Iuri escreveu:Madruga escreveu:Aliás, terminei de ler "player piano" do Kurt Vonnegut hoje, o livro é o futuro dessa discussão.
Sobre o que ele fala?
É um distopia futurista mais "pé no chão" que Admirável mundo novo ou 1984, e bem menos paranoica também. O livro conta a história dos EUA em um ponto no futuro onde as máquinas são responsáveis pela esmagadora maioria dos trabalhos, e as cidades acabam por se dividir em duas partes: a parte da elite, onde estão as maiores fábricas e moram os engenheiros e administradores, e a parte das pessoas comuns. Como não existe muito trabalho (até caixas de mercado são automatizados, trens, fogões, casas são padronizadas e feitas de material barato e acessível, todo mundo tem os mesmos bens e consome tudo baseado em cálculos feitos pelas máquinas das indústrias), as pessoas comuns que não passam nos testes de QI são obrigadas a três opções:
(1) Alistar-se no exército (inclui polícia);
(2) Juntar-se aos "Reclamation & Reconstruction Corps" (apelidados de "Reeks & Wrecks"), homens que fazem trabalhos simplórios, do tipo que não vale a pena mandar máquinas fazerem.
(3) Abrir um bar, barbearia, quitanda. Existem pouquíssimos empregos sem interferência de máquinas.
Esses trabalhos, na realidade, não têm real utilidade: eles são cheios de hierarquias complicadas para manter os trabalhadores ocupados e recebendo pouco. O consumo é controlado, máquinas domésticas são acessíveis, então todo mundo trabalha pouco em casa e vê muita TV, bebe bastante, etc.
A elite dos administradores e engenheiros se arvora o "dever de manter a sociedade funcionando", e se cercam de privilégios, imunidades, planos de saúde e segurança, o direito de andar armados, ganham rios de dinheiro, viajam, têm carros, etc. O governo funciona em conluio com as grandes empresas, então eles controlam literatura e todo tipo de arte que possa inspirar pensamentos fora do status quo (tipo incitar revolta contra as máquinas). As pessoas passam a maior parte do tempo sendo inúteis, se achando inúteis e fazendo nada, porque as máquinas fazem boa parte das coisas e só engenheiros e administradores tomam conta da manutenção das máquinas e do governo.
Os registros das pessoas são mantidos por máquinas, e para sempre. Um personagem, engenheiro, tragicomicamente perde seu emprego porque projetou uma máquina capaz de realizar seu próprio trabalho. Entretanto, como tinha notas baixas na faculdade em outras áreas, não conseguiu emprego nenhum (porque a seleção era feita por máquinas) e acabou tendo de se alistar aos Reeks & Wrecks. Desempregados são fichados pela polícia, com medo de que se tornem sabotadores.
Enfim, a história segue o Dr. Paul Proteus, engenheiro famoso responsável por Ilium, NY. O pai dele foi uma grande figura na mecanização do pós-guerra, então ele tem know-how e uma linhagem para honrar. Enquanto isso, rumores de uma certa resistência subterrânea começam a aparecer, e as implicações são chocantes. Paul começa a se cansar do materialismo e competitividade dos engenheiros e de sua esposa... e o resto é spoiler.


