Sombra

Mostre seus textos, troque idéias e opiniões sobre contos.

Moderadores: Léderon, Moderadores

Sombra

Mensagempor Gehenna em 01 Set 2007, 14:20

Parte 46: Afonso

Alfredo me ligou cedo, preocupado com a pequena Bárbara. Sua situação havia piorado, tendo sido totalmente dominada pela fraqueza. Me apressei para ir à sua casa e, assim que cheguei, me dirigi ao quarto da garota que dormia profundamente, ignorando o estado de tristeza e desespero em que meu irmão se encontrava.

“Porque isso tinha de acontecer com a Bárbara, meu Deus? Logo com ela?”

“É uma provação, Alfredo. Você tem de ser forte”.

“Mas por que as crianças? Por que não os adultos?”

“As crianças têm um sistema imunológico mais frágil. Precisam se fortalecer. Bárbara estará mais forte, quando melhorar”.

“Ela precisa ser internada. Vamos levá-la daqui”.

“Calma, Alfredo. Não vai acontecer nada com ela. Eu não vou deixar. Você cumpriu a receita corretamente?” Pergunto, fazendo-o falar, para que se acalmasse. Bárbara teria de ser internada. Precisaria de mais exames, para descobrir o que era aquilo. Não era coisa comum. Câncer de estômago ou fígado, talvez? Ou quem sabe causas neurológicas, como um tumor cerebral? Espero que não. Peço a Deus que a proteja de tais males.

“Claro que sim. Mas o Joilson, do terceiro andar, disse que também deu os remédios certinhos, quando seu filho adoeceu. Será que é uma epidemia ou algo assim?”

“Joilson? Quem é esse?”

“Um cara do terceiro andar. Pai do garotinho que morreu semana passada”.

“Morreu um garotinho semana passada? Ele tinha o mesmo que a Bárbara?”

“Fraqueza, mas também não era anemia. Tenho medo que aconteça alguma coisa com ela”.

“Por que não me disse antes?! Por que não me avisou sobre esse garotinho?!”

“Me desculpe, fiquei sabendo esses dias”.

“Ele teve fraqueza repentina e que piorou com o tempo, mesmo com os remédios necessários? Morreu sem que se soubesse o que ele tinha?”

“Você já viu um caso assim antes?”

“Saia do quarto. Vou dar uma coisa pra fortalecer o sistema imunológico dela”.

“Mas, você já viu...”

“Saia do quarto!”

Crianças ficando fracas e doentes sem nenhuma razão aparente. Exames médicos não indicando a causa. Cânceres ou tumores em duas crianças tão próximas? Não existem coincidências tão grandes. Só podia ser uma daquelas malditas criaturas. Um maldito devorador de vidas inocentes. Na primeira vez que encontrei um deles, há cerca de quinze anos, eu era inexperiente. Foi mais sorte do que habilidade o que me levou a ele, assim como o tiro que lhe dei. Ainda me lembro do maldito monstro que parecia mais um manto esfarrapado ambulante que flutuava rapidamente acima do chão e se mesclava às sombras ambientes. Seus membros finos eram quase imperceptíveis, devido à distância e velocidade com que se movia. Deus me deu uma ajuda naquela noite e me encontrei com ele. De seu rosto, coberto pelas sombras do manto, só consegui ver seus olhos, refletindo luz, como os olhos de um gato. Ele correu, mas a Mão de Deus liberou o Anjo Miguel, que o alcançou, abrindo um enorme buraco em seu tórax magro, derrubando-o. Comecei a correr até ele, pensando tê-lo abatido. Como eu era inexperiente... A criatura se levantara num salto, assim que caíra, me lançara um olhar selvagem, com aqueles grandes olhos brilhantes, e voltara a correr, rapidamente desaparecendo na escuridão da noite, como se o rombo no peito nada significasse. Ainda tentei um segundo tiro, mas a distância fez com que Gabriel o atingisse apenas de raspão. Por mais que o golpe de um Anjo seja poderoso, não foi o bastante para destruir a criatura. O pouco sangue que caíra do ferimento, evaporara diante de meus olhos, antes que eu pudesse colher qualquer amostra.

Agora Deus me dava mais uma chance de acabar com outro daqueles seres detestáveis. Eu estava certo, era uma provação. Porém, era minha, não de Alfredo. Era eu quem devia ser forte. Seguir em frente, como Deus me mostrou. Caçar essas malditas criaturas. O culto que eu andava investigando teria de esperar por uma ou duas noites. Abri a delicada boca da pequena Bárbara, tomei fôlego e soprei. Senti minhas forças se esvaindo, enquanto fazia a transfusão de energia vital para repor o que o monstro havia roubado. Infelizmente, não foi o bastante, pois ele já devorara muito de sua vida. Eu me sentia exaurido e, mesmo assim, não foi o suficiente para recuperá-la. Eu não estava sendo forte. Me levantei, ofegante, e abri a porta do quarto. Meu irmão me esperava, ansioso, do lado de fora.

“E então?”

“Ela deve acordar até a noite, quando voltarei para vê-la. Continue dando os remédios e faça-a comer alguma coisa. Acredite em mim, ela vai ficar boa”.

“Aconteceu alguma coisa? Você não parece bem”.

“Sim, aconteceu. Cuide bem dela. Eu volto à noite”. Digo, saindo da residência de meu irmão e me dirigindo para a minha. Ligo para o hospital e aviso que não poderei ir hoje, por não estar me sentindo bem. Em casa, como alguma coisa, oro agradecendo e pedindo, me automedico e durmo, para repor minhas forças. A criatura se alimentara recentemente. Eu tinha algum tempo, até ela sentir fome outra vez. E quando aquilo acontecesse, ela experimentaria o mesmo que aquela outra que eu encontrara há seis anos. A maldita coisa teria um fim como aquela, que vestia moleton com capuz, se disfarçando como uma pessoa normal. Sua passagem de volta para o abismo que a criara.

-------------------------------------------------------------

Depois de almoçar, volto para a escola, onde assisto as aulas da tarde. Aparentemente, Ceifador cumpriria sua parte do Pacto e me deixaria em paz. Isto protegia minha família e impedia que eu me tornasse um assassino como ele. De repente, uma imagem volta à minha mente, para me assombrar. Um homem levando um tiro na cabeça, na noite em que invadi a casa do primeiro vampiro. Eu já era um assassino, mas negava esse fato. Negava, pois a necessidade me forçara a agir. Felizmente, não precisaria sair durante muitas noites. Não repetiria aquele erro. Estudaria nos livros roubados, além de cansar os homens que me procuravam, o que acabaria fazendo com que desistissem de sua busca. Volto pra casa, onde tomo um banho e tiro os pontos de meus ferimentos, por já estarem melhores. Troco de roupa, pedindo que Luna faça o mesmo, para esperar minha mãe. Fazia um bom tempo que não saíamos juntos.

Chegamos ao apartamento, no oitavo andar. Tia Ana Paula estava fazendo uma sopa para Bárbara, enquanto Alfredo e Diego faziam companhia pra garota, que estava fraca e de cama, porém, desperta. Com toda aquela gente no quarto, me pediram para abrir a janela, que estava fechada para evitar o ar frio da noite, que poderia fazê-la piorar. De repente, ao tocar a janela, minha mente foi tomada violentamente. O quarto estava escuro e Bárbara dormia em sua cama, quando eu vi, entrando pela janela, uma coisa que parecia quase invisível na escuridão. Ela vestia um manto todo esfarrapado que cobria seu rosto com sombras, deixando à mostra apenas os grandes olhos brilhantes, como os olhos de um gato. A coisa tinha braços e pernas finos, de cor clara e cinzenta e se aproximou da cama, onde Bárbara dormia, se abaixando, como se fosse beijá-la e, de repente, voltei a mim. Estava sendo amparado por Diego, pois aparentemente, quase caí no chão. O quarto estava claro e cheio de gente novamente, sem nenhum rastro da coisa que vi em minha mente agora há pouco.

“Ainda aquelas dores de cabeça?” Diego pergunta me vendo massagear as têmporas, já estando acostumado com aquilo, por termos muito contato desde crianças.

“É. Fazia tempo que não as sentia”.

“Vamos marcar uma consulta, depois, meu filho. Fiquei preocupada, dessa vez”.

“Ei, Bárbara. Sare logo. Só podemos ter uma pessoa doente de cada vez, hein?”

“Quem mais está ficando doente aqui?” Diz um desconhecido entrando no quarto. Seus cabelos eram pretos e curtos, com alguns fios já grisalhos, sua barba estava há alguns dias sem fazer e suas roupas eram de cores claras. Seus traços faciais lembravam o Alfredo, que logo se dirigiu ao recém-chegado para fazer as apresentações, enquanto o desconhecido nos cumprimentava com firmes apertos de mão. “Que bom que chegou. Esta é Núbia, irmã da Ana Paula. Os dois são filhos dela. Este é o médico que está cuidando da Bárbara. É meu irmão, Afonso”.

----------------------------------------------------------

Nos reunimos na sala, enquanto Ana Paula fazia a filha comer, antes de eu administrar os medicamentos que fariam ela dormir. Fiquei conversando com Alfredo e Núbia, a cunhada de meu irmão, uma mulher bonita, inteligente e jovial, fazendo-me lembrar de Marianne, minha falecida esposa. Os dois garotos, Athos e Diego, foram para o quarto conversar e ver alguma coisa no computador. Luna, a sobrinha ‘torta’ de Alfredo, ficara ajudando Ana Paula. Depois que Bárbara terminou de comer, fiquei sozinho no quarto com ela e lhe apliquei um remédio, fazendo-a dormir, para que eu pudesse mais uma vez soprar minha vida para dentro de seu corpo debilitado.

Eu estava ficando velho. Após a nova transfusão de energia vital, me sentia mais uma vez cansado e exaurido, mesmo tendo descansado a tarde toda. Sentei no chão, ofegante. Isto só alimentava ainda mais minha vontade de acabar com a maldita criatura que estava se alimentando dela. Por mais raras e difíceis de encontrar que fossem, não sentia nem um pingo de remorso em caçá-las. Em quase vinte anos de atividade, era apenas a terceira vez que me deparava com aquilo e ficaria feliz se conseguisse leva-las à completa extinção. Cultos de gente maluca e perigosa que adoravam e serviam a monstros eram até comuns, apesar de difíceis de serem localizados e eliminados por completo. Assombrações e mortos-vivos também estavam em minha lista de caças mais freqüentes. Vampiros eram espertos, organizados, perigosos e difíceis de pegar, mas não impossíveis. Já aquelas malditas monstruosidades assassinas de crianças... Meu sangue fervia novamente e me levantei, trancando a janela, apagando a luz e saindo do quarto.

“Amanhã ela acordará melhor. Continue com os remédios. Uma semana sendo paparicada em casa e estará nova em folha. Preciso ir, agora, mas amanhã eu te ligo”. Digo para Alfredo e me despeço de todos, recusando o convite de Ana Paula para jantar ali e voltando para casa. Me automedico, enquanto preparava algo para comer. Depois de jantar, coloco o despertador para tocar e durmo.
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

Sombra

Mensagempor Gehenna em 01 Set 2007, 14:21

Parte 47: Pactos

Depois de jantar e conversar mais um pouco, voltamos para casa, onde Lóki esperava faminto. Enquanto o alimentava, me lembrei da sinistra visão que tive hoje: A criatura oculta pelo manto negro esfarrapado. Aquela coisa devia ser a responsável pela doença da Bárbara. Mas quando ela voltaria? Bárbara amanheceu doente no domingo e piorou na quarta. Um período de três dias. Então, era provável que ela voltasse a atacar entre dois e quatro dias. Resolvo fazer uma vigilância em seu quarto, nas noites de quinta, sexta e sábado. Seja lá o que for, resolveu atacar a garotinha errada. E que tipo de criatura seria tão baixa a ponto de atacar crianças? Mas isso não era ser baixo, era ser esperto. Visar um filhote fraco e indefeso, ao invés de se arriscar com um adulto. A criatura agia como um predador. De repente me lembro de seus olhos brilhantes, como os de alguns animais. O que era aquela coisa? Um vampiro? Não. Era algo diferente. Um monstro que atacava crianças sozinhas à noite. Vou para a cama, ainda sentindo presenças de servos em áreas vizinhas à minha casa. Não sei há quantas noites estavam por ali, sem que eu os percebesse. Quando será que desistiriam?

---------------------------------------------------------

A morte acompanhava aquele homem e tudo o que havia em sua casa. Sua aparência era pálida e morta, como se não bebesse sangue há dias. Vestia roupas pretas pesadas, como se estivesse com frio, apesar da noite quente. Se a escassez de sangue que sua aparência apontava era mesmo verdadeira, as roupas serviam para amenizar o frio do mundo dos mortos, apesar de que se alimentar seria muito mais agradável e eficiente. Talvez o estado em que ele se encontrava fosse necessário para utilizar de sua feitiçaria, mas duvido que ele possua poder suficiente para compensar tal angústia e sofrimento. Acredito que nem todo o poder do Lorde da Noite compensaria. Evito pensar no motivo mais óbvio, que seria a manifestação de sua maldição, afinal de contas, se minhas fontes estiverem corretas, ele era um herdeiro de Alukah, e aspectos da morte sempre acompanhavam tais Anunnaki com maior intensidade. Se for mesmo por isto, se ele não tiver escolha sobre tal estado em que se encontrava, então eu sentia até pena dele. Sua maldição era ainda pior.

“Andrei Cicatriz, O Matador. Já ouvi falar de você. O que lhe traz até minha casa?” Ele disse apontando uma poltrona para que eu me sentasse, enquanto o empregado que me apresentara saía para nos deixar sozinhos. Sua voz era grave e sussurrada, como se saísse de um túmulo.

“Negócios. Você é o Miguel?”

“Depende do tipo de negócio”.

“Estive investigando um caso, procurando uma pessoa. Ouvi dizer que você pode me ajudar”.

“Procurando uma pessoa? O que houve com o Rastreador?” Faço uma pausa antes de responder, me virando para observar a lúgubre sala em que estávamos e sua mórbida decoração.

“Meu irmão está morto. É isto que estou investigando. Quero descobrir quem o matou. Delimitei uma determinada área, onde acredito que aconteceu. Meu irmão rastreou seu assassino até ali, onde foi destruído. Tenho homens percorrendo o perímetro, procurando algum suspeito ou alguma atividade anormal, mas não encontrei nenhuma pista. A chuva que ocorreu naquela noite sumiu com todas as evidências. Quero tentar outros métodos para resolver isso o quanto antes”.

“Humm... Se você já delimitou a área, talvez meu trabalho fique até mais fácil. Porém, como sabe, haverá um preço”.

“Estou ciente. Se você conseguir me ajudar a encontrar o assassino de meu irmão, eu pagarei seu preço”.

“Muito bem. Deixe um motorista a minha disposição, para me levar até o local. Hoje eu estou meio ocupado, mas amanhã verei o que posso fazer”.

-----------------------------------------------------------

A cadeira de rodas incomodava, mas eu precisaria usá-la durante algum tempo, até conseguir me recuperar completamente. A falta de sensibilidade nas pernas era um sinal de que poderia demorar. Márcia se oferecera para ficar comigo e para me acompanhar até Brasília, onde me encontraria com o Líder. Marcelo, porém, teve dificuldades para aceitar algumas de minhas decisões.

“Como assim, deixá-lo em paz?!” Marcelo perguntou, incrédulo.

“Eu fiz um Pacto com ele. Se eu fosse vencido, a Irmandade o deixaria em paz”.

“Ao diabo seu Pacto! Desde quando você se tornou o Líder da Irmandade?”

“Eu sou o Avatar dos Pecados, Marcelo. Lembre-se disso. Não preciso ser o Líder para tomar decisões pela Irmandade”.

“Avatar dos Pecados! Há! Você foi isso! Ontem você era um dos homens mais perigosos do país”.

“Vinde à mim, lâmina dos pecados”. Sussurro baixo, para mim mesmo, enquanto Marcelo ainda falava e, de repente, a enorme foice-lança surge em minhas mãos.

“Hoje é só um aleijado que se acha importante!” Em um rápido movimento, coloco a lâmina infernal a um milímetro do pescoço de Marcelo, que se assusta com meu movimento repentino.

“Eu ainda sou o Avatar dos Pecados. Eu ainda sou um dos homens mais perigosos do país. Os Pecados não me abandonaram. Meu acesso à arma pessoal de mestre Asmodeus é uma prova disso. Estou passando por provações, mas vou me recuperar. Então ponha-se em seu lugar e tire os olhos de meu cargo ou precisaremos reeduca-lo”.

------------------------------------------------------------------------

Ele tira a lâmina de perto de meu pescoço, fazendo-a desaparecer ao enviá-la de volta ao santuário. Controlo minha raiva e vou embora, de volta para meu apartamento. Eu não desistiria assim tão fácil. Minha mão direita precisaria de um bom tempo para se recuperar e não sei se voltaria a ser o que era antes de receber aquele tiro, mas eu precisava agir. Mostrar a todos que aquele Avatar estava errado e precisava ser substituído. Tinha de aproveitar essa chance. A melhor forma para isto era derrotando o garoto que destruíra o Ceifador, pois com este destruído e a minha ascensão, a reputação dele recairia sobre mim, assim como as atenções dos Pecados.

Entrei em meu quarto de meditação, com suas paredes escuras e janelas lacradas, fechando a porta atrás de mim. Desenhei o círculo com o pentagrama e os símbolos apropriados no chão, coloquei as velas em torno do desenho e posicionei o enorme espelho na parede, fazendo-o refletir quase todo o pequeno quarto. Com a sede abandonada, eu teria de fazer a invocação em meu próprio apartamento e, por hora, não poderia fazer nenhum sacrifício. Talvez eu fosse castigado por isso, talvez meu chamado nem fosse atendido, mas eu tinha de tentar. Tirei minha camiseta, expondo a parte superior de meu corpo, acendi as velas ao redor do círculo, apaguei a luz, me ajoelhei de frente para o espelho, de forma que eu pudesse observar o quarto apenas através do reflexo, e acendi uma última vela diante de mim, iluminando meu rosto. Pego minha adaga ritual, me preparando para fazer um corte em meu braço e torcendo para que um pouco de meu sangue fosse o suficiente para atrair a atenção de quem eu desejava.

“Humildemente, eu lhe convido à minha morada, ó, Inveja Encarnada, pois teu servo necessita de tua sabedoria e poder. Ofereço a ti um pedaço de mim e imploro por tua atenção. Abençoe-me com tua visita, ó, meu senhor. Revela-te, ó, grande Açoitador da Moral. Rogo por teu nome, ó, poderoso. Vinde a mim, Cimeries, Senhor da Invídia”.

De repente, sinto um calafrio percorrer a espinha e vejo as velas do círculo se apagarem de uma só vez, enquanto as sombras se intensificavam, projetadas pela única fonte de luz do quarto, que era a vela diante de mim. A temperatura também caíra bastante, me fazendo sentir frio, naquele que costumava ser o quarto mais quente de meu apartamento. Ele estava ali. O reflexo no espelho não o denunciava, mas eu podia senti-lo, de pé, atrás de mim, no centro do círculo. As trevas intensas, que faziam parecer que eu estava sozinho num vazio infinito também era um sinal de sua presença, assim como a temperatura ambiente. Diferente dos outros Pecados, Cimeries trazia frio consigo, não calor.

“O que deseja, meu filho?” Ouço sua voz fria e sem emoções ecoar dentro de minha mente, enquanto eu fitava meu reflexo, no espelho. Era como estar falando comigo mesmo.

“Ascensão, senhor. Meu rival fracassou onde acredito que eu possa ter sucesso”.

“E o que deseja de mim, criança?” A voz dele continuava ecoando dentro de minha cabeça, enquanto eu observava meu reflexo mal iluminado e sozinho naquele vazio tenebroso.

“Poder. O inimigo foi sábio ao ferir minha mão, pois preciso dela para vencê-lo. Devo agir o quanto antes, aproveitando a recente derrota de meu rival e a elevada autoconfiança de meu inimigo, que não espera que eu o ataque. Preciso me recuperar mais rapidamente e, para isso, preciso de seu poder”.

“Poder tem um preço alto, meu jovem. Você sabe disso”.

“Infelizmente, não posso pagá-lo no momento, meu senhor, mas prometo pagar assim que possível. É uma chance única de provar que sou melhor que meu rival, mestre. Só a própria Encarnação da Inveja poderia perceber e entender o que sinto, por isso lhe chamei. Se o senhor não atender ao meu pedido, ninguém o fará”. De repente, sinto suas mãos tocando e apertando minha face. O frio intenso de seu toque queima minha pele, mas eu suporto, enquanto observo meu rosto distorcido e amassado, no espelho, porém, sem qualquer reflexo das mãos que o manipulava.

“Três almas. Este será o preço. Você terá um mês lunar para me pagar. Se após o término do prazo, você não tiver sanado sua dívida, perderá o que recebeu e terá um castigo apropriado. Temos um Pacto?”

“Sim, meu senhor”. Suas mãos tapam meus olhos e, quando ele me solta, vejo que a última vela também se apagara e percebo que não consigo me mover, como se cada músculo meu se negasse a isto. Estou sozinho, na completa escuridão, sem conseguir me mexer. Alguns segundos se passam, enquanto procuro manter a calma e, lentamente, vou assumindo novamente o controle de meu corpo. Me levanto e acendo a luz. Percebo então que o corte, que eu mesmo fiz em meu braço, já havia se cicatrizado e minha mão, antes ferida, estava como nova. Mestre Cimeries atendera meu pedido. Tomo um banho, como alguma coisa e vou me deitar. No dia seguinte, eu iria atrás do garoto maldito. Durante o dia ele não poderia manipular sombras daquela forma. Seria um alvo fácil. Se possível, tentaria não mata-lo. Eu precisava pagar pela bênção recebida e o garoto seria um ótimo começo.
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

Sombra

Mensagempor Gehenna em 01 Set 2007, 14:22

Parte 48: Ataque

Escuridão... Um vazio infinito... Apatia... Frio... De repente, toco alguma coisa quente e agradável... Tento apanha-la, mas ela escapa de minhas mãos, como se me evitasse... Então, ouço vozes me chamando ao longe e finalmente consigo me agarrar... Uma fraca luminosidade chega até mim, enquanto névoas me cercam, bloqueando minha visão. Estou em um lugar frio, porém, bem melhor do que onde eu estava. Corro por entre as brumas e as atravesso. Estou no meio da rua. Uma coisa enorme, vestindo um manto negro e esfarrapado se aproxima de mim, com olhos brilhantes. Quando seu rosto oculto pelo capuz está bem próximo ao meu, ele se revela e vejo que era o Ceifador. Ele tira de dentro do manto a enorme foice e me golpeia, partindo meu corpo ao meio. Roxane surge correndo, incendeia o Ceifador, costura minhas duas metades, tornando-me inteiro novamente, e me beija. Eu me levanto, reconstruído, apanho a foice no chão e, de repente, sou eu a usar o manto. Então acordo. Desligo o celular que despertava e me levanto para me arrumar. Logo, Luna e eu chegamos ao colégio.

Assisto as aulas com pouco interesse, mesmo com os professores nos lembrando constantemente da proximidade do vestibular. Perguntam se alguém tentaria no meio do ano e a maioria da sala responde afirmativamente, por quererem ter a experiência anteriormente, para se preparar melhor. Eu também vou tentar, mas acredito que seja apenas uma prova. Não é necessária tanta preocupação. Eu assisto as aulas, transformo a informação, passada pelos professores, em conhecimento e aplico-os no papel quando for preciso. Não tinha segredo, na verdade era até bem simples. Ouço coisas como ‘Vai nessa’ ou ‘Nerd é foda’, mas ignoro. Depois que as aulas terminam, volto para casa, porém, enquanto caminhava pela rua, fui assaltado por uma forte sensação de perigo, que fez com que eu me virasse, apenas para ver um carro se aproximando em alta velocidade.

Solto a mochila de meu ombro e com dois passos rápidos na direção do carro, salto, batendo a mão sobre o teto do mesmo e escapando ao me jogar por cima dele, pois ao chegar perto o suficiente, o motorista virara o carro com uma freada brusca, girando-o para me pegar com a lateral do mesmo, para ter certeza de que me acertaria caso eu saltasse para os lados. Rolei no chão e me levantei, rapidamente fitando o filho da mãe que fizera aquilo. Era um homem de cabelos negros curtos, forte e usando óculos escuros. O reconheci como o dono do cachorro que me farejara à alguns dias. Assim que parou o carro, o vi estendendo uma pistola alongada com um silenciador em minha direção e me lembrei que aquele era também o homem com quem lutei, ao invadir a sede dos pecados. O desgraçado do Ceifador não cumprira sua parte do Pacto!

-----------------------------------------------------------------

Ligo para Alfredo, antes de sair para o hospital e peço para dormir em sua casa. Digo para colocarem Bárbara no quarto dele, deixando o quarto dela para mim. Ele propõe que eu dormisse no quarto do Diego, imaginando que eu estivesse querendo apenas acompanhar a melhora de Bárbara, mas eu recuso e insisto, dizendo que queria analisar o ambiente em que ela dormia. Ele aceita e digo que chegarei à noite. Eu precisaria passar a noite em claro, caso quisesse pegar o monstro. Mas deixar de dormir não era o bastante, pois também precisaria ficar escondido próximo a janela a noite inteira, pois só poderia contar com minha precária visão noturna, para notá-lo, pois aqueles malditos seres eram extremamente silenciosos. Eles não faziam qualquer barulho e, além disso, era como se nada próximo a eles, ou que interagisse com eles, pudesse fazer sons, como se gerassem uma aura de silêncio absoluto. Eu estava contando com aquilo, para abatê-lo. Eu não poderia simplesmente atirar nele e tentar convencer meu irmão de que disparar uma arma de fogo fazia parte de minha análise. Sem falar nas complicações com a polícia. Eu teria de segurar o gatilho, até estar próximo o suficiente para que a explosão fosse abafada por sua própria aura. Era perigoso chegar tão próximo, mas era a única forma que eu tinha de pega-lo. Não podia esperar um novo ataque, pois Bárbara não suportaria e nem poderia persegui-lo, devido a sua enorme velocidade. Não tinha outra forma, além de esperá-lo dentro do quarto. Não podia contar com a sorte de esperá-lo e encontra-lo na rua. Teria de ser assim e eu não iria falhar.

--------------------------------------------------------------------

O filho da mãe saltou por cima do carro! Que tipo de pessoa evita um atropelamento saltando o veículo?! Só um maldito como ele! O que diabos era aquele garoto?! Mal paro o carro, já saco minha pistola e atiro, contendo as explosões com o silenciador, para não chamar atenção indesejada antes da hora. Ele corre rapidamente, me fazendo errar os disparos, até que se esconde atrás do tronco de uma árvore, na calçada de uma casa. Desço do carro, para ir atrás dele, quando um barulho de queda do outro lado do muro, acompanhado pelo latir incessante de algum cachorro pequeno e irritante, me chama a atenção. Aparentemente, ele saltara o muro da casa para fugir! Há! Era um maldito, mesmo. Sem suas preciosas sombras, estava limitado a correr e se esconder.

Apresso meu passo e salto, levando as mãos sobre o muro e aproveitando o impulso, para erguer meu corpo, parando acocorado sobre o mesmo. Mal tenho tempo de vocalizar o xingamento ao ver apenas os tênis dele caídos no chão e já sinto o peso de seu corpo quando seus pés alcançam minhas costas, após saltar da árvore atrás de mim, me derrubando de cima do muro. Ainda tento colocar as mãos para absorver o impacto, mas minha queda é feia, batendo o rosto e me esfolando todo. Já me apoiava nos braços para me levantar quando senti um potente chute em meu rosto, quebrando meus óculos escuros. Ainda abalado com o golpe, de joelhos, aponto a pistola na direção dele e disparo. Ele sai de minha linha de tiro, agarrando a arma e me desferindo um forte soco no rosto, tentando me fazer solta-la. Me levanto, ainda brigando pela arma e desfiro um murro que ele evita, se abaixando. Ao erguer-se, ele me chuta entre as pernas, finalmente me fazendo soltar a pistola. E o maldito pintcher continuava a latir.

-------------------------------------------------------------------

Mesmo com o incessante latido do cachorro, ninguém aparecera. Como constatei ao ver de cima da árvore a porta e janelas fechadas, não havia ninguém na casa, felizmente. Eu aponto a arma para o peito do desgraçado e atiro. Uma, duas, três, oito vezes, atirando contra a grossa roupa negra que ele usava por baixo das roupas comuns. Os projéteis não alcançam seu corpo, mas ele sente o impacto de cada tiro, recuando. “Se não quer experimentar um balaço desses na cabeça, deita no chão”.

“O que diabos é você? Não pode ser humano!” Ele diz, ignorando minha ordem. Então atiro mais embaixo, em sua coxa, fazendo-o se abaixar gemendo com a dor do impacto.

“Quantas balas tem em uma pistola dessas, hein? É melhor eu não desperdiçar mais nenhuma. O próximo tiro vai na testa. Deita!”

Ele se deita no chão, me obedecendo. Eu coloco o cano da arma em sua nuca, segurando suas mãos contra suas costas, mantendo um joelho sobre ele.

“O Ceifador devia ter cumprido a parte dele no Pacto. Vocês deviam ter me deixado em paz. Agora vou ter que caçar todos vocês e acabar com a raça de cada um”.

“O Ceifador cumpriu a parte dele, nesse pacto idiota. Eu vim desrespeitando a ordem dele. Ele disse que a Irmandade te deixaria em paz. Eu desobedeci”.

“Mas você é burro, hein? Quer o quê, pra se convencer a me deixar em paz? Quer um tiro na coluna, pra ficar igual o seu chefe?”

“Você o destruiu. Eu jurei derrota-lo, mas você o destruiu. A única forma de cumprir meu juramento era derrotando você”.

“Pois vou te dar um lembrete para que não tenha mais idéias idiotas como essa”. Digo, colocando o cano próximo a sua orelha e atirando, fazendo a bala ricochetear no chão, após arrancar um pedaço da concha de seu ouvido. Saio de cima dele, calço meus tênis e subo no muro, vendo-o conter o sangue do ferimento com a mão.

“Pense bem sobre essa sua estupidez. Se seu superior ordena algo, você deve obedecer. É assim que age o bom soldado, empregado ou seja lá o que você for dele. Se nos virmos de novo, não serei tão bonzinho. Falô, Van Gogh. Pro seu bem, espero não nos encontrarmos novamente”.

Salto o muro, apanho meu caderno no chão, próximo ao carro e volto pra casa, escondendo a pistola sob a calça e olhando para ver se o novo assassino não estava bolando nada, porém, até pouco antes de perder aquele trecho de vista, ele ainda nem saltara o muro. Ao chegar em casa, escondo a pistola em meu quarto e vou almoçar. Alimento Lóki e me livro da porcaria do leite que Luna e minha mãe vivem colocando pra ele. Depois de dar um tempo, para minha digestão, saio de casa voltando pro colégio e deixando algumas recomendações básicas para Luna, por ainda me preocupar com o desgraçado da tal Irmandade dos Sete Pecados.

-----------------------------------------------------

Assim que chegamos em Brasília, contatamos a Irmandade. Era naquela imensa cidade que o líder e fundador vivia. Após alguns telefonemas, nos dirigimos para o endereço que nos foi passado e chegamos a um discreto sobrado. Nos identificamos e entramos. Márcia me ajudava com a cadeira de rodas nas escadas, enquanto eu planejava me recuperar o mais rápido possível, para me livrar daquilo. Logo, eu estava na sala repleta de livros e tomos do líder da Irmandade dos Sete Pecados. Ele estava sentado, vestindo roupas sociais claras, com sua expressão sempre severa. Não mudara em nada desde a última vez em que o vi. Aparentava ter cerca de cinqüenta anos, apesar de, com certeza, ter bem mais que isso, visto que, quando o conheci, há vinte anos, ele já tinha esta mesma aparência. Seus cabelos eram pretos, com vários fios grisalhos, seu queixo era forte e seus olhos eram decididos e demonstravam uma força interior gigantesca. Estava acompanhado por seu bode negro, que permanecia imóvel ao seu lado, nos observando.

“E foi isto que ocorreu, senhor. Eu fiz um Pacto com ele, em nome de toda a Irmandade”.

“Você subestimou o inimigo, Ceifador. Este foi seu erro”.

“Sim, senhor”.

“Devemos honrar nossos acordos. Se você disse que a Irmandade o deixará em paz, é isto que faremos. Estar preso a esta cadeira de rodas já é um castigo adequado, mas também lhe tomarei outra coisa. Você está sendo destituído do cargo de Avatar dos Sete Pecados. Tal cargo ficará vago durante algum tempo, que você usará para se recuperar a fim de poder reconquistá-lo. Sendo assim, devolva as ferramentas que lhe foram oferecidas”.

Eu abro a grande mala e coloco sobre a mesa o Crânio Necromântico, de mestre Carreau, levemente danificado por meu último adversário, as Manoplas da Fúria, de mestre Soneillon, e o Manto da Noite, de mestre Sammael.

“Agora, abdique de seu acesso à Pecadora”.

“Eu abdico”. Digo, me concentrando na poderosa arma que tantas vezes usei, então quebro a conexão que a ligava a mim e finalmente percebo o quanto Athos me destruíra. Eu não era mais o Avatar dos Sete Pecados. Eu não era mais o Ceifador. Eu perdi tudo, até mesmo minha identidade, voltando a ser apenas um mortal. Pensando melhor, menos que um mortal.

“Temos um apartamento pronto para você, assim como fisioterapeutas já contratados para lhe atender. Sua ascensão será difícil, mas espero que consiga. Ainda não temos novos assassinos em treinamento e a Irmandade precisa de um Avatar”.

“Darei o máximo de mim, senhor”.

“Não espero menos. Quanto ao Pacto que você fez, será honrado. A Irmandade não fará nada com o rapaz que te derrotou. Porém, não posso dizer o mesmo quanto aos Pecados”.

“O que quer dizer, senhor?”

“Quero dizer que mestre Asmodeus já está ciente de tudo isto e ordenou que a Ira dos Pecados caísse sobre o inimigo”.

“Mas, meu senhor, o Pacto...”

“O Pacto dizia que a Irmandade o deixaria em paz. Isto não inclui os próprios Pecados. Eles fazem seus próprios Pactos, e você sabe disso, garoto. A Irmandade de Goiânia está com problemas devido a falta de uma sede, mas assim que resolverem isto, o inimigo descobrirá que não se deve desafiar a Irmandade dos Sete Pecados!”

Eu saí da sala, pensando sobre o que ele disse. A Ira dos Pecados caindo sobre aquele garoto. A intervenção direta de um dos Pecados. Athos não teria qualquer chance. Seria completamente destruído.

“E então?” Perguntou Cérbero, enquanto saíamos em direção ao carro.

“O Pacto será cumprido. A Irmandade o deixará em paz. Mas o próprio mestre Kobal se envolverá. Athos será morto pelas mãos de um dos Pecados”.

“E quanto a você?” Márcia perguntou, empurrando minha cadeira de rodas.

“Não sou mais o Avatar. Não sou mais o Ceifador. Me darão um tempo para me recuperar e reconquistar o cargo, mas por enquanto, está vago”.

“Se você não é mais o Ceifador, como devo te chamar?” Aquela pergunta ecoa em minha mente, enquanto eu mesmo me perguntava. Como devo ser chamado? Me lembro de meu nome mortal, usado quando o Ceifador se mantinha secreto. O nome usado apenas por necessidade, pois minha verdadeira identidade era a de Avatar dos Pecados. Por algum tempo, eu teria de me contentar com aquilo.

“Pode me chamar de Rodrigo”.
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

Sombra

Mensagempor Gehenna em 01 Set 2007, 14:22

Parte 49: Espera

Durante esta tarde, tínhamos aula de matemática. Mais especificamente de geometria. É bem divertido fazer os cálculos e jogos de valores, envolvendo áreas e volumes de formas planas e tridimensionais diferentes. Cada exercício, cada problema era mais interessante que o anterior. Quanto maior o desafio, maior era o contentamento ao resolvê-lo. Entender tais coisas era fascinante. Em determinado momento, o professor desenha um triângulo eqüilátero no quadro-negro. Eu o fito e começo a divagar. O burburinho das conversas paralelas de meus colegas cessa, a voz explicativa do professor se cala. Era como se eu estivesse sozinho diante daquela figura plana, solta na escuridão do quadro. O triângulo. O símbolo do número três. O mundano, representado pelos dois ângulos da base, ascendendo ao divino, representado pelo ângulo superior. Um e dois. A união do divino com o mundano, ao fazer a perfeição do poder divino se manifestar no imperfeito mundo físico. Três lados que se equilibram. Três faces, como Pai, Filho e Espírito Santo, ou Zeus, Poseidon e Hades. Passado, presente e futuro. Céu, Terra e Inferno. Este era o significado.

“Algum problema, Athos?” A voz do professor me trás de volta e então percebo porque todas as vozes haviam se calado. Eu estava de pé, parado, fitando o triângulo, enquanto todo mundo me estranhava.

“Hã... Não... Posso ir ao banheiro?”

“Claro”.

Saio da sala tentando entender o que ocorrera. Era como se eu tivesse um estalo de compreensão. Me isolei do resto do mundo, enquanto entendia o significado daquele símbolo. Ao chegar ao banheiro, joguei uma água no rosto. Foi incrível, apesar de constrangedor por ter ocorrido diante de tanta gente. Volto pra sala, esperando que aquilo ocorresse novamente, mas nenhuma outra figura me chamara tanta atenção.

Após terminar as aulas da tarde, estava indo embora quando Daniele, acompanhada por Carla e Priscila, me chama, perguntando se eu não poderia ficar mais um tempo no colégio, para ajudá-las a estudar para a prova de física que teríamos no dia seguinte. Preciso aprender a dizer ‘não’ com maior freqüência. Encontramos uma sala vazia e nos acomodamos, para estudar. Começamos a resolver exercícios e, quando precisava explicar alguma coisa, me levantava e usava o quadro-negro. Após escurecer, vou até o banheiro, onde realizo meus ritos costumeiros, como precaução. Ao sair, vejo Daniele me esperando no corredor.

“Está tudo bem?” Ela pergunta ao me ver.

“Está, por quê?”

“Não sei. Senti uma sensação estranha”.

“Juro que não fui eu. O banheiro já estava assim quando eu cheguei”.

“Não, seu bobo. Foi outro tipo de sensação”.

Voltamos para a sala, onde estudamos mais um pouco, antes de irmos embora. Caminhando de volta para casa, identifiquei novamente as sensações causadas pelos servos que patrulhavam a área, me procurando. Continuo caminhando, evitando-os facilmente, até chegar em casa. Luna e minha mãe revezavam sua atenção entre a televisão e o jantar. Tomei um banho, comi e entrei para o quarto dizendo que ia estudar mais um pouco antes de dormir, não querendo ser incomodado. Levo comigo uma garrafa de água e algumas bolachas. Após trancar a porta, coloco tais suprimentos na mochila e me preparo para sair.

----------------------------------------------------

O que diabos era aquele moleque?! Não podia ser humano. Não mesmo. Devia ser uma daquelas várias raridades sobrenaturais que se espalhavam por aí. Nunca se sabe do que elas são capazes. Algumas vezes, nem elas mesmas sabem. O filho da mãe arrancou minha orelha! Desgraçado de uma figa! Esperava poder atacá-lo novamente, pegando-o de surpresa, por não esperar um novo ataque no mesmo dia, mas o filho da mãe ficou entocado no colégio até anoitecer. Melhor pega-lo amanhã. Mas preciso de um plano de ação melhor. Atacar durante o dia é a base, mas preciso planejar melhor, para não dar chances de retaliação. Ele vai ver...

-----------------------------------------------------

Quando chego à casa de Alfredo, percebo que Bárbara e Ana Paula já estavam dormindo, enquanto Diego e meu irmão já se preparavam para fazer o mesmo. Desejo boa noite para todos e vou para o quarto de Bárbara. Arrumo a cama colocando alguns travesseiros debaixo da colcha, de forma que parecesse que havia uma garotinha dormindo ali, preparando minha armadilha pra dar um fim àquela criatura. Então, me posiciono escondido, próximo à janela. Havia tomado alguns medicamentos para evitar o sono, pois seria uma longa noite e, caso o monstro aparecesse, eu teria de pega-lo, pois só teria aquela chance. Rezo pedindo ajuda e proteção divina.

------------------------------------------------------

Circundei com o carro a área delimitada por Andrei, mostrando-a ao estranho homem chamado para encontrar quem procurávamos. Depois, paramos o carro, para que ele descesse. Era um sujeito bem estranho. Vestia roupas pesadas, como se estivesse com frio, mesmo naquela noite quente, e tinha a pele muito pálida, me dando até alguns calafrios quando o olhava. Fiquei no carro observando-o. Às vezes ele ficava simplesmente parado, de pé, como se esperasse alguma coisa. Às vezes ele parecia falar sozinho, conversando com seres que apenas ele via. Nestas horas, meus calafrios se tornavam ainda mais intensos. A área a ser investigada era grande, então ele não conseguiu vê-la por completo, deixando para continuar na noite seguinte. E, infelizmente, eu teria de continuar acompanhando-o...

------------------------------------------------------

O prédio tinha dez andares, sendo que o quarto de Bárbara era no oitavo, na parte de trás do edifício, tendo vista pra piscina no térreo. Fiquei no terraço, esperando ver alguma coisa. Ela estava a apenas dois andares de mim. Seja lá o que for a coisa que estava fazendo-a adoecer, não teria como escapar. O maior problema era ficar a noite toda acordado, sem nada pra fazer. Após as primeiras horas, as bolachas acabaram. Como come-las era a única coisa que eu tinha pra me ocupar, foi difícil me segurar. Fiquei ali, lutando contra o sono, enquanto torcia para o tempo parar de se arrastar tão lentamente. Nunca estive tão ansioso pelo nascer do sol. Quando faltava pouco tempo para o fim da noite, desci do prédio, sendo carregado pelos tentáculos que saíam dos símbolos desenhados em minhas costas, e me dirigi para casa. Passei na padaria e comprei alguns pães, para disfarçar minha chegada, pois Luna já estaria acordada. Ela acha estranho, por eu nunca ter saído tão cedo para ir à padaria, mas deixa pra lá. Me arrumo e vou com ela para o colégio.

------------------------------------------------------

A primeira noite de vigília fora tranqüila. A criatura não aparecera. Talvez tivesse mais sorte na noite seguinte. Não desistiria até colocar um fim àquela história. Enquanto todos acordavam, eu me despedi e sai, voltando para minha casa, onde comi alguma coisa e dormi, para compensar a noite em claro. Após algumas horas de descanso, me levanto novamente e me arrumo para ir pro hospital, de onde sairia apenas à noite, para continuar a vigília. Aquele monstro assassino de crianças tinha de ser detido.

------------------------------------------------

Não sei o que Athos anda fazendo, mas está mais sonolento a cada dia que passa. Duvido que esteja virando a noite sobre livros. Ele não faz esse tipo. É inteligente. Entende as coisas rapidamente. Não precisa se matar de estudar, como nós, ‘meros mortais’. Está dormindo de verdade, na cadeira. Por sorte, o professor está mais interessado em passar a matéria do que em manter todos acordados e prestando atenção. Será que está passando as madrugadas na internet? Mas faz tempo que não o vejo on line. Baladas? Improvável. Então por que toda essa sonolência?

------------------------------------------------

Acordo, limpando a baba no braço que usei para me escorar. Nossa, dormi pesado mesmo. Ninguém na sala. Possivelmente, o intervalo. Me levanto e vou até o banheiro, onde jogo uma água no rosto, para me acordar. Luto contra o sono, durante o resto das aulas. Após o término, volto para casa o mais rápido possível, almoço e me deito, colocando o celular para despertar. Depois de um rápido cochilo, já tenho de me levantar novamente para voltar ao colégio. Se não tivesse provas hoje, ficaria em casa. Enquanto caminhava, sinto uma forte sensação de perigo e me viro rapidamente, ao mesmo tempo que ouço estalos no chão, logo atrás de mim. Vejo o carro que tentara me atropelar há vários metros de distância, enquanto o assassino, sentado no banco do motorista, colocava para fora do veículo, apontado em minha direção um... fuzil!

Corro o mais rápido possível. O desgraçado me pegou num trecho sem árvores! Me movimento, fazendo curvas, tentando dificultar sua mira, enquanto ouço disparos ricocheteando no asfalto, quando uma nova sensação me toma e eu me atiro no chão, rolando e me levantando rapidamente para continuar correndo até a árvore mais próxima. Pouco antes de chegar, sinto algo queimando meu braço. Salto para trás do grosso tronco e vejo o sangue que fluía do ferimento provocado pelo tiro de raspão. Retiro o celular do bolso, teclo três dígitos e coloco para chamar.

“Alô! Tem um maluco com um fuzil, atirando num cara aqui! Pelo amor de deus, façam alguma coisa!”

“Fique calmo, senhor. Dê mais informações”.

Ouço o ronco do motor, enquanto ele se aproximava rapidamente. Digo para o atendente a cor e modelo do carro, assim como o setor e rua em que estávamos. De repente, o carro passa por mim, se distanciando e, num cavalo de pau, se vira em minha direção para que o assassino atirasse novamente. Eu me locomovo rapidamente, mantendo-me atrás da árvore, enquanto passo a placa do carro e a descrição física do atirador para o homem do outro lado da linha. Porém, logo depois ele acelera novamente e foge dali. Faço o mesmo, correndo para o colégio, não querendo ter de dar satisfações para a polícia e nem perder minhas provas. Tiro uma de minhas meias e amarro em meu braço, para conter o sangramento, após lavar o ferimento na torneira de uma praça, no caminho para o colégio. Chego atrasado e ferido, com uma meia amarrada no braço, mas em tempo. Se fosse prova de Português, eu não faria tanta questão de fazê-la, preferindo, talvez, até perseguir o sacana que atirou em mim, mas era Física. Essa valia a pena.
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

Sombra

Mensagempor Gehenna em 01 Set 2007, 14:23

Parte 50: O Avatar

Volto para meu apartamento, guardando meu carro na garagem. Mesmo que alguém tenha me visto atirando e dando cavalos-de-pau e avisado as autoridades, dificilmente me encontrariam, visto que a placa é fria e facilmente modificável, assim como a pintura. O mesmo vale para meu segundo carro, que o garoto ainda não conhece, permitindo que eu o pegue desprevenido. Porém, ele ficará algum tempo no colégio, então resolvi fazer algumas preparações para poder capturá-lo sem ter de matá-lo. Entro em meu quarto de meditação, fecho a porta, preparo e realizo um rito, onde engulo pestilência e enfermidade, mantendo tais males dentro de mim, até o momento de liberá-los. É um rito perigoso e doloroso, mas eu o suporto, pois sei que será útil mais tarde. Desço novamente para a garagem, pego o fuzil, passo-o para meu outro carro e me dirijo novamente em direção ao colégio, para esperar o rapaz sair.

Saio da avenida e pego uma rua que cruzava o local onde o ataquei e, como era de se esperar, havia uma viatura da polícia patrulhando a área. Eles podem significar problema, caso eu resolva atacar o garoto agora. Talvez seja melhor deixar para outro dia. Não. O ritual estava pronto, eu só precisava acertar um tiro. Caso conseguisse feri-lo, poderia me aproximar e liberar sobre ele o sopro de pestilência que eu segurava dentro de mim. Ele não poderia lutar tão debilitado, então eu o pegaria facilmente ou, pelo menos, estaria em grande vantagem. Era arriscado, mas eu tinha de tentar.

-------------------------------------------------

O apartamento que a Irmandade preparara para mim possuía vários aparelhos para me exercitar, além de alguns livros e equipamentos em um quarto próprio para continuar meus estudos e atividades místicas. Os fisioterapeutas acreditavam que eu era um halterofilista que sofrera um acidente ao erguer mais peso do que conseguia. A piscina na cobertura serviria para as aulas de hidroginástica e para o lazer, quando me sobrasse algum tempo. Márcia e Cérbero me acompanhavam no almoço, preparado pela dona Rosilda, que trabalhava ali durante o período da manhã.

“É hoje que você volta para Goiânia?” Pergunto para Márcia, enquanto comíamos.

“É... Você não precisa mais de mim, então já posso ir”. Ela responde, sem graça.

“Você sabe que sentimentos, na nossa área, são fraquezas a serem exploradas, Márcia”.

“É, eu sei, Rodrigo. Talvez mais do que você”.

“Você tem responsabilidades com a Irmandade de Goiânia”.

“Claro. Tenho empresários com quem transar, manipular e chantagear. Tenho prostitutas a quem incentivar. Responsabilidades grandes demais para serem recusadas, mesmo se o próprio Avatar dos Pecados requisitar minha presença”.

“Eu não sou mais o Avatar”.

“E você acha que seu prestígio acabou? Não importa o que te aconteceu, nenhum membro da Irmandade ousaria te desobedecer. Pelo menos, não agora. Sua queda é recente demais para ofuscar sua glória, Rodrigo, mas tudo bem. Eu te entendo. Eu fui a idiota da história. Mas você está certo em uma coisa. Na nossa área, sentimentos servem apenas para serem explorados. Soube de um adolescente que superou o maior assassino do país, simplesmente porque este ameaçou a família dele. Este garoto explorou seus sentimentos e tirou forças deles. Ele venceu o invencível. Sentimentos servem para serem explorados, sim, mas pode-se escolher quem vai explorá-los: o inimigo ou nós mesmos”. Ela disse nervosa, se levantando antes de terminar de comer e caminhando rumo ao quarto.

“Márcia”.

“Vou arrumar minhas malas”.

“Você não trouxe malas”.

“Então vou apenas sair de perto de você”.

Quando nos conhecemos, ela não sentira medo de mim e nem me olhara como se eu fosse seu chefe, mesmo sabendo quem eu era. Desde o início, eu vi em seus olhos o quão incrível ela era. Apesar de não me temer ou me servir, ela me admirava, talvez por eu não poder ser facilmente manipulado ou seduzido como todos os outros que ela conhecera. Trocamos algumas histórias, para nos conhecermos melhor e passar o tempo. Contei a ela sobre minhas investigações e assassinatos, enquanto ela me contara de suas chantagens e manipulações. Éramos dois filhos da mãe sem escrúpulos. Pego meu celular.

“Alô, Fernando?”

“Ceifador? Já está em Brasília? Ocorreu tudo bem?”

“Sim, está tudo bem, mas eu gostaria de saber se você poderia substituir Márcia por outra pessoa, pois precisarei dela por mais algum tempo”.

“Uma substituta? Não será fácil. Principalmente pelo problema de estarmos sem sede, mas vou fazer o que puder”.

“Ótimo, obrigado”.

“Não é nada. Melhoras”.

“Obrigado”. Empurro a cadeira de rodas até o quarto e vejo-a deitada na cama.

“Você precisa fazer suas malas”.

“Eu não trouxe malas”. Ela resmunga, com o rosto virado para o colchão.

“Exatamente. Você precisa voltar para Goiânia e fazer suas malas. Por mais agradável que seja, não pode ficar aqui sem roupas”. Ela se levanta e me olha, com os olhos úmidos.

“Você vai trabalhar para mim. Fernando te conseguirá uma substituta. Enquanto isso, você me ajudará em minha recuperação”.

“Você consegue ficar de pé?” Ela pergunta ao se levantar da cama, já sorrindo.

“Márcia, eu não consigo nem sentir minhas pernas”.

“Quem falou em pernas?” Ela diz, sorrindo de forma lasciva. Era uma mulher incrível.

--------------------------------------------------

Provas cansativas. Volto pra casa, caminhando. Tiro a meia que amarrava meu braço e vejo o sangramento estancado. Assim como minhas outras peças de roupa que costumavam se sujar de sangue, esta eu também teria de enxaguar antes de colocar no cesto de roupas sujas. Vejo uma viatura da polícia passando ao longe, próximo à esquina de onde eu havia telefonado para eles. Resolvo não passar por ali, virando uma esquina, na direção contrária à que ela seguira e tomando um caminho maior até minha casa.

De repente, uma forte sensação de perigo me toma, novamente. Não era possível! Me viro rapidamente, saindo da linha de tiro e fitando o filho da mãe há alguns metros de mim, atrás da porta aberta de um carro diferente do que ele usara mais cedo. O grande silenciador na ponta do fuzil permitia que ele usasse aquela arma de grosso calibre sem chamar atenção pelo barulho. Não perco mais de meio segundo observando-o e já me ponho a correr, evitando novos disparos e virando a esquiva. Continuo correndo, até alcançar uma árvore na calçada, em frente a uma casa. Agradeço a arborização da cidade, pois em outros centros urbanos, talvez eu não tivesse tanta sorte. Em algum lugar não muito longe havia uma viatura de polícia, esperando para encontrar aquele maldito. Eu tinha de dar um jeito de chamar a atenção deles, sem me envolver. Tiro a pistola rapidamente da mochila, desatarraxo o silenciador, com alguma dificuldade, e a aponto para o assassino que já vinha em minha direção. Disparo o que percebo ter sido o último projétil da arma, fazendo meu perseguidor se atirar no chão. A explosão da carga ecoa, fazendo-se ouvir ao longe.

Jogo a pistola na mochila e corro. Qualquer um que não se escondesse ao ouvir o tiro e me visse correndo, acreditaria ser devido ao pânico, para fugir de seja lá quem fosse que estava atirando no meio da rua. Eu torcia para que a viatura pegasse o filho da mãe, sem passar por mim. Torcia para que os policiais dessem um jeito no safado. Não podia telefonar novamente para denunciar o novo carro, pois eles já tinham meu número e poderiam me investigar, afinal de contas, presenciar um tiroteio é aceitável, mas dois, envolvendo as mesmas pessoas, já é suspeito. Sinto meus pulmões queimarem, enquanto busco ar, correndo o mais rápido possível, virando esquinas e despistando, caso ainda estivesse sendo seguido. Depois de tomar uma grande distância, retomo o fôlego e o rumo de casa.

------------------------------------------------------

Desgraçado! Atirou em mim com minha própria pistola e sem o silenciador, com certeza, de propósito, para chamar a atenção dos policiais que rondavam a área. Corro de volta ao carro, guardo o fuzil novamente no compartimento secreto, debaixo do banco de trás e dou a partida para sair dali o mais rápido possível, porém, logo vejo uma viatura se aproximando e pedindo que eu parasse. Felizmente, eu evitara avenidas e ruas mais movimentadas. Uma senhora e um garotinho, na calçada, eram as únicas testemunhas presentes, porém, entraram em casa, quando viram a viatura me parar. Sábia decisão...

Dois policiais descem do carro, me pedindo para fazer o mesmo, sendo que um fica mais distante, enquanto outro se aproxima. Eu obedeço, cooperando com eles. Enquanto sou revistado, com as mãos no capô, pergunto o que estava acontecendo, notando suas mãos sobre as pistolas e analisando seus comportamentos. Mantenho a conversa, para distraí-los, permanecendo com as mãos no capô, enquanto o policial que me revistou resolve investigar meu carro. O outro se mantinha próximo a viatura, apenas observando. Hora de agir.

Saio de onde eu estava rapidamente e chuto a porta de meu carro com força, fechando-a sobre o policial. O outro saca sua arma e aponta para mim, mas eu sou mais rápido, sacando a arma de seu parceiro, usando-o como refém e escudo humano. Claro que não tinham chance contra mim. Não têm treinamento contra um homem como eu. Para proteger o parceiro, ele atende minhas ordens e coloca a arma no chão, deixando as coisas ainda mais fáceis. Com uma coronhada, desacordo meu refém e parto pra cima do outro policial, que também desfalece rapidamente. Em seguida, faço com que caibam no porta-malas e sopro sobre eles todos os males que havia preparado para o garoto. Mestre Cimeries teria seu pagamento mais rápido do que eu imaginava.
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

Sombra

Mensagempor Gehenna em 01 Set 2007, 14:24

Parte 51: A Coisa

Vigio as redondezas de meu prédio, olhando pelas janelas do apartamento, porém, não noto nenhuma anormalidade. Espero que a polícia tenha encontrado o safado que vinha me perseguindo, mesmo após o aviso que lhe dei. Alguns problemas com a lei devem ser o bastante para deixá-lo fora de circulação, pelo menos por algum tempo, além de ser um incentivo para que desistisse de continuar tentando me matar. Me lembro de ter marcado com a Roxane, para estudarmos na casa dela hoje, porém, ainda precisava vigiar o quarto da Bárbara por mais algumas noites, para tentar pegar a coisa que a estava deixando doente. Sendo assim, resolvo desmarcar meus estudos dos livros roubados.

“Alô?”

“Roxane?”

“Oi, Athos. Como está?”

“Bem, e você?”

“Também. Estive estudando aqueles livros que você deixou aqui e são bem interessantes. Vai trazer mais alguns, hoje?”

“Pois é sobre isso mesmo que eu queria falar. Não vai dar pra eu ir aí, hoje. Ocorreram uns imprevistos. Tudo bem se remarcarmos para segunda?”

“Tudo bem. É alguma coisa grave?”

“Não, é só um imprevisto que vai me manter ocupado por algum tempo”.

“Ah, então tudo bem”.

“Obrigado, hein? Um beijo, tchau”.

“Outro, tchau”. Nada de grave, só um monstro que vem escalando oito andares de um prédio para fazer minha prima ficar doente.

“Era sua namorada?” Luna pergunta, depois que eu desligo o telefone.

“Não. Uma amiga com quem eu tinha marcado de estudar”.

“E porque não vai?”

“Não to muito a fim de estudar, hoje. Tive prova, to cansado. Vou é dormir bastante”. Digo me dirigindo para a cozinha, para preparar um lanche. Eu tinha algum tempo até anoitecer, então, após comer, me fecho em meu quarto para estudar um pouco o latim, como havia prometido para Roxane que faria. Mexendo em alguns livros, percebo que alguns são relatos e estudos sobre criaturas sobrenaturais, muitos em português. Me entretenho lendo estes, enquanto o tempo passava.

Minha mãe chega e prepara o jantar. Tomo um banho e como, acompanhando ela e Luna, que conversavam sobre como foram seus dias. Depois de terminar, surrupio alguns pacotes de bolachas e uma garrafa de água, da cozinha para meu quarto. Digo que já vou me deitar e tranco minha porta, me preparando para fazer minha vigília sobre o apartamento de minha tia Ana Paula, para garantir que sua enteada não sofresse mais a influência daquela coisa que eu vira em minha visão. Seja lá o que for aquilo, mexeu com a garotinha errada.

------------------------------------------------------

Saio do hospital e vou direto para a casa de Alfredo, como havia combinado com ele. Passaria mais uma noite em claro, de vigília no quarto de minha sobrinha, para ter certeza de minhas suspeitas. Durante o dia, falei com algumas pessoas e acabei conseguindo informações sobre o garoto que morrera na semana passada. Minha teoria de que era um daqueles malditos devoradores de vidas inocentes se firmava. O plano teria de dar certo. Aquela monstruosidade não podia continuar existindo. Ao tocar a campainha, meu irmão me atende e eu o cumprimento. “Boa noite, Alfredo”.

“Olá, Afonso. Entra. Hoje de manhã você saiu rápido. Nem deu tempo de falarmos nada. Descobriu alguma coisa?”

“O ambiente em que ela dorme me pareceu propício à circulação de bactérias. Talvez, se deixassem a janela com uma pequena abertura, em vez de totalmente aberta ou totalmente fechada, seria uma boa idéia. Vou estudar melhor neste final de semana, para lhe dar uma conclusão mais precisa”.

“Certo. O quarto está arrumado. Fique à vontade. Eu já estava indo dormir. Boa noite, Afonso”.

“Boa noite”. Digo, me dirigindo para o quarto da enferma infante, que apresentara melhoras consideráveis, após as duas transfusões de vitalidade que eu havia lhe feito. Em alguns poucos dias, estaria com sua saúde plena, novamente. O mesmo não poderia ser dito da nefasta criatura que andara se alimentando dela. Após fechar a porta, preparo novamente o inocente ardil dos travesseiros embaixo da colcha e me posiciono próximo à janela, empunhando a Mão de Deus. Me concentro, em oração, pedindo ajuda ao Pai, quando, de repente, sinto uma presença maligna nas proximidades. Uma presença profana e corrupta se encontrava em algum ponto não muito distante daquele quarto. Seria o responsável pela doença de Bárbara? Se minha teoria estivesse correta, não. A coisa que costumava se alimentar de crianças emanava morte. Sua presença era fria, podre e mortal, como as aparições fantasmagóricas ou os vampiros. Aquilo que eu sentia no momento, era uma força maligna, normalmente percebida quando investigava cultos demoníacos. Então, o que significaria tal sensação?

------------------------------------------------------

Mais uma vez, não demorei muito para devorar as bolachas que havia trazido comigo. Já a água, era melhor racionar. Felizmente, desta vez, tive a idéia de trazer um livro e uma lanterna, para me entreter durante o período de vigília. Me perguntava se aquela coisa realmente voltaria ou se eu estava passando noites em claro no topo de um prédio à toa. De repente, tenho a impressão de ter sentido algo. Uma fraca sensação de direção que desaparecera tão rapidamente quanto surgira. Olho discretamente pelo parapeito do prédio, para ver se noto alguma coisa, porém, não vejo nenhuma movimentação, então volto à minha leitura.

De repente, uma sensação mais forte, surge e desaparece novamente. Será que a droga do feitiço estava com defeito? Mais uma vez, olho discretamente e, desta vez, percebo algo. Mesmo com a magia para enxergar na escuridão, tenho certa dificuldade para focar a coisa, que parecia fazer parte das sombras ambientes. Era o manto preto esfarrapado que eu vira em minha visão e este estava subindo rente à parede, tão rápido quanto uma pessoa poderia correr. Me assustei com cena tão bizarra e inesperada, voltando para minha posição anterior, com medo de ser visto. Lentamente, aproximo minha cabeça do parapeito e observo-o novamente, enquanto ele se aproximava veloz da janela do quarto da Bárbara.

A coisa viera atacar minha prima e teria uma surpresa. Os tentáculos de trevas se abriram saídos de minhas costas e eu me preparei para deter aquele monstro. Depois de derrotar o Ceifador, aquele trapo ambulante não daria nem para o começo. Infelizmente, eu não poderia lutar com ele no quarto, então procurei uma forma diferente de abordá-lo, aproveitando a situação favorável a mim. Seja lá o que for aquilo, se arrependeria de ter machucado a Bárbara.

------------------------------------------------------

As parcas sombras, formadas pela pouca iluminação que alcançava a janela, bruxulearam e percebi a janela sendo aberta por uma mão magra, com longos dedos finos, porém, quase invisível na escuridão. Com sua chegada, percebi o silêncio se intensificando, como se o próprio som morresse nas proximidades daquela coisa. Me levantei agilmente, sacando a Mão de Deus tocando-a no corpo daquele ser que tentava entrar pela janela do quarto. Ele vestia trapos negros esfarrapados e, debaixo das sombras do capuz, pude ver seus grandes olhos brilhantes se arregalarem de espanto. O Anjo Miguel foi liberado, surgindo em um clarão totalmente silencioso, atingindo em cheio o peito do monstro, que ainda tentara se desviar para o lado, enquanto eu sentia o recuo do disparo, mas sem nenhum resquício do som da explosão. O plano dera certo!

A criatura foi jogada para trás, com o impacto do tiro. Percebi um de seus finos e longos braços caindo, após ser arrancado do resto do corpo, pelo poderoso golpe recebido. Eu já me inclinava para frente, com a intenção de encostar-lhe novamente o grande revólver prateado com detalhes dourados, cheio de entalhes e runas místicas, ao qual eu chamava de Mão Direita de Deus, para liberar o Anjo Gabriel e findar sua existência, quando uma coisa negra tão grande e, aparentemente, tão pesada quanto uma pessoa, cai sobre a criatura, como se jogada do alto do prédio, impedindo que eu terminasse de exterminar o monstro.

Me apóio na janela, apontando a Mão de Deus, apesar de saber que não poderia atirar fora do campo de silêncio da coisa, então assisto a dupla de seres vestidos de negro e que se mesclavam na escuridão, lutando no ar, enquanto despencavam do oitavo andar. Torço para que a queda fosse o bastante para matá-los, porém, por garantia, corro pelo apartamento, em direção ao elevador, que eu fiz questão de deixar preparado para mim. Infelizmente, a descida é demorada e não creio que chegarei a tempo. Porque diabos meu irmão tinha de morar tão alto?!

------------------------------------------------------

Salto de cima daquele prédio de dez andares e atinjo a criatura em cheio, com os dois pés e o impulso dos quase dez metros de queda. Ela se solta da parede e começamos a cair. Quando pensei em interromper minha queda, fazendo os tentáculos se agarrarem às janelas próximas, a coisa estendeu seu longo e fino braço, me agarrou pela camiseta e, com uma força descomunal para um ser tão raquítico, me puxou, aproximando meu rosto de sua face, oculta pelas sombras do capuz. De repente, sinto um frio, enquanto minha visão era tomada por uma densa escuridão e eu sentia milhares de pequenas perfurações circundando meu rosto, como se o monstro tivesse abocanhado minha cabeça.

Enquanto sinto meu corpo cair, junto ao monstro que me agarrava fortemente com um único braço, percebo o frio se intensificar em minha face. O calor de meu corpo fugia, juntamente com o ar de meus pulmões, que eram sugados pela sucção da grande boca do monstro. Minhas forças começam a minguar, enquanto minha vida era roubada, juntamente com meu fôlego. Enquanto isso, visões se embaralham em minha mente, conforme eu o via atacando outras crianças. Eu o vi raptando infantes, colocando-os em sacos velhos e levando para seu esconderijo sujo e escuro, onde os usava para se alimentar. Eu o vi saindo debaixo de camas e da escuridão de armários velhos, para devorar a vida de crianças inocentes, cujas denúncias sobre a presença do monstro eram ignoradas pelos pais. Usando toda minha força, escapo de seu abraço e o empurro, transformando as perfurações ao redor de meu rosto em arranhões, conforme eu me desvencilhava da bizarra ‘mordida’ da criatura. Mas o mais estranho de tudo era o silêncio. Não havia barulho de luta, não havia o barulho do vento, não havia barulho nenhum! Infelizmente, eu tinha preocupações maiores.

A velocidade de queda já estava alta e o chão se aproximava perigosamente rápido. Os tentáculos tentavam, inutilmente, se agarrar nas janelas, sendo que arrancavam as grades de algumas delas, devido ao peso e velocidade em que estávamos. Eu ia me esborrachar! Desesperado, encolho minhas pernas e estendo-as com toda minha força, chutando a lateral do prédio e me impulsionando na direção da piscina. Sinto o impacto de um trem de carga se chocando contra meu corpo e deixo de existir... Não! Acordo, de repente, lutando contra a inconsciência. Meus músculos estão esmagados, sinto meu braço deslocado e penso na hipótese de que teria sido melhor ter caído no chão, pois, pelo menos no seco eu não teria de me preocupar com a água que me afogava, conforme eu lutava contra a dor para emergir e respirar.

Que grande imbecil, eu fui! Saltei de um prédio de dez andares e achei que sairia bem disso. Que estupidez! Saio da piscina, todo dolorido e sem conseguir mexer a droga do braço deslocado. Minha única satisfação seria ver a coisa morta no chão, porém, nem isso. Ela desaparecera. O feitiço de detecção não apontava nada, como se ela tivesse evaporado, sem deixar vestígios. Então, me lembro de sair dali, antes que o porteiro ou alguém venha ver quem estava pulando na piscina há essa hora. Os tentáculos me carregam, saltando o muro e me escondendo dentro da copa escura de uma árvore próxima. A dor do braço vencia o resto do corpo destruído, então fiz o que pareceu ser a melhor coisa a se fazer: joguei-o contra um galho próximo. Ah! Maldição! A dor aumentara, mas parecia ter voltado pro lugar. Pelo menos já conseguia mexê-lo. Eu sabia que tinha de ir embora pra casa, mas meu corpo não concordava com isso. A argumentação dele fora bastante convincente, então fiquei por ali mesmo, me rendendo. Durmo sobre a rede de trevas, oculta sobre a árvore.
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

Sombra

Mensagempor Gehenna em 01 Set 2007, 14:24

Parte 52: Monstros

Cheguei na área da piscina juntamente com o porteiro. Havia água espalhada por todos os lados, porém, nenhum sinal das coisas que, aparentemente, amorteceram parte da queda naquele corpo aquoso. Seja lá o que for que caíra sobre o monstro, de certa forma, salvou-o, mesmo tendo, provavelmente, a intenção de matá-lo. Me impediu de cumprir minha missão. Me atrapalhou na tarefa, relativamente simples, de destruir aquela criatura. Minha esperança era que o devorador de vidas tivesse sido destruído, se não por minhas mãos, pelas mãos daquilo que saltou sobre ele. Digo ao porteiro que me assustei com o barulho na piscina e resolvi ver o que era. Ele parece convencido e mais preocupado com as duas grades de janelas, que estavam caídas ali próximas. Aparentemente, ao tentar interromper a queda, algum deles se segurou nas grades e acabou arrancando-as.

Ignoro o confuso porteiro e me concentro. A presença profana ainda estava por perto. Eu podia senti-la nas proximidades, mas não a caçaria. Eu fui visto. Se caçasse alguma coisa, o barulho dos disparos alertaria a polícia, que não teria dificuldades para me ligar aos fatos. Por hoje, a caçada terminara. E terminara mal. Ponto para os monstros. Subo de volta ao apartamento do Alfredo. Poderia aproveitar o resto da noite para dormir. A criatura não ousaria voltar, pois agora sabia que nesta área havia predadores perigosos. Bárbara estava segura. O que mais me intrigava era o manto usado pelo monstro. Preto, velho e surrado... idêntico àquele usado pelo primeiro devorador de vidas com o qual eu me deparei e deixei escapar. Seria possível que, após todos esses anos, fosse a mesma criatura?

----------------------------------------------------

De repente, acordo assustado, enquanto caía, me chocando contra os galhos até atingir o chão da calçada onde a árvore ficava. O céu já estava clareando, sendo que os primeiros raios de sol deveriam ter desfeito os tentáculos que me seguravam. Meu corpo ainda doía, especialmente agora, depois desta nova queda. Me lembro que havia deixado algumas coisas sobre o prédio, então me deixo um recado mental, para busca-las à noite. Retiro o sobretudo e o lenço pendurado no pescoço, embolo-os e começo a caminhar, voltando pra casa, ainda sentindo o corpo reclamar com as dores. As roupas úmidas grudavam desagradavelmente em meu corpo, ajudando a me incomodar, em minha caminhada até o ponto de ônibus. Ao chegar em casa, vou direto para meu quarto, tiro as roupas molhadas e me jogo na cama, para voltar a dormir.

Que grande merda eu fiz, hoje. Pulei de um prédio de dez andares, tive minha vida sugada por um monstro que eu não faço idéia do que seja e quase me esborrachei no chão. E meu objetivo era simplesmente dar um fim na coisa que estava deixando a Bárbara doente. Parabéns, Athos. Você está cada dia mais esperto. Continue assim e da próxima vez você morre. O pior era não ter nem idéia do que era aquela coisa. Não tive tempo de descobrir nada. Não cheguei a lutar, eu apenas caí. Só sei que ele tinha apenas um braço, ou pelo menos, usara apenas um contra mim; devorava vidas, sugando-as através da boca da vítima, ao abocanhar o rosto da mesma; e preferia atacar crianças sozinhas à noite, mesmo sendo extremamente forte. O que diabos era aquela coisa?

---------------------------------------------------

A queda não provocara mais ferimentos nela do que no predador que lhe atacara e, inconscientemente, lhe salvara daquele outro caçador. A coisa se recompôs como pôde e fugiu dali, saltando o muro e se unindo às sombras. Ela se movia com velocidade incrível, correndo como se não tivesse peso. Nas sombras, era quase invisível, mas qualquer um que a visse, pensaria ser um manto esfarrapado voando baixo e velozmente. A coisa fugiu daquele território o mais rápido que pôde. Predadores e caçadores perigosos estavam ali presentes. Mais uma vez, fora quase exterminada. A sobrevivência, porém, trazia lições. O que não a matava, a deixava mais forte. Há anos, ela se escondia, se alimentava e sobrevivia, naquele mundo de vida em abundância. Porém, muitos perigos existiam e a criatura aprendera a evitá-los o máximo possível. Ela estava faminta, novamente. Os predadores a impediram de se alimentar e a feriram, fazendo com que os resquícios de vida roubada, que ela possuía, se extinguissem. Ela precisava de vida urgentemente, ou deixaria aquele mundo. Correu pelas ruas da cidade, buscando alguém que pudesse servir de alimento, antes que a Luz chegasse.

Weskley tinha apenas seis anos, mas já sabia o quanto a vida podia ser dura com aqueles que não têm dinheiro. Se desvencilhou dos braços da mãe e saiu debaixo do cobertor velho, se afastando para poder urinar em um canto do muro onde o cheiro da urina não pudesse incomodá-los. De repente, ele vira algo cruzar a esquina rapidamente. Um vulto que passou e logo sumiu, mas fez Weskley sentir um calafrio subir por sua espinha, fazendo suas pernas começarem a tremer. De repente, o vulto voltara, se virando em sua direção e começando a se aproximar. Parecia um fantasma, com aqueles olhos brilhantes dentre as sombras dos trapos negros e velhos. O garotinho tremia enquanto a coisa se aproximava. Ele sabia o que era aquilo. Ouvira histórias sobre aquela coisa, porém, nunca pensou que a veria pessoalmente. O nome daquele monstro era sussurrado com medo, por ele e os outros que conheciam sua fama. A coisa se abaixou, se aproximando de Weskley, com aqueles assustadores olhos brilhantes. O garotinho sabia quem era aquele e isto lhe dava ainda mais medo. A criatura à sua frente, era a personificação de seus maiores temores. Aquele que, agora, envolvia seu rosto, enquanto segurava seu corpo com a força que apenas monstros conseguem ter, era o maior pesadelo de qualquer infante. Enquanto sentia sua vida ser tomada, Weskley chorava, sem resistir, pois sabia que não adiantaria de nada tentar. Ninguém fugia do Bicho-Papão.

------------------------------------------

Miguel observava as áreas indicadas pelo homem enviado por Andrei. Ele analisava as impressões psíquicas deixadas e via os vários acontecimentos do passado daqueles lugares. Conversara com os Mortos Inquietos, que vagavam pela Sombra do Mundo, tentando resolver seus assuntos inacabados. Miguel era um herdeiro de Alukah, Aquela que Fala com os Mortos, a Sacerdotisa-mor de Chorazin. Sua carne estava sempre morta, não importando quanto sangue ele bebia. A Sombra do Mundo estava sempre visível, para ele, não importando quanta vida ele roubasse. Seu toque era gélido, definhando plantas e ferindo animais. Esta era sua maldição e também sua bênção, pois seu poder sobre a morte era ainda maior que o dos outros Anunnaki.

Os Fantasmas e Espectros o obedeciam e o ajudavam. Na segunda noite de busca, encontrou o local em que Victor Cicatriz, O Rastreador, havia sido destruído. Os Mortos lhe disseram que a alma do vampiro fora devorada pela revoada de Sluagh que o acompanhava. Miguel olhou para os sinistros pássaros que também o seguiam. Eram totalmente negros, com pequenos olhos vermelhos e brilhantes. Sempre que alguém morria, eles estavam por perto. Os Anunnaki eram seres mortos e que espalhavam a morte por onde passavam, logo, todos tinham um pequeno bando daqueles sinistros pássaros seguindo-os pelos céus da Sombra do Mundo. Não faziam nenhum som, além do barulho de suas asas. Era como se existissem apenas para esperar pela morte... dos outros, claro.

Utilizando seus dons, Miguel pôde ver alguns momentos da batalha. Observara o rosto do rapaz que manipulava trevas. Assistira a morte de Victor e a chuva que desapareceu com seus restos mortais. Observou uma boca-de-lobo próxima e pediu para que seu guia apanhasse uma lanterna e entrasse naquele buraco imundo para procurar uma coisa. O homem obedeceu por medo, porém, claramente insatisfeito. Quando retornou segurando um pedaço de madeira pontuda como uma estaca, Miguel sorriu, tornando-se ainda mais assustador do que já era.

------------------------------------------

Carrasco levara os dois policiais inconscientes para fora da cidade. Se embrenhou no meio de uma mata até encontrar uma clareira que pudesse servir de palco para o que tramava. Arrastou-os até ali e começou a trabalhar na preparação do local, limpando a área, desenhando o círculo fundo no chão de terra dura, marcando o peito dos homens e amarrando-os firmemente às árvores próximas, colocando as velas em suas posições corretas... A noite chegara, cobrindo tudo ao seu redor com o manto de trevas, porém, os olhos do assassino brilhavam em vermelho, permitindo que agisse perfeitamente na escuridão.

Os dois homens acordaram, ainda fracos e meio doentes, e se desesperaram, perguntando-se onde estavam, o que estaria acontecendo e quando foram feridos, pois sentiam dores no peito e sangue escorrendo dele. Ambos estavam nus, amordaçados e amarrados um de costas para o outro, no centro de um círculo de velas, cujas chamas bruxuleavam com a brisa fria que corria entre as árvores. As cordas se estendiam em várias direções, presas em árvores próximas, impedindo que eles saíssem do círculo, caso tentassem. Carrasco se aproximou, sendo iluminado pela luz das velas. Estava sem camisa e tinha um símbolo desenhado com o sangue dos prisioneiros no peito, sendo o mesmo símbolo que estava encravado na carne dos dois. No rosto, também tinha marcas de sangue e nos olhos, indiferença quanto aos policiais que mal conseguiam respirar, devido às fortes amarras que os imobilizavam. Então, portando a adaga na mão direita, ele começou a invocação.

“Aqui estou eu mais uma vez ao seu chamado, meu senhor. Trago comigo parte do pagamento de minha dívida. Duas almas aqui esperam por teu abraço, pois dor e sangue são minha moeda. Aceite minha oferenda, mestre. Vinde e abençoe-me, ó, poderoso. Revela-te em sua glória, Senhor da Invídia e leve estes condenados à morada de Cimeries, A Inveja Encarnada!”

Enquanto terminava a invocação, usou a adaga para partir as gargantas dos dois policiais a sangue frio, ignorando as súplicas silenciosas dos olhos, de onde saíam lágrimas tanto pelo medo e tristeza, quanto pelo estrangulamento provocado pelas cordas. Possivelmente, suas famílias nunca saberiam o que havia acontecido com eles. Provavelmente, ninguém descobriria que foram vítimas de um maluco adorador de demônios. Desapareceriam completamente.

Assim que terminou a invocação, as velas se apagaram de uma só vez, com um vento frio repentino. Carrasco acabara de cortar a garganta da segunda vítima, quando sentiu a presença profana surgir logo atrás dele. Sua voz ecoou em sua mente uma vez mais.

“Duas já foram. Falta uma”.

E desapareceu tão rapidamente quanto surgiu, deixando seu servo para arrumar novamente o local e sumir com as provas do ritual. Enquanto trabalhava, seu celular toca, indicando o número de Fernando, no mostrador.

“Carrasco”.

“Por onde você tem andado?”

“O que foi?”

“Recebemos ordens. Estamos trabalhando para conseguir uma nova sede. Até o fim dessa semana precisamos de uma vítima para sacrifício. Vamos invocar o mestre Kobal”.

“O sacrifício dele está agendado para daqui a dois ou três meses. Porque nos mandaram fazer isso?”

“Porque ninguém derrota o Avatar dos Pecados e sai impune. Vamos soltar um dos Pecados contra o maldito que aleijou o Ceifador”.

“Puta que... Você ta de sacanagem”.

“Não. Uma semana. Consiga a vítima”.

“Certo”.

Após desligar, Carrasco sorri imaginando o que sobraria daquele garoto após um encontro com a Encarnação da Fúria. Se Fernando ligasse antes, até cederia um daqueles policiais só para ver o moleque se estrepar mais cedo. Uma semana. Tempo mais que suficiente. Voltou a trabalhar para sumir com as provas.
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

Sombra

Mensagempor Gehenna em 01 Set 2007, 14:25

Parte 53: Tempo de Paz

Acordei e tomei o café-da-manhã com Alfredo, Ana Paula e Bárbara. Diego, o filho de minha cunhada, já havia saído para o colégio. Depois do desjejum, me despeço e prometo voltar no domingo, para dar maiores esclarecimentos sobre minha análise do ambiente de sono da pequena enferma. Antes de ir para casa, porém, vou até a igreja. Eu falhei na missão que Deus me dera e precisava me confessar. Após estacionar, adentro à casa do Pai, caminhando pelo corredor principal. Poucas pessoas estavam ali, naquela manhã de sábado. Havia um padre com, mais ou menos, a minha idade, arrumando algumas coisas, e duas beatas ajoelhadas, se apoiando nos bancos de madeira, rezando.

Parei diante da grande imagem de Cristo, fiz o sinal da cruz e me ajoelhei, começando minha oração particular, como me fora ensinado. Após alguns minutos de meditação e conversa com o Criador, me levantei, fazendo novamente o sinal da cruz e me dirigi até o confessionário, apesar de o padre ainda estar ocupado com seus afazeres, sem se alterar. Assim que me ajoelhei, a voz grossa, firme e experiente esperada foi ouvida, vindo anônima de dentro do local onde o padre deveria estar. “O que lhe traz aqui, meu filho?”

“Azarias... Eu falhei”.

“Você caminha pelo vale da sombra da morte sem medos no coração e persevera onde a maioria desiste. Você está vivo, Afonso. Enquanto seguir os passos do Pai, não falharás”.

“Esta noite eu fui atrás de um monstro e deixei-o fugir”.

“Antes faze-los fugir, do que ter de fugir deles. A sombra do mal se espalha e se esgueira, semeando sofrimento e corrupção. Aqueles que se voltam contra ela, são mortos. Você vive e, em nome de Deus, a faz recuar. Não blasfeme dizendo que falhou”.

“Perdão, senhor”.

“Estás absolvido do pecado da dúvida, pois este é o único que me foi apresentado”.

“Obrigado, senhor”.

“Precisa de mais alguma coisa, meu filho?”

“A criatura que eu cacei ontem à noite carregava a essência da morte, porém, um outro ser surgiu para combatê-la, me impedindo de dar um fim a ela e resultando na fuga de ambas. Esta segunda criatura carregava uma aura maligna e corrupta. Porque este ser estava atrás de minha caça?”

“Os planos do Inimigo são engenhosos, Afonso. Talvez a destruição da primeira criatura pudesse trazer benefícios à segunda. Talvez ele tenha fingido combater sua presa, quando na verdade, queria salva-la para um propósito futuro. Não posso afirmar uma verdade. Lembre-se: Sombras escondem apenas mais sombras”.

“Sim, Azarias”.

“Mais alguma coisa?”

“O de sempre, senhor. Munição para continuar minha missão”.

“Receberá o que pede, em breve. Não pensou melhor na proposta de integrar o grupo? Talvez estas criaturas não teriam fugido, caso tivesse ajuda”.

“E talvez, eu seria responsável por mais uma morte. Obrigado, Azarias, mas a resposta continua sendo ‘não’. Se é da vontade de Deus que eu persevere na caçada tendo Ele como única companhia, que assim seja”.

“Então, que Deus continue te acompanhando e te guiando, caçador”.

“Amém”. Me levanto e caminho em direção à saída da igreja, passando novamente pelo corredor principal do santuário. Volto para casa, onde tomo um banho, me troco, pratico meus exercícios e me deito para tirar um cochilo. A Mão de Deus liberara um Anjo, naquela noite, e ele só estaria de volta no dia seguinte. Eu retomaria a investigação do culto e, caso enfrentasse hostilidades, os outros cinco Anjos teriam de resolver. Cinco Anjos... Com certeza, era mais que suficiente. Enquanto penso, acabo cochilando e, em meio às brumas da inconsciência, vejo Marianne. Com seus longos cabelos negros cacheados, o magnífico sorriso branco e perfeito, que parecia iluminar o ambiente, a pele clara e macia, manchada com algumas sardas, e os olhos escuros, que brilhavam com sua alegria contagiante. Ela estava rodeada por meia dúzia de crianças sorridentes, sentadas na agradável grama de um tipo de praça ou parque, às margens de um belíssimo lago, tão extenso que se perdia de vista. O céu estava azul, iluminado por um sol dourado que brilhava majestoso, anunciando um belo dia. Acordo com lágrimas nos olhos. Me espere, querida. Um dia, eu falharei.

-------------------------------------------

Acordo pelo menos uma dezena de vezes, devido aos barulhos provocados por Luna e minha mãe, mas como meu corpo ainda não concordara em se levantar, volto a dormir. Passei a manhã de sábado na cama, desejando que o colégio se dane. Depois de saltar de uma droga de prédio de dez andares, as últimas das minhas preocupações eram as aulas que eu havia perdido. Finalmente resolvo deixar o leito, indo direto para o banheiro, onde tomo uma ducha para melhorar o corpo. Nada é tão restaurador quanto uma longa noite bem dormida e uma ducha pela manhã. Eu ainda sentia algumas dores, especialmente no braço, mas já estava bem melhor.

“Ué, eu ouvi barulhos hoje cedo, pensei que você tivesse ido pra escola. O que aconteceu?” Minha mãe pergunta, assim que saio do banheiro.

“Mudei de idéia. Estava cansado e com muito sono. Não adiantaria ir à aula hoje, então resolvi voltar pra cama”.

“Está estudando muito, meu filho? Cansa, né?”

“Nem me fale...”

“Sua avó está na cidade. Chegou ontem. Vamos visitá-la hoje à tarde, você vem?”

“Ih, mãe, hoje tem um churrasco que o pessoal do colégio organizou faz tempo. A Graça, minha namorada, vai até vir aqui, pra irmos juntos”.

“Tudo bem. É bom que a gente já conheça ela. Posso até levar vocês nesse churrasco, quando for ver sua avó”.

“Beleza. Ela chega aí depois do almoço”.

“Então, já deve estar chegando. Você viu que horas são?”

“Putz, uma hora! Vocês já devem ter almoçado, né?”

“Aham. Está lá no fogão. Esquenta no microondas”.

“Ok”. Digo entrando no quarto para me vestir. As roupas molhadas no canto do cômodo eu contrabandeio para o banheiro, para dar um jeito nelas mais tarde. Faço meu prato, esquento e tiro um pouco para dar pro Lóki, que miava atrás de mim, reclamando. Enquanto comia, ouvi o interfone tocar, sendo atendido por Luna, que me avisou da chegada da Graça. Termino de engolir o almoço para atender a porta, após ouvir a campainha tocar. Ela estava linda. Antes que pudesse falar qualquer coisa, embalo-a num longo beijo, enquanto a abraço, sentindo seu corpo contra o meu. Só então me dei conta da falta que sentia dela. Após solta-la, me maravilhei com aquele belíssimo sorriso metálico, acompanhado pelos olhos amendoados cor de mel e os longos cabelos pretos que emolduravam seu rosto perfeito. Aposto que eu estava com cara de retardado feliz, enquanto olhava pra ela.

----------------------------------------------------------------

A recepção fora bem calorosa. Acho que gostou de me ver, pois nem esperou que eu dissesse nada. Dei uma caprichadinha no visual e parece que deu certo, pois, após me soltar, ele fez aquela carinha de bobo, enquanto me olhava. Deus! Como eu posso gostar tanto desse cara?

“Por todos os dias que você sumiu, pensei que não se lembraria de mim”. Digo, enquanto entro na casa dele pela primeira vez.

“Mas eu não lembrei. É que eu beijo toda gatinha que bate aqui em casa. Quem é você, mesmo?” Ele diz, fazendo piada. Acho que é por isso que eu gosto tanto dele. Pego em sua mão, levantando-a até que ficasse diante de seu rosto.

“Sou a dona do nome que está nesse anel”. Digo, me referindo à aliança em seu dedo.

“Ah, Graça é você! E eu achando que estava escrito isso por eu tê-lo ganho de graça”.

“Se continuar com esses atos, rapazinho, vai acabar é perdendo algo”. Revido o trocadilho, enquanto me afasto um pouco, sorrindo, mas ele logo me puxa de volta até ele.

“Espero que isto tenha sido uma ameaça de morte, não de término”.

“Vou pensar no seu caso. Tem algum argumento em sua defesa?”

“Tenho um muito bom”. Ele diz sério, me beijando de novo, após me olhar com aqueles olhos tão negros que eu conseguia ver meu reflexo neles.

“Haham”. Ouço alguém limpando a garganta atrás de mim. Nos soltamos e eu me viro para ver quem era. Sinto meu rosto queimar de vergonha ao ver a mãe e a irmã dele.

“Hã, oi...” Eu digo, ainda vermelha, enquanto as cumprimento, mal ouvindo Athos que fazia as reapresentações, pois já nos conhecíamos de vista, da época em que eu e ele estudamos juntos. A mãe dele era jovem e bonita, provavelmente tendo bem menos que 40 anos. A irmã também era uma gracinha e, se já provocava ciúmes nele agora, daqui a algum tempo isso só pioraria.

“E então? Vamos indo?” A mãe dele pergunta, fazendo com que nos dirijamos para o corredor, de onde eu tinha acabado de sair. Ainda vejo um gatinho preto chegando na sala e miando carente, como se reclamasse por estar sendo deixado sozinho. Coitadinho. Pegamos o elevador e descemos até o subsolo, onde entramos no carro para sermos levados até o tal churrasco. Eu finalmente estava me sentindo ‘namorando’ e estava sendo ótimo. Espero que seja um dia inesquecível.
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

Sombra

Mensagempor Gehenna em 01 Set 2007, 14:26

Parte 54: Churrasco

Assim que chegamos na frente do prédio do Rogério, minha mãe pára o carro, para que eu e Graça descêssemos. Nos despedimos dela e da Luna e fomos falar com o porteiro, para que nos deixasse entrar, porém, minha mãe ainda tinha algo a dizer. “Pode me ligar quando quiser ir embora, que eu busco vocês”.

“Precisa não, Núbia. Você já trouxe, pode deixar que minha mãe busca a gente e leva o Athos em casa”. Graça diz, livrando minha mãe da tarefa que ela se auto-impunha.

“Você já falou com ela?”

“Já”.

“Então ta bom. Divirtam-se. Tchau”.

“Ta. Tchau”. Dizemos juntos, antes de entrar no prédio e nos dirigirmos até a área de lazer, sendo guiados pelo som da música e conversa. O lugar possuía uma área coberta, onde ficava a churrasqueira e uma pia. Mesas já se espalhavam, com um número considerável de gente ao redor delas. A quadra e a piscina ainda estavam vazias, diferente dos copos e dos pratos de carne, sobre as mesas. Passei cumprimentando a todos e apresentando a Graça, ao mesmo tempo em que era apresentado a algumas pessoas que eu não conhecia e estavam ali acompanhando, também.

Nos sentamos, junto ao resto do pessoal e nos candidatamos a ser a próxima dupla na mesa de truco, onde o carteado já estava rolando. Jefferson, um de meus colegas, nosso pinguço oficial, nos oferece cerveja e enche meu copo. Como Graça não bebia, me levanto para buscar um copo com refrigerante para ela, na caixa de isopor indicada. Rogério acompanhava o churrasqueiro no preparo da carne, além de atuar como DJ, selecionando as músicas no computador que conectara ao aparelho de som, e agitador, dançando com seu copo de cerveja na mão e chamando o pessoal. “Aí, galera! A piscina ta liberada, hein? Fiquem à vontade. O síndico permitiu até topless, hahahahaha. E os cuecas se preparem, porque mais tarde vai rolar o foot, ali na quadra, viu?”

Ta, ele é babaca, mas é uma boa pessoa. Foi legal, da parte dele, arrumar o local pro churrasco. Eu mesmo faria isso, se não surgisse alguém tentando me matar quase todo dia, nas últimas duas semanas. Ouvindo o pessoal, eu rapidamente me integro ao assunto e adiciono minha voz à cacofonia, enquanto percebo Graça ainda meio tímida, conversando alguma coisa com Priscila. Não demora muito, Cássia e Guilherme me chamam para a mesa de truco, enquanto sacaneavam a dupla que acabara de perder. Então, Graça e eu trocamos de mesa, para aproveitar um pouco a ‘jogatina’.

Ela não jogava muito bem, porém, eu segurava como podia, blefando quando a sorte não me sorria e, às vezes, sendo surpreendido por minha parceira, que permanecia quieta, enquanto eu fazia barulho, gritava e falava ‘mais que a boca’, para intimidar a dupla adversária. Música alta, conversas e risos na mesa ao lado, gritaria na mesa de truco, bebida e carne chegando a todo momento... O tal churrasco estava cumprindo muito bem o prometido. Graça e eu já estávamos ganhando de sete a quatro e eu tinha cartas razoáveis em mãos, sendo uma Dama, um Dois e o Sete de Ouro, quando chegou mais um pequeno montante de gente para o churrasco, estando, entre eles, Daniele.

Todos estavam ali pela socialização da turma e a ótima desculpa para beber, mas eu tinha certeza que todos os caras ali tinham ainda um outro motivo para estarem presentes naquele encontro: ver a mulherada de biquíni e, mais especificamente, Daniele. Nossa sala era abençoada com várias garotas lindas, o que não é muito difícil de encontrar em Goiânia, mas aquela ruiva tinha algo mais. Era difícil explicar o quê, mas seja lá o que for, ela tinha bastante. Prestando atenção nas expressões e linguagens corporais, era possível perceber isso, ao acompanhá-la cumprimentando a turma. As amigas a admiravam, as que não eram amigas a invejavam, enquanto os rapazes a desejavam. Mas, é claro, todos esses sentimentos sempre mantidos ocultos pelas máscaras de normalidade que todos usavam. Estando eu incluso.

--------------------------------------------------------

Athos e eu estávamos ganhando, quando Cássia embaralhou e nos entregou as cartas, sendo que saí com a excelente mão contendo um Ás, um Três e o Sete de Copas. Algumas garotas acabavam de chegar, então fizemos uma rápida pausa para os cumprimentos e apresentações. Todas bonitas e bem arrumadas, com destaque para aquela que me foi apresentada como Daniele. Olhos claros e cabelos tingidos de um vermelho tão berrante quanto um carro de bombeiro. Me cumprimentou com um aperto de mão, acompanhado por um sorriso falso, e saiu para continuar a ver os colegas, sendo interceptada por um abraço do anfitrião, o tal do Rogério. Ela parecia dominar o ambiente ao redor dela, como se estendesse seu espaço pessoal, englobando a tudo e a todos. Sinceramente, não gostei dela.

Depois que as recém-chegadas se afastaram, retomamos o jogo, sendo que Athos abriu a partida jogando uma Dama e me pedindo para vencer a primeira rodada. Guilherme jogou um Dois, em seguida, me fazendo jogar meu Três, que foi ‘morto’ pelo Quatro de Paus, mais conhecido como Zap, da Cássia.

“Não gosto de jogo calado. Só volto se for trucado. Truco!” Ela disse confiante, após garantir uma, das três rodadas, e exigindo o aumento do valor da partida, de um para três tentos.

“Seis”. Respondo calmamente, aceitando o truco dela e exigindo o aumento do valor da partida, de três para seis tentos. Com o Zap fora do jogo, minha carta era a maior, então tínhamos uma rodada garantida, precisando apenas que Athos tivesse uma carta para vencermos, estourando a meta de doze tentos.

“SEIS, SEUS LADRÕES! Minha digníssima falou, a água parou! Pra continuar o jogo, é SEIS!” Athos gritou, batendo na mesa, tentando intimida-los. Caso fugissem, ganharíamos três tentos sem precisar mostrar cartas, distanciando ainda mais no placar.

“Pode descer, Cássia”. Guilherme disse, calmamente, enquanto olhava sua parceira indecisa.

“Você quer ir?” Ela pergunta, confirmando.

“Ela tem carta, mas o Athos só tem barulho. A gente tira o que ela tem agora e finaliza”.

Cássia sorri, acompanhando o raciocínio correto de seu parceiro, enquanto eu torcia para que Athos tivesse alguma coisa, além do falatório. Ela joga um Dois e Athos olha pra carta dela com uma engraçada expressão de desprezo.

“Isso é o seu melhor, querida? Aqui o sistema é bruto. Doisinho não passa vivo, não”. Athos disse, provocando, enquanto jogava o Sete de Ouro sobre a mesa. O plano deles já era, nós venceríamos!

“Putz! E não é que o filho da mãe do Athos tinha carta? Tenho que matar, né?” Disse Guilherme, jogando o Ás de Espada, chamado de Espadilha e me forçando a vencê-lo com o Sete de Copas. Torno minha última carta na mesa, um insignificante Ás, iniciando a terceira rodada, após ver todas as manilhas saindo do jogo.

“Se vocês ganharem, termina, né? Então vamos deixar mais emocionante. Vamos pro tudo ou nada. Quero nove”.

“Desistir agora, a gente não vai. Pode descer, Cássia”. Athos diz, fazendo-a mostrar um outro Ás, empatando com o meu.

“É, Guilherme... A primeira foi de vocês, né?” Athos diz desanimado, pois se a terceira rodada ficasse empatada, a vitória era dada para a dupla que vencera a primeira. Não é possível que ele não tenha nada!

“Então, se você matar um Dois, a vitória é sua”. Ele diz, virando sua carta, enquanto Guilherme abaixa a cabeça, jogando a sua no monte.

“Uooou! Próximo! Hahahaha, não é que o Doisinho fez?” Ele grita, levantando as mãos, para que eu batesse, comemorando a vitória. Então, ele sai de sua cadeira e vem a te mim, me beijando.

“Aê, galera! Vamos dar um pause no truco aí e ver se rola um foot agora? Já dá dois times de cinco”. Rogério diz, segurando uma bola e convocando os rapazes para a quadra.

“Deixa eu dar um show nesses pernas de pau, ali”. Athos diz, me beijando, antes de tirar a camiseta, me entregar e ir até a quadra.

“Só espero que o Guilherme seja melhor no futebol do que é no truco!” Grito para Athos, mexendo com meu recém perdedor.

“Hahahaha, porra, Graça, até você já ta tirando onda? Mas no futebol eu sou melhor, você vai ver”. Guilherme responde, acompanhando Athos, Rogério e um outro rapaz, no ritual de tirar a camiseta. Os quatro apresentavam corpos bonitos e razoavelmente preparados para a atividade, enquanto os outros mantinham suas camisetas, sentindo-se melhor vestidos.

“Graça, vamos continuar aqui?” Cássia me chama para fazer dupla com ela na mesa de truco, enquanto assistíamos ao jogo dos rapazes. Priscila e uma outra garota, que eu não me lembrava o nome, eram a dupla adversária e, enquanto eu embaralhava, fazíamos piadas, dizendo que precisávamos estudar muito truco, por esta ser a principal disciplina no primeiro ano da faculdade. Na mesa ao lado, as outras garotas conversavam, enquanto assistiam ao futebol. Enquanto eu dava as cartas, Rogério soltou a bola.

Cássia se esforçava no falatório, mas não convencia muito. Um truco apenas com mulheres era, naturalmente, mais civilizado e menos barulhento. Enquanto jogava, me mantinha atenta ao futebol, observando a velocidade, dribles e passes de Athos, apesar do time dele e do Guilherme ter começado perdendo, para o time do Rogério, que fizera o primeiro gol da partida. Depois que Cássia e eu vencemos, por doze a nove, me levantei pra levar água, para o meu jogador, que já estava suadinho de tanto correr. O jogo deles estava empatado, em dois a dois, com um belo gol do Athos, que conseguira escapar da marcação e dera um potente chute, que o goleiro não conseguiu segurar, mesmo tocando as mãos na bola.

Ele corre até mim e me beija, através da rede de aço, que circundava a quadra. O rosto estava molhado de suor, fazendo com que os longos cabelos grudassem em sua face e atrapalhassem sua visão. Peguei um elástico em minha bolsa e entreguei, depois que ele terminara de beber a água gelada no copo que eu lhe trouxera. “Toma. Prende o cabelo”.

“Valeu. Viu meu gol?”

“Vi. A bola quase levou o goleiro junto”.

“Hehehe, nem tanto. A marcação tá feia. Não estão saindo do meu pé”.

“ATHOS!” Alguém grita tardiamente, enquanto ele, sem se virar para ver o que era, girou o corpo em uma bicicleta perfeita, chutando a bola que veio rápida em sua direção, desviando-a para o gol adversário, sendo cabeceada por um de seus companheiros, desempatando a partida. O sorriso e espanto de todos era evidente, enquanto olhavam Athos se levantando. Como ele fizera aquilo?!
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

Sombra

Mensagempor Lobo_Branco em 01 Set 2007, 15:09

Boa parte. Descontraida, com elementos clássicos e reuniões com o intuito de diversão. Confesso que não entendi grande parte do texto, nunca joguei Truco e não conheço as regras. Já prevejo o bate-boca entre a garota "fada" e Graça. Mais uma vez, Athos rouba e impressiona td mundo, com suas habilidades sobre-humanas. Abraços!
"— Nós também éramos crianças, e se eles nos deixaram órfãos, os deixamos sem filhos."(

Óglaigh na hÉireann)


O Último Duelo - conto Capa&Espada
Avatar do usuário
Lobo_Branco
 
Mensagens: 289
Registrado em: 26 Ago 2007, 13:22
Localização: Aquele Bosque com ares de Floresta, na periferia de Contonópolis

Sombra

Mensagempor Dahak em 01 Set 2007, 17:07

Gehenna, quanto tempo lhe custou todo esse trabalho?
E quantas vezes você já o repostou?
LOL


Abraço!


Dahak Out
Life. Live.
Avatar do usuário
Dahak
 
Mensagens: 1655
Registrado em: 20 Ago 2007, 22:32
Localização: São Paulo

Sombra

Mensagempor Malkavengrel em 01 Set 2007, 21:20

Cara depois de 7 horas 40 minutos e muita paciencia conseguir terminar de ler. :banger:

Senti-me na obrigação, depois de ver esse topico todo santo dia. Vou parabenizar por 2 coisas, e te aconselhar a outras duas.

Primeiro: Parabens pela evolução do conto, como li tudo hoje pude perceber ela. Segundo: Parabens pelo conto em si, o cenario eh proximo do que estou utilizando para o teste de um sistema generico.

Agora os conselhos.
Antes de cada parte adicione quem eh o detentor de cada narrativa, algumas vezes me perdi ao ler, pode ser minha possivel desatenção.
E o conto jah está um monstro, e começou a ficar repetitivo, parece não acabar. Não vejo fim nessa historia, parece com HQ mesmo que mal um inimigo some outra aparece. Termine isso logo ou o texto perderá muito com as delongas.

Mas enfim parabens, aquele abraço
Malka.
Imagem
"For every complex problem there is an answer that is clear, simple and wrong."
"I can make wonders, and still let you wander alone."
Avatar do usuário
Malkavengrel
 
Mensagens: 250
Registrado em: 25 Ago 2007, 18:40
Localização: Ilha da Magia

Sombra

Mensagempor Over em 02 Set 2007, 08:57

Discordo do Malkavengrel, "A história terá um fim quando o fim chegar." e ponto final.
Embora seja interessante considerar fazer a história "correr" mais um pouco. :mrgreen:
Qualidade de sempre, espero(amos) continuação.
Over
 
Mensagens: 5
Registrado em: 25 Ago 2007, 09:23

Sombra

Mensagempor Lady Draconnasti em 02 Set 2007, 19:59

Espero que você não se perca na hora de amarrar tudo e nem atropele coisa quando começar o arco final.
Imagem

Status: Cursed
Alinhamento do mês: Caótica e Neutra
Avatar do usuário
Lady Draconnasti
 
Mensagens: 3753
Registrado em: 25 Ago 2007, 10:41
Localização: Hellcife, 10º Círculo do Inferno

Sombra

Mensagempor Gehenna em 03 Set 2007, 18:07

Lobo_Branco escreveu:Confesso que não entendi grande parte do texto, nunca joguei Truco e não conheço as regras


É, pequei nisso. Foquei essa parte no jogo, achando que truco era tão conhecido quanto nota de um real. Se bem que RPG tb não é o jogo mais conhecido do Brasil... Mesmo assim, acho que vou ter de editar essa parte.

Dahak escreveu:Gehenna, quanto tempo lhe custou todo esse trabalho?
E quantas vezes você já o repostou?


Comecei a escrevê-lo no início de 2005 e pretendo me manter firme até o fim da história, com pequenos (ou não tão pequenos) períodos de inatividade.
Inicialmente, postei no fórum da SpellBrasil, depois repostei na Spell_Forever e agora aqui. Duas repostagens.

Malkavengrel escreveu:Cara depois de 7 horas 40 minutos e muita paciencia conseguir terminar de ler. :banger:


:queixo: Sério que tu leu diretão? Puutz... Fiquei até orgulhoso, agora. :bwaha:

Malkavengrel escreveu:Primeiro: Parabens pela evolução do conto, como li tudo hoje pude perceber ela. Segundo: Parabens pelo conto em si, o cenario eh proximo do que estou utilizando para o teste de um sistema generico.


Valeu! :victory:

Malkavengrel escreveu:Antes de cada parte adicione quem eh o detentor de cada narrativa, algumas vezes me perdi ao ler, pode ser minha possivel desatenção.
E o conto jah está um monstro, e começou a ficar repetitivo, parece não acabar. Não vejo fim nessa historia, parece com HQ mesmo que mal um inimigo some outra aparece. Termine isso logo ou o texto perderá muito com as delongas.


Posso culpar sua possível desatenção e cansaço devido às 7 horas e 40 minutos de leitura? :ops:
Yeah! Parece com uma HQ! Hahaha, bem, apesar de não parecer, Sombra tem um fim, além de acontecimentos que a marcarão como Antes de Depois de tal coisa, o que garantirá q não continuará repetitiva. Tais coisas apenas não chegaram, ainda. Continue acompanhando ou tire mais 7 horas, daqui a dois anos, e verá. :bwaha:

Over escreveu:Embora seja interessante considerar fazer a história "correr" mais um pouco.


Ora, mas "devagar se vai ao longe". :mrgreen:
Infelizmente, concordo q ela não flui na velocidade que eu gostaria.

Lady_Draconnasti escreveu:Espero que você não se perca na hora de amarrar tudo e nem atropele coisa quando começar o arco final.


Prometo que não, milady. Palavra de pirata. :pirata2:
Hã... quero dizer, de paladino. :knight:
Avatar do usuário
Gehenna
 
Mensagens: 828
Registrado em: 25 Ago 2007, 01:52
Localização: Torre Sombria, no bairro de Noite Eterna, em Contonópolis

AnteriorPróximo

Voltar para Contos

Quem está online

Usuários navegando neste fórum: Nenhum usuário registrado e 1 visitante

cron