Em um dos outros tópicos sobre religião - já não sei mais qual - o Gladius apontou que a igreja sugere a abstinência sexual como a melhor forma de se evitar doenças sexualmente transmissíveis e gravidez indesejada. A princípio, a lógica é infalível: se você não faz sexo, não pode ter filhos, e diminui sensivelmente a chance de pegar uma DST. Mas esse princípio deveria ser adotado como uma política de saúde pública, ou mesmo como uma política interna da igreja?
Um ponto importante é avaliar se as pessoas são de fato capazes de se manter abstêmias. Existem vários grupos sociais que proclamam viver em total abstinência, então um bom começo é verificar se a realidade confere com o que eles dizem.
Para começar com o óbvio: padres. Desnecessário dizer que estatísticas sobre o assunto são incrivelmente raras, então vocês vão me perdoar pela fonte. Em um artigo (revoltante, por sinal) para o site Catholic Culture condedando o homossexualismo entre os padres, o reverendo Paul Shaughnessy inadvertidamente oferece alguns dados interessantes para o assunto em questão: primeiro, que centenas de padres americanos morreram de AIDS desde os anos 80. Segundo, que embora não se saiba estimar o número de homossexuais dentro da igreja, não se espera que ele seja menor que o número de homossexuais na sociedade em geral.
Os próprios padres gays, por sua vez, dizem que esse número é muito maior. Uma pesquisa anônima feita com padres do estado de Nova York teve 65% dos respondentes dizendo terem tendências homossexuais. Ainda segundo o artigo da Catholic Culture, o número de homossexuais dentro da igreja é grande o suficiente para que bares gays em grandes cidades tenham dias separados para o clero, e por aí vai.
Naturalmente, ser homossexual e respeitar os votos de celibato não são condições incompatíveis - mas é razoável supor que para um padre homossexual a tentação está muito mais próxima do que para um padre heterossexual, e por força dos escândalos de abuso sexual e do movimento gay esses dados são marginalmente mais públicos que os dados referentes à quebra de celibato por padres heterossexuais. De qualquer forma, o fato de que muitos padres quebram seus votos (parte deles recorrendo à racionalização de que o celibato não proíbe a relação homossexual) pode ser comprovado tanto pelas mortes de padres por HIV quanto pelos raros, mas significativos, casos de abuso sexual.
No que se refere aos padres, o celibato pode ser considerado um sucesso em termos. Mesmo considerando os números mais altos referentes ao número de padres que quebram seus votos, eu pessoalmente acho incrível que 40% ou mais do clero consiga manter seus votos ao longo de toda a vida.
Mas os mesmos números apontariam para até 60% dos padres falhando em sua tentativa de se manterem celibatos, certamente uma estatística preocupante para a hipótese de se adotar a abstinência sexual como política de saúde. Se mesmo os padres, que têm treinamento e formação para resistir às tentações da carne, não resistem, devemos confiar que a população em geral o faça?
Naturalmente, é uma argumentação frágil, pois reside em números frágeis. Por isso, pretendo avançar para um grupo sobre o qual existem pesquisas muito precisas: adolescentes.






