Bem, abrindo o segundo arco da Guerra dos Sonhos...
A Guerra dos Sonhos – Parte 8 (Por Gehenna)
O Início do Fim
O Início do Fim
Tudo era vazio e escuridão, até que uma luz foi avistada, ao longe. Uma canção de voz feminina podia ser ouvida, no limiar da audição, enquanto a esfera luminosa se aproximava lentamente. Um rosnar foi ouvido, vindo de algum lugar nas trevas daquele não-lugar, acompanhado de uma voz firme dizendo “Está na hora de você aprender o que é ser um homem”. De repente, Gehenna despertou com um soco no rosto, se encontrando deitado em sua cama, sentindo a maciez do algodão molhado por seu suor. Sua respiração estava ofegante e captava os cheiros de um homem com resquícios de pólvora nas roupas e uma fera peluda próxima. “Estou com um gosto estranho na boca, Afonso. Por favor, explique-se”.
“Não fui eu, chefe. Foi o Lobo”. Afonso disse apontando para o alvo lupino que se encontrava ao lado da cama segurando uma revista com um homem vestido de morcego na capa. Assim que viu o lobo, Gehenna caiu pro lado oposto da cama, tamanho o susto e, depois de reconhecer o amigo, segurou o vômito.
“Calma, meu querido, isssso é um chá que te dei pra beber”.
“Chá? Chá de quê? Você não me fez beber uma porcaria feita com cogumelo que cresce em bosta de vaca, né? Ah, melhor nem responder, senão vou querer vomitar de novo. Além de me drogar, o que te trás a minha morada, Lobo?”
“Você estava mals, chefe. Não sse lembra do que houve?”
“Não. Resuma pra mim”.
“Um devorador de criatividade. O safado se alimentou de você”. Ao ouvir isso, flashs de memória explodiram na mente de Gehenna, fazendo-o se curvar, com o choque mental sofrido. Agora entendera o feitiço e a frase de efeito do Morcego, que ouvira em sua mente, fazendo-o se levantar.
“Droga... Os Magistrados. Foram avisados?”
“A essa hora, creio que sim”.
“Será que dá pra falar mais alto? Que droga de música é essa? Se for a Iara, eu juro que vou enfiar uma rolha na boca da maldita!” Gehenna disse, rosnando, lutando para ignorar a estática que zumbia em seu ouvido, sendo interpretada como uma canção e um chamado, em sua mente.
“Música? Não há música nenhuma, chefe”.
“Como não?! Você é surdo?! Ta vindo de fora...” Ao olhar pela janela e ver a fonte da música que ouvia, Gehenna se calou assustado e se afastou. Em Noite Eterna, era sempre noite e sempre com lua cheia...
“Lobo... Como você me despertou?” Perguntou, sentindo desconforto com a presença do amigo.
“Transssfusão de Criatividade, chefe. Por quê?”
Gehenna olhou para o próprio corpo, sentindo falta de detalhes de si mesmo, roubados pela criatura. Seu andar estava mais firme, seus músculos mais definidos, seus pêlos mais grossos, seus sentidos mais apurados... O pirata, o vilão, o herói... O Devorador lhe roubara quase tudo, mas algo ainda restara. Algo escondido e trancado nas profundezas de sua alma e que, agora que estava sozinho ali, se revelava. Especialmente com a influência das energias de Lobo Branco, para fortalecê-lo.
“Peguei também um essstranho espião, chefe”. Lobo disse, apontando com o focinho uma gaiola, onde estava preso Lóki, em sua forma de diabrete com alguns poucos ferimentos, estando quase totalmente regenerado.
“Espião? Explique-se, Lóki”.
“Você não ser mestre!” Disse a pequena monstruosidade, se virando de costas. Gehenna percebeu então que o Devorador havia lhe roubado ainda mais do que imaginava. Teria que usar o pouco que lhe restara, caso quisesse ser útil. De repente, um clarão avermelhado piscou pela janela, seguido por um trovão. A guerra estava começando. Olhou para fora da Torre e percebeu a tempestade rubra, com inúmeros espectros claudicantes, se aproximando, enquanto Athos, que se mantinha de guarda, preparava para expulsa-los. Depois, voltou seu olhar para o Lobo Branco, farejou o ar e sentiu vontade de... atacá-lo... rasgar sua garganta com os dentes... destruir aquele predador que invadira seus territórios... Desviou o olhar.
“Afonso, chame todos que conseguir e ajude o Athos a proteger a Torre. Lobo, vamos até o Palácio. Precisamos sair daqui antes que o pior aconteça”. Gehenna disse, apanhando um minúsculo toco de vela, na gaveta de um criado-mudo.
“Uma Vela da Babilônia? Andou comercializando com fadas, chefe?”
“Não conte pra Daniele”. Gehenna rosnou, acendendo o curto pavio e dando um passo. De repente, ele e Lobo estavam em frente ao chafariz com as estátuas em homenagem aos Heróis do Tópico, onde a terrível tempestade caía. Mais um passo, e estavam em frente à porta automática destruída, da torre da Rádio. Após o terceiro passo, a vela se extinguiu, deixando-os em frente ao grande Palácio de Contonópolis.
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O número de raios que caíam com a terrível tempestade vermelha era quase equivalente ao número de gotas da chuva. Daniele, Sean, Chucro e Faprasem agradeciam por terem se abrigado na torre da Rádio e chegado ao Palácio a tempo, pois nenhuma criatura, contista ou personagem, resistiria àquela tempestade infernal.
“Tem de estar aqui em algum lugar!” Daniele esbraveja consigo mesma, enquanto revirava a mochila. Estava sendo uma péssima protagonista. Perdera a única arma que poderia derrotar o monstro. Lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Nunca teria uma chance. Morreria naquela guerra e seria esquecida para sempre.
“Acalme-se, ruiva”. Sean disse, se abaixando junto a ela. “Coisas ruins sempre acontecem aos bons protagonistas. Vamos retomar o caminho de volta e encontrar a arma. Estamos ao lado dos pesos pesados, agora”.
Ao erguer a cabeça, viu o que Sean quis dizer. No lugar do jovem rei Dahak, estava agora um monstro gigantesco, com uma carapaça espinhosa, uma grande coroa e uma enorme bola de vôlei segura pelas garras da pata direita. No lugar de Lady Draconnasti, estava uma enorme dragoa vermelha albina. Enquanto isso, a rainha Elara, senhora da Rádio e perita em comunicações, conjurava feitiços poderosíssimos, revisando a mente de cada um dos personagens para tentar descobrir onde procurar o artefato perdido.
Daniele se levantou, limpou o rosto, trançou o cabelo e, sorrindo, estendeu a mão na direção do irlandês. “Dê-me”.
“O que?” Sean perguntou, sem entender.
“Armas. Muitas armas”. Ela respondeu, olhando maliciosamente por cima dos óculos, que refletiam as luzes do ambiente.
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Ocultos acima das nuvens, uma dezena de dragões voava na direção do Palácio, sendo que na criatura mais à frente, vestindo uma armadura e portando uma espada, estava montado um homem, que sorria maliciosamente com todo aquele poderio fantástico que lhe fora dado. Nunca mais envelheceria para se tornar um velho fraco. Viveria para sempre. A cidade dos Contos seria tomada e Teodoro tomaria para si a decisão de seu próprio destino, se livrando enfim daquele maldito deus-lobo.
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Pelas ruas desertas de Contonópolis, devido à poderosa tempestade que parecia abalar as fundações criativas daquele império imaginário, um verdadeiro exército de espectros de idéias inacabadas, ávidos por criatividade e propósito, seguia Ceifador na direção do Palácio. O enorme assassino caminhava, envolto em mantos negros que tremulavam com o vento forte. Em seu rosto, estava pintada uma caveira, enquanto suas mãos portavam uma grande foice. E ele sorria maliciosamente, satisfeito pelas escolhas que fizera e prevendo suas recompensas. O Devorador o tirara da invalidez e lhe entregaria o domínio de seu próprio destino, mas o assassino sabia bem que não devia confiar naquela monstruosidade.
“Ceifador!” Márcia gritou, tendo sua voz abafada por um trovão, que destruíra casas próximas. Ela carregava algo envolto em panos e estava sendo acompanhada por Cérbero, o grande cachorro dinamarquês do assassino. Se locomovia com dificuldade devido à terrível tempestade. Mesmo a proteção mística conjurada sobre ela, não era o bastante, naquele inferno de água e ventos cortantes.
“Tinha razão. O espectro do ladino nunca usado, de mestre Gehenna, conseguiu”. Ela disse, ao se aproximar e entregar seu pequeno fardo para o poderoso negro à sua frente.
Ceifador empunhou A Mão de Deus, o enorme revólver que ferira o Devorador e que seria a única coisa que poderia derrotá-lo. Agora sim, tinha um truque na manga, contra o monstro, caso fosse necessário. Que a Guerra começasse.
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Os ventos gélidos sopravam fortemente, nas Ices Vortex Mountains, mas o viking senhor daqueles domínios não estava lá para impedir os recém-chegados. Sorte a dele. O sapo ia seguindo na frente, guiando a criatura com aparência de um jovem, com uma rala barba, cabelos compridos, com várias tranças, dreads e penduricalhos, afastados do rosto por uma bandana negra com uma placa metálica com um estranho símbolo ninja. O Devorador ainda vestia suas roupas pretas, com o sobretudo justo no tronco e folgado após a cintura, ombreiras metálicas, uma calça de bucaneiro e um grosso pedaço de pano amarrado à cintura, de onde pendia uma algibeira de couro com o desenho de um morcego e um gancho prateado incrustado com símbolos infernais. Adentraram um labirinto de cavernas, deixando um rastro para serem seguidos, até que finalmente, encontraram uma parede de gelo brilhante.
“Aqui está o portal que o viking defendia. Há muito não é usado”.
“E dará dentro do Palácio?”
“Sim. Desta forma, você estará no centro do Poder de Contonópolis e poderá abrir as defesas da fortaleza para seu exército”.
“Excelente... Então esperemos nossa pequena deusa das trevas com o outro aperitivo que ela vai me trazer”.
“Gehenna e Erick, agora Malkavengrel e os Magistrados... Mas porque poupar a mim e DarkLady?”
“DarkLady tem um charme feminino muito útil, que eu não tenho, jovem Ermel”.
“E quanto a mim?”
“Boa pergunta...” Disse com os olhos brilhando em malícia, enquanto se aproximava do sapo que já sofria com o gélido clima da caverna. Ermel tentou correr pelos labirintos, mas logo viu surgir à sua frente, o Devorador flutuando em uma forma translúcida, atravessando as paredes da caverna, para depois voltar à forma física.
“Não fuja, pequeno sapo”. O monstro disse, ainda sorrindo com malícia. Devorara sombras de inúmeros aspectos, e, depois, um espírito. Usando a Criatividade que sugara, erguera defesas pessoais contra qualquer coisa imaginável. Contonópolis estava mesmo condenada. Ermel engoliu em seco, ao perceber o que ajudara a fazer.
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“Você essstá essstranho, chefe. Algum problema?” O alvo lobo gritou, para ser ouvido, sob aquela tempestade infernal, enquanto Gehenna socava os portões do Palácio, com seu braço metálico, para chamar a atenção de quem estivesse ali dentro.
“Sim! Contonópolis está se desfazendo e você não cala sua maldita boca!” Gehenna vociferou, mostrando os dentes que, por um instante, pareceram maiores e mais afiados.
“Você não essstá no sseu normal, chefe. Assim que entrarmos, vamos resolver issso”. Lobo Branco tentou acalmar o companheiro, sem saber que não havia nada a ser resolvido, com Gehenna.
“O que temos de resolver é esse maldito Colaps...!!!” Mal terminou de falar e três (!!!) raios rubros caíram sobre eles, explodindo o chão e desintegrando-os... Ao menos, para um observador casual. Ambos surgiram no instante seguinte, dentro do Palácio, tendo sido teletransportados por lady Elara.
“Eu não citaria tal evento novamente, meu jovem. Trás mau agouro”. A rainha disse, enquanto os recém-chegados observavam todos que estavam ali reunidos.
“Daniele?!” Gehenna exclamou, num rosnado, ao ver sua pequena criação ali, no meio de um evento tão importante, vestindo shortinho, camiseta, mochila, óculos, cabelos trançados e portando duas pistolas, num cosplay mal feito de Lara Croft.
“Chefe?!” Daniele retribuiu a surpresa, pois aquele homem alto, forte e, de certa forma, peludo, em nada parecia o sombrio e discreto Gehenna que conhecia. Nem ao menos estava usando o manto escuro para efeitos de drama e mistério.
“O que diabos está fazendo aqui?!”
“Você a mandou, não?” Elara perguntou, sem entender aquele espanto.
“Não, eu... Eu mandei que alguém viesse, mas... Porque diabos mandaram você?”
“Isso não interessa agora. Ela disse que trouxe uma arma que pode ferir a criatura, mas a perdeu. Temos que encontra-la...” Dahak dizia com seu vozeirão que fazia as paredes tremerem, quando foi interrompido por um... rugido.
“VOCÊ A PERDEU?!?!” Gehenna olhava com fúria e incredulidade nos olhos, que pareciam arder em brasas, encarando a ruiva. Seus dentes estavam maiores e mais afiados, suas unhas pareciam crescer também, assim como os pêlos em seu corpo. “PORQUE DIABOS MANDARAM VOCÊ?!?!”
“Não é hora disso”. Foi dito, após uma lufada de vento gerada pelo bater de asas de Lady Draconnasti, que pousara entre criador e criatura.
“Ele essstá meio alterado desde que fiz uma transssfusão de Criatividade para reanimá-lo do ataque do Devorador”. Lobo Branco explicou sobre a atitude do amigo.
“Eita, que o cachorru fala!” Se espantou Chucro, que já estava demorando para falar merda. De repente, uma sonora explosão pôde ser ouvida vinda do interior do Palácio.
“Má ki diabéisso?” Perguntou o bárbaro estúpido, apanhando seu machado e colocando-se à frente de Aka, como se a protegesse.
“Veio da sala dos portais”. Elara captou automaticamente as informações transmitidas magicamente pelo castelo.
“Ele está aqui”. Gehenna disse rosnando, ao farejar o cheiro familiar do monstro.
“Ih, u bichu vai pegá”. Disse Chucro, estragando a frase de efeito final de Gehenna.

Moça, sua vez é depois de todos dessa nova rodada, eu acho.



