Acabo de escrever este texto. Não copiei de lugar nenhum, não tive a idéia lendo de nenhum lugar. A principal fonte inspiradora foi um tópico de um fórum, e eu estou disposto a passar o link direto para quem me escrever por mensagem particular (não será postado aqui devido ao medo de ser acusado de apologia a drogas).
O Terror de um Vício.
Um jovem começa a rabiscar em um pequeno caderno, tomando uma xícara de café e desligando o monitor de um computador.
Olá. Meu nome é Brian. Brian Bloom. Eu tenho 20 anos, e esta, é a minha história.
Tudo começou em uma noite chuvosa. O ano era 2003. Um amigo falava comigo pela internet. Eu sempre fui considerado um “nerd”, veja bem. Meu personagem de filmes favorito era o machista Deckard e quando eu soube do anúncio que o filme de Senhor dos Anéis sairia fiquei fantasiado uma semana de Gandalf. Meus colegas me apelidaram de “Mago” desde então. Por sinal, adorei os filmes, mas onde estava Tom?
Mas, voltando àquela noite, um amigo falava comigo. O nome dele era Skip.
“Lançaram uma nova edição de D&D esse ano, cara, a 3.5, e eu comprei os livros semana passada!”, ele disse.
“D&D?”, eu perguntei. Quem me dera tivesse apenas comentado “legal” ou “super!”. Quem dera.
“Nunca jogou D&D? Meu irmão mais velho me ensinou quando eu tinha uns 10 anos, mas agora que eu comprei os livros é para jogar a valer.”
Curioso, perguntei do que o jogo se tratava, e ele me explicou que era um RPG. Quando ele começou a falar de elfos, me conquistou, quando falou sobre magos, me apaixonei.
Não demorou muito, eu coloquei as mãos no exemplar do Livro do Jogador de Skip. Eu devorei aquele livro como se minha vida dependesse. Deixei apenas a parte de Classes que não me interessaram de lado. Tornei-me um jogador em questão de dias, e um viciado em semanas.
E então, um mês e meio depois, tentando sem parar formar um grupo, conseguimos. Àquele ponto, eu já possuía meus próprios exemplares da tríade dos livros. Skip conseguiu mais três jogadores dentro do nosso grupo de amigos, motivando e ensinando D&D para eles.
Relendo uma noite, na antevéspera da primeira sessão, meu Livro do Jogador, parei na parte de Classes. Afinal, será que o Mago seria o mais indicado?
Uma outra classe chamou-me a atenção. Ela chamava-se Monge. A princípio, não achei nada relativamente impressionante. A idéia de um personagem oriental em um jogo europeu medieval que me arrepiou os cabelos.
E logo que li a classe completamente, senti uma vontade extrema de jogá-lo. Skip pensava que eu jogaria de Mago, mas... a tentação era extrema. Eu não conseguia pensar em coisa alguma além do monge. No dia do jogo, um sábado, nos reunimos cedo, logo após o almoço, para jogar até quando desse. Todos estavam muito excitados, então, começamos a criar os personagens.
“Para termos uma idéia da realidade do grupo, expliquem um pouco de cada uma de suas classes para os outros”, dissera Skip, com um ar autoritário e experiente. Lembro ter pensado que ele deveria ter jogado muito com o irmão.
“Eu serei um Bárbaro Meio-Orc”, disse Monte. “Vou maximizar Força e Constituição, e fazer um Bárbaro cheio de pontos de vida e dano.”
“Serei o Clérigo do grupo”, disse Jonathan. “Minha Sabedoria e Carisma salvarão o grupo de mortos-vivos e de ferimentos. Hmm... sou um humano!”
“Eu pretendia jogar como conjurador, mas vou deixar para o Mago”, disse James. Todos riram, eu forcei uma risadinha. Minha cabeça estava a mil. “Então vou ser o Ranger ou um Ladino... ainda não sei bem. Você me dá um momento, Skip?”
“Claro”, disse Skip. “E o Brian será um Mago, é cla-”
“Não!” eu interrompi. Os meus amigos pareceram surpresos. “Não. Eu serei... eu serei o Monge!”
“O Monge?” perguntou Skip, com uma sobrancelha curvada. “Bem... você que sabe. Alguma idéia específica?”
“Sim. Eu posso combater, eu posso dar suporte, eu posso correr, eu posso quebrar. Eu sou o personagem mais importante para um grupo!” eu disse.
Os rapazes pareciam confusos. Nenhum deles conhecia o monge a fundo, então aceitaram minha palavra como verdade. James decidiu jogar de Mago. Um transmutador, para ser preciso.
E eu comecei a fazer a ficha. Ele se chamou Soi Fong Li. Tive um certo problema com os atributos, na hora da escolha, mas depois de um tempo todos estávamos prontos.
[...]
E todo o resto parece um tiro no escuro. Eu joguei aquela campanha, a seguinte, a seguinte e a seguinte com monges. Se eu pensava em D&D, eu levava o pensamento para meu personagem desviando de projéteis e agarrando oponentes. Se eu sonhava com Greyhawk, eu falava “Rajada de Golpes!” dormindo. Se eu conversava sobre RPG, logo a RM do meu monge atual era o assunto principal.
Eu respirava monge. Eu vivia monge. Eu era um fã de monges. E ninguém provaria o contrário.
Foi por volta do fim de 2004, início de 2005, que a coisa começou a sair do meu controle. Eu entrava em fóruns irritado com os comentários contrários aos monges. Afinal, ele era imune a todos venenos, não sofria dano por queda, tinha bônus na CA, rajada de golpes, ataque atordoante, RM, possuía habilidades etéreas, corpo de adamante. Ele era perfeito! Tinha tudo! Podia escapar de magias! Lutava como um anjo! Tinha um deslocamento gigantesco!
Mas aquelas pessoas eram tolas, insensatas, em minha opinião. Eles não aceitavam a superioridade do monge. Provavam, usando regras tiradas de lugar nenhum, como o monge era fraco. Como o bárbaro lutava melhor, como o ladino era melhor em aventurar e perícias, como os magos destruíam os monges mesmo com RM máxima.
De invenção em invenção, aqueles invejosos tiraram lentamente minha sanidade. Eu não conseguia resistir à idéia de que existia alguém neste mundo do RPG que não reconhecesse monges como os melhores. Ou pelo menos como uma boa classe! Claro, eles levavam em conta a opinião pessoal, mas os fatos estavam lá! Monge era uma ótima classe, se não a melhor!
Minha família começou a perceber meu problema. Perceberam que eu estava sempre mergulhado em suplementos procurando como melhorar meu monge. Classes de Prestígio não eram o suficiente, afinal, impediriam que o Monge alcançasse habilidades de níveis mais altos, que poderiam ser essenciais. Eles não compreenderam que eu achava que era o melhor para mim. Se minha querida classe estivesse a calmo, eu estaria salvo.
E resolveram me internar. Foi uma ótima coisa para mim, como eu venho a perceber agora. Talvez tenha até salvado minha vida. Cada vez que um fã de bárbaros dizia que um bárbaro no primeiro nível causava mais dano que um monge no vigésimo, eu morria um pouquinho por dentro.
E minha reabilitação foi lenta. Eu lembro, naquele dia de outono de 2006, quando chegamos a esta clínica, e precisei ser segurado por dois homens de pelo menos dois metros para abandonar meus livros e meu caderno (com um monge desenhado na capa), no carro de meus pais.
Saí apenas em 2007. Meio de 2007. Curado. Claro que voltei a jogar D&D. Meus amigos prometeram a meus pais que cuidariam de mim – meus pais sempre foram compreensivos e entendem que era um jogo muito divertido –, colocando monges e livros em geral longe do meu alcance. Eu podia jogar apenas com classes conjuradoras, disseram na clínica, porque, senão, poderia sofrer uma recaída. E ninguém no grupo falava nem a palavra. Eles queriam me ver reabilitado completamente, e, se eu não jogasse, não seria possível viver normalmente mais uma vez.
Hoje estou muito melhor. Conheci uma garota na clínica – ela havia sido internada por ter criado um tal de Hulking Hurler com um dano absurdo e querer apenas jogar com ele – e hoje estamos namorando. Mas não jogamos juntos, nem falamos sobre RPG. Sabemos que ambos corremos muitos riscos se relembrarmos nossos tempos de clínica, e porque fomos internados.
É com muita dificuldade que eu escrevo tudo que conto neste diário. São memórias dolorosas. Saber que nunca mais poderei jogar com aquele que um dia foi meu primeiro amor é um problema. Mas, se Gygax quiser, eu estarei 100% muito em breve.
Brian desce a caneta. Toma o último gole do café agora frio e liga o monitor. Seu amigo havia escrito algo pelo programa de comunicação.
“Vamos fazer um grupo para jogar a quarta edição de D&D?”.
Era Skip.
“Vamos”, Brian respondeu. “As classes vão melhorar, não é?”
“É”, respondeu Skip. “Estão comentando que uma aí vai ficar ótima.”
“Qual?” Brian perguntou.
Skip não respondeu.
“Skip? Skip? Qual?” Brian perguntou.
“O Monge”, ele respondeu, finalmente.
Brian fechou os olhos. Respirou fundo. Abriu os olhos. Sorriu. E começou a gargalhar...
O FIM...
...será?
_______________________________________________________________________________________
Escrito por R. K. Z.
- Os nomes Brian Bloom, Jonathan, James, Skip e Monte fazem referência direta e nada disfarçada a envolvidos com o jogo de D&D e o criador principal do monge (Brian Blume).
- Este texto, apesar de ser humorístico, reflete a realidade de um tipo de um jogador conhecido como Monk Fanboy. Apesar do exagero, não faça contato visual com esses jogadores, não tome do mesmo copo, não comente do desempenho do seu time, e, mais importante, NÃO RESPONDA. Essa condição é contagiosa e os que sofrem dela podem ser perigosos.
- Se você tem sintomas parecidos aos descritos neste texto, procure ajuda AGORA. Fóruns de RPG, na sessão de D&D são o suficiente. Faça esforço para aceitar comentários dos usuários. Eles querem lhe ajudar.
[EDIT: acho que assim fica melhor para ler. E corrigi um erro de digitação (faltou um acento)]














Gmail/gtalk/MSN: gilnei.nh ahoba gmail.com
@Macnol
Facebook
Google Reader