e lenta a melodia, reconfortante, submissa. Quer queiram, quer não, toda a selva deve ouvi-la agora, pois é dela que minha cria precisa. E todos ouvem. Quem já amanhecera se assombra, mas adormece mesmo sob o frio. Quem se ativara ergue os olhos e estranha, imaginando um aviso, e não dorme mais, agora em alerta como se fosse noite, mesmo. Afinal, também as aranhas e morcegos se acordam com minha canção, mas não abrem os olhos, pois a luz lhes aflige. Os pios cessam. Dormem os pequenos, novamente, e em dois ou três vôos tenho folhas secas para cobrir o ninho até minha volta.

A selva questiona-me quando vôo. Seria noite agora?, qual razão leva o Melro a cantar a noite em dia frio como hoje?, mas entendem, no fundo, sei que entendem, pois meu vôo é agitado e atento ao chão, ao amarelo das bananas, ao rubro dos formigueiros, ao cromado dos besouros, e assim eu vôo, eu mergulho e pouso e viro a laranja co’a fenda para cima, pois caiu-se com baque à noite e abriu-se com a queda tal qual os olhos abrem com a manhã, e cutuco com o bico e está boa e saudável, e não me privo de bicá-la para mim, e está fresca ainda e está madura e menos azeda que nas estações anteriores. E me acalmo. Sabia que a Mãe compreenderia. Aceito a oferta, coleto as bagas pensando em cada um de meus três filhotes, e tomo altura batendo asas com pressa e sem presságios.

O retorno é valoroso e tão reconfortante quanto o silêncio da fome. Ninguém acusa, ninguém pergunta, ninguém duvida. Sabem que o Melro não busca comida à noite, e eu encontrara agora e voltava ao ninho. Sabem que não é noite, mas duvidam do dia, enquanto os mais astutos aguardam, já sem confusão, e observam. Dá-se logo minha chegada, estou afoito. Acordo-os, eles voltam a piar depois de pouco, mas desta vez sentem o aroma cítrico do meu bico e de minhas penas e pedem pelo que eu trouxera. Alegro-me, e, mais de uma vez, bico a bico dou-lhes bagas, e bico a bico escuto satisfação e silencia a fome.

No silêncio da fome inflo-me e tomo voz segura, toda selva aquieta-se como se de repente prendesse a respiração. Soa a canção da manhã, rítmica, de gradativo calor e abrangência incontestável. Os feixes de luz passam, então, a invadir a selva, e as outras canções a surgir, convictas da manhã que anunciam. Termino minha canção, olho à volta. Os que amanhecem com o som agora compreendem, apesar de já saberem, e eu sei que sabiam, e os de olhar mais aguçado confirmam suas pequeninas teses e os predadores e demônios da noite aprofundam o sono; e minha prole se ergue vívida do ninho ao mundo, pois é manhã.

Tem-se um dia inteiro até que a noite exija uma nova canção; tem-se um dia inteiro até então.

Este é recente, data do fim de Abril. É a primeira história que escrevo sobre o dia-a-dia de um Melro, Blackbird ou Turdus merula como preferirem.

Na Língua dos Melros

MensagemEnviado: 18 Mar 2009, 15:20
por Miifva
Saudações,

Aventurava-me pelo Índex, quando me deparei com o título deste conto. Boas lembranças! Muito boas lembranças me vieram.

Lembrei-me de um poema de Guerra Junqueiro que me foi aconselhado por um senhorinha certa vez. E eu, que às vezes acato conselhos, fui atrás do poema e tive grata surpresa! O nome do poema é "O Melro".

Tomo a liberdade de transcrever o seu comecinho:

I
O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar d´entre o arvoredo
Verdadeiras risadas de cristal.
E assim que o padre-cura abria a porta
Que dá para o passal,
Repicando umas finas ironias,
O melro d´entre a horta
Dizia-lhe: Bons dias!
E o velho padre-cura
Não gostava daquelas cortesias.

_____


Grata surpresa, também, me foi teu conto. Eu gostei muito. Vi nele aquela Poesia que procuro em todas as coisas que procuro! Porque é assim para todo poeta: a gente sai procurando por aí coisas diversas, mas de todas as coisas que olha, só enxerga as que têm Poesia.

Como a senhorinha me aconselhou um dia o poema do Junqueiro, eu aconselho a todos o teu conto.

Parabéns!
_____

Amor e Poesia a todos.

Até!

Na Língua dos Melros

MensagemEnviado: 21 Mar 2009, 19:12
por Elara
Olá Blackbird!

De fato a leitura do seu conto me passou batida na época. Mas devo aproveitar a deixa para manifestar que é uma linda narração. Todos os elementos ficaram harmônicos no texto. Parabéns.

:pidao:

Chero!

Na Língua dos Melros

MensagemEnviado: 23 Mar 2009, 21:52
por laharra
Como disse Elara, a harmonia no texto é o ponto forte. A quebra da rotina e o sentimento familiar tornaram o melro do texto singular, ao mesmo tempo que passou o que representa a ave. Fui até procurar no youtube o canto dele pra escutar :cool:

Também me remeteu logo a uma canção da banda Alter Bridge, chamada Blackbird, que faz uma analogia entre essas particularidades do melro com uma história de amor.

É uma pena que o conto tenha passado batido por tanto tempo. Abraços!

Na Língua dos Melros

MensagemEnviado: 24 Mar 2009, 10:35
por Madrüga
Eu lembro de "blackbird" dos Beatles, XD. Mas sempre por causa do autor e porque minha mãe adora essa música.

O conto é bonito, mais lírico que narrativo (quanto tempo até aparecerem aqui tentando levá-lo para a seção de poemas?); contudo, duas coisas me incomodaram um pouco: o uso da palavra "selva" (que tem conotação de floresta tropical, que não fica fria no inverno e não abriga esse pássaro) e o uso excessivo de maiúsculas, que não entendi muito bem.

No mais, valeu para começar o dia hoje. Miifva ficou se perguntando do necropost do Dahak alhures... olha aqui um ótimo uso para isso.

Na Língua dos Melros

MensagemEnviado: 25 Mar 2009, 11:33
por Blackbird
Bem, depois de um tempão, respirei fundo e vim responder os comentários sobre o texto.
Separei individualmente pro visual ficar mais limpo, só; fiquem à vontade.

Miifva,
SPOILER: EXIBIR
Haha, sempre fico feliz quando minhas coisas inspiram os outros!
Espero que tenha dado contas aos impulsos ou às correntes de inspiração que toda poesia carrega.
No mais, gostei muito d'O Melro do Junqueiro!
Guerra Junqueiro escreveu:Há mais fé e há mais verdade,
Há mais Deus com certeza
Nos cardos secos dum rochedo nu
Que nessa bíblia antiga… Ó Natureza,
A única bíblia verdadeira és tu!...
, muito bom.
Grato pela atenção. =)

Elara,
SPOILER: EXIBIR
Ainda bem que o ressucitaram, então! Haha.
A idéia é que a narrativa venha do pássaro, logo é muito bom que tenha ficado harmoniosa. /o/
Obrigado!

laharra,
SPOILER: EXIBIR
E é mesmo singular, no fim das contas. Nenhum outro senão aquele dá início à noite ou avisa que já é de manhã.
... o que me parece uma coisa bem egoísta, agora (haha), e me lembra do que falou um chefe Samoano sobre as profissões dos Brancos. Enfim.
Já ouvi essa música do Alter Bridge!, mas foi recentemente. Gostei, e é capaz que faça referência até mesmo à homônima, dos Beatles!
Enfim, agradeço o comentário!

Madruga,
SPOILER: EXIBIR
Cara, sabe que teve uma época que eu me lamentava por não haver Melros no Brasil e redondezas? - pra fazer o texto pesquisei um bocado de detalhes, mas deixei passar essa gafe da localidade e distribuição do bicho, uma coisa que eu já sabia e que era provavelmente mais importante que quaisquer outros detalhes.
Você está certo quanto ao inverno; quase não há variação de temperatura na selva, mas achei possível que o pássaro (mesmo deslocado de seu habitat natural, como vejo agora, haha) percebesse a mínima alteração e a percebesse diferentemente. Aí não é frio ou inverno para nós; mas para o Melro, quem sabe?
O caso das maiúsculas foi, em partes, abuso meu. Relendo o começo, desperdicei em "Pretos" e "Castanha", por exemplo, mas a Mãe, o Jaguar, a Manhã e o Melro vão assim porque me pareceram coisas importantes pro Melro (bem como na escola se aprende a escrever Sol, Lua, Terra e, eventualmente, Deus). Talve seja capricho, posso ter deixado passar outras coisas que também valeriam a grafia em destaque.
Sem comentários sobre a música dos Beatles. Uma menina já a tocou no violão, pra mim. :pidao:

Agradeço em peso pelos apontamentos. Valeu.



No fim, o texto já faz quase um ano de idade.
Merece uma edição massiva (:P) e (talvez) continuidade.

Obrigado geral pela leitura, pelo retorno. :3

Abraços!