Parte 46: Afonso
Alfredo me ligou cedo, preocupado com a pequena Bárbara. Sua situação havia piorado, tendo sido totalmente dominada pela fraqueza. Me apressei para ir à sua casa e, assim que cheguei, me dirigi ao quarto da garota que dormia profundamente, ignorando o estado de tristeza e desespero em que meu irmão se encontrava.
“Porque isso tinha de acontecer com a Bárbara, meu Deus? Logo com ela?”
“É uma provação, Alfredo. Você tem de ser forte”.
“Mas por que as crianças? Por que não os adultos?”
“As crianças têm um sistema imunológico mais frágil. Precisam se fortalecer. Bárbara estará mais forte, quando melhorar”.
“Ela precisa ser internada. Vamos levá-la daqui”.
“Calma, Alfredo. Não vai acontecer nada com ela. Eu não vou deixar. Você cumpriu a receita corretamente?” Pergunto, fazendo-o falar, para que se acalmasse. Bárbara teria de ser internada. Precisaria de mais exames, para descobrir o que era aquilo. Não era coisa comum. Câncer de estômago ou fígado, talvez? Ou quem sabe causas neurológicas, como um tumor cerebral? Espero que não. Peço a Deus que a proteja de tais males.
“Claro que sim. Mas o Joilson, do terceiro andar, disse que também deu os remédios certinhos, quando seu filho adoeceu. Será que é uma epidemia ou algo assim?”
“Joilson? Quem é esse?”
“Um cara do terceiro andar. Pai do garotinho que morreu semana passada”.
“Morreu um garotinho semana passada? Ele tinha o mesmo que a Bárbara?”
“Fraqueza, mas também não era anemia. Tenho medo que aconteça alguma coisa com ela”.
“Por que não me disse antes?! Por que não me avisou sobre esse garotinho?!”
“Me desculpe, fiquei sabendo esses dias”.
“Ele teve fraqueza repentina e que piorou com o tempo, mesmo com os remédios necessários? Morreu sem que se soubesse o que ele tinha?”
“Você já viu um caso assim antes?”
“Saia do quarto. Vou dar uma coisa pra fortalecer o sistema imunológico dela”.
“Mas, você já viu...”
“Saia do quarto!”
Crianças ficando fracas e doentes sem nenhuma razão aparente. Exames médicos não indicando a causa. Cânceres ou tumores em duas crianças tão próximas? Não existem coincidências tão grandes. Só podia ser uma daquelas malditas criaturas. Um maldito devorador de vidas inocentes. Na primeira vez que encontrei um deles, há cerca de quinze anos, eu era inexperiente. Foi mais sorte do que habilidade o que me levou a ele, assim como o tiro que lhe dei. Ainda me lembro do maldito monstro que parecia mais um manto esfarrapado ambulante que flutuava rapidamente acima do chão e se mesclava às sombras ambientes. Seus membros finos eram quase imperceptíveis, devido à distância e velocidade com que se movia. Deus me deu uma ajuda naquela noite e me encontrei com ele. De seu rosto, coberto pelas sombras do manto, só consegui ver seus olhos, refletindo luz, como os olhos de um gato. Ele correu, mas a Mão de Deus liberou o Anjo Miguel, que o alcançou, abrindo um enorme buraco em seu tórax magro, derrubando-o. Comecei a correr até ele, pensando tê-lo abatido. Como eu era inexperiente... A criatura se levantara num salto, assim que caíra, me lançara um olhar selvagem, com aqueles grandes olhos brilhantes, e voltara a correr, rapidamente desaparecendo na escuridão da noite, como se o rombo no peito nada significasse. Ainda tentei um segundo tiro, mas a distância fez com que Gabriel o atingisse apenas de raspão. Por mais que o golpe de um Anjo seja poderoso, não foi o bastante para destruir a criatura. O pouco sangue que caíra do ferimento, evaporara diante de meus olhos, antes que eu pudesse colher qualquer amostra.
Agora Deus me dava mais uma chance de acabar com outro daqueles seres detestáveis. Eu estava certo, era uma provação. Porém, era minha, não de Alfredo. Era eu quem devia ser forte. Seguir em frente, como Deus me mostrou. Caçar essas malditas criaturas. O culto que eu andava investigando teria de esperar por uma ou duas noites. Abri a delicada boca da pequena Bárbara, tomei fôlego e soprei. Senti minhas forças se esvaindo, enquanto fazia a transfusão de energia vital para repor o que o monstro havia roubado. Infelizmente, não foi o bastante, pois ele já devorara muito de sua vida. Eu me sentia exaurido e, mesmo assim, não foi o suficiente para recuperá-la. Eu não estava sendo forte. Me levantei, ofegante, e abri a porta do quarto. Meu irmão me esperava, ansioso, do lado de fora.
“E então?”
“Ela deve acordar até a noite, quando voltarei para vê-la. Continue dando os remédios e faça-a comer alguma coisa. Acredite em mim, ela vai ficar boa”.
“Aconteceu alguma coisa? Você não parece bem”.
“Sim, aconteceu. Cuide bem dela. Eu volto à noite”. Digo, saindo da residência de meu irmão e me dirigindo para a minha. Ligo para o hospital e aviso que não poderei ir hoje, por não estar me sentindo bem. Em casa, como alguma coisa, oro agradecendo e pedindo, me automedico e durmo, para repor minhas forças. A criatura se alimentara recentemente. Eu tinha algum tempo, até ela sentir fome outra vez. E quando aquilo acontecesse, ela experimentaria o mesmo que aquela outra que eu encontrara há seis anos. A maldita coisa teria um fim como aquela, que vestia moleton com capuz, se disfarçando como uma pessoa normal. Sua passagem de volta para o abismo que a criara.
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Depois de almoçar, volto para a escola, onde assisto as aulas da tarde. Aparentemente, Ceifador cumpriria sua parte do Pacto e me deixaria em paz. Isto protegia minha família e impedia que eu me tornasse um assassino como ele. De repente, uma imagem volta à minha mente, para me assombrar. Um homem levando um tiro na cabeça, na noite em que invadi a casa do primeiro vampiro. Eu já era um assassino, mas negava esse fato. Negava, pois a necessidade me forçara a agir. Felizmente, não precisaria sair durante muitas noites. Não repetiria aquele erro. Estudaria nos livros roubados, além de cansar os homens que me procuravam, o que acabaria fazendo com que desistissem de sua busca. Volto pra casa, onde tomo um banho e tiro os pontos de meus ferimentos, por já estarem melhores. Troco de roupa, pedindo que Luna faça o mesmo, para esperar minha mãe. Fazia um bom tempo que não saíamos juntos.
Chegamos ao apartamento, no oitavo andar. Tia Ana Paula estava fazendo uma sopa para Bárbara, enquanto Alfredo e Diego faziam companhia pra garota, que estava fraca e de cama, porém, desperta. Com toda aquela gente no quarto, me pediram para abrir a janela, que estava fechada para evitar o ar frio da noite, que poderia fazê-la piorar. De repente, ao tocar a janela, minha mente foi tomada violentamente. O quarto estava escuro e Bárbara dormia em sua cama, quando eu vi, entrando pela janela, uma coisa que parecia quase invisível na escuridão. Ela vestia um manto todo esfarrapado que cobria seu rosto com sombras, deixando à mostra apenas os grandes olhos brilhantes, como os olhos de um gato. A coisa tinha braços e pernas finos, de cor clara e cinzenta e se aproximou da cama, onde Bárbara dormia, se abaixando, como se fosse beijá-la e, de repente, voltei a mim. Estava sendo amparado por Diego, pois aparentemente, quase caí no chão. O quarto estava claro e cheio de gente novamente, sem nenhum rastro da coisa que vi em minha mente agora há pouco.
“Ainda aquelas dores de cabeça?” Diego pergunta me vendo massagear as têmporas, já estando acostumado com aquilo, por termos muito contato desde crianças.
“É. Fazia tempo que não as sentia”.
“Vamos marcar uma consulta, depois, meu filho. Fiquei preocupada, dessa vez”.
“Ei, Bárbara. Sare logo. Só podemos ter uma pessoa doente de cada vez, hein?”
“Quem mais está ficando doente aqui?” Diz um desconhecido entrando no quarto. Seus cabelos eram pretos e curtos, com alguns fios já grisalhos, sua barba estava há alguns dias sem fazer e suas roupas eram de cores claras. Seus traços faciais lembravam o Alfredo, que logo se dirigiu ao recém-chegado para fazer as apresentações, enquanto o desconhecido nos cumprimentava com firmes apertos de mão. “Que bom que chegou. Esta é Núbia, irmã da Ana Paula. Os dois são filhos dela. Este é o médico que está cuidando da Bárbara. É meu irmão, Afonso”.
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Nos reunimos na sala, enquanto Ana Paula fazia a filha comer, antes de eu administrar os medicamentos que fariam ela dormir. Fiquei conversando com Alfredo e Núbia, a cunhada de meu irmão, uma mulher bonita, inteligente e jovial, fazendo-me lembrar de Marianne, minha falecida esposa. Os dois garotos, Athos e Diego, foram para o quarto conversar e ver alguma coisa no computador. Luna, a sobrinha ‘torta’ de Alfredo, ficara ajudando Ana Paula. Depois que Bárbara terminou de comer, fiquei sozinho no quarto com ela e lhe apliquei um remédio, fazendo-a dormir, para que eu pudesse mais uma vez soprar minha vida para dentro de seu corpo debilitado.
Eu estava ficando velho. Após a nova transfusão de energia vital, me sentia mais uma vez cansado e exaurido, mesmo tendo descansado a tarde toda. Sentei no chão, ofegante. Isto só alimentava ainda mais minha vontade de acabar com a maldita criatura que estava se alimentando dela. Por mais raras e difíceis de encontrar que fossem, não sentia nem um pingo de remorso em caçá-las. Em quase vinte anos de atividade, era apenas a terceira vez que me deparava com aquilo e ficaria feliz se conseguisse leva-las à completa extinção. Cultos de gente maluca e perigosa que adoravam e serviam a monstros eram até comuns, apesar de difíceis de serem localizados e eliminados por completo. Assombrações e mortos-vivos também estavam em minha lista de caças mais freqüentes. Vampiros eram espertos, organizados, perigosos e difíceis de pegar, mas não impossíveis. Já aquelas malditas monstruosidades assassinas de crianças... Meu sangue fervia novamente e me levantei, trancando a janela, apagando a luz e saindo do quarto.
“Amanhã ela acordará melhor. Continue com os remédios. Uma semana sendo paparicada em casa e estará nova em folha. Preciso ir, agora, mas amanhã eu te ligo”. Digo para Alfredo e me despeço de todos, recusando o convite de Ana Paula para jantar ali e voltando para casa. Me automedico, enquanto preparava algo para comer. Depois de jantar, coloco o despertador para tocar e durmo.



Sério que tu leu diretão? Puutz... Fiquei até orgulhoso, agora.
