Não, acho fundamental que sejam diferentes.
Você não acredita que isto abra margem para que cada um fundamente sua conduta com base em sua própria ética, como você defende, e desta forma justificar quaisquer atos? Quero dizer, se ela é individual e sempre relativa, o que torna uma ética melhor que a outra e com base em quê poderíamos condenar algum comportamento?
Além disso, o fato de admitir essa construção sempre individual e sem uma base Universal da ética, não abre margem para que condutas que hoje vemos como abomináveis como o estupro ou infanticídio, sejam justificadas por algum habilidoso interlocutor ou teórico no futuro? Se não existe uma Lei Moral sob a qual fundamentar, como é possível um valor inquestionável?
Você considera um ponto negativo que a ética esteja "subordinada ao instrumentalismo de cada era, comunidade e até pessoa".
Sim, por tudo que apontei acima e nas demais mensagens. Não é um ponto de vista dogmático meu, é bom deixar isso claro.
Eu não. Pra mim a ética existe como um código de conduta individual, quem regula a vida em sociedade são as leis.
Tdo que expus também se aplica as leis. Elas tornam-se falidas se não houverem de atos maus
a priori, por tudo que já disse.
Contanto que fulano não viole meus direitos e não tente impor a sua visão, não vejo problemas nele ter posturas éticas opostas às minhas.
Essa visão é perigosa, a meu ver. Como disse, abre margem de estarmos todos susceptíveis à dialética do momento, além de ser extremamente complicado condenar simplesmente
qualquer ação, dado seu relativismo e pessoalismo. Além disso, como elaborei em minha pergunta, como pode ser possíveis ações altruístas como dar a vida a outrém, senão recorrendo à um Absoluto? Como é possível ações como "perdoar seus inimigos", senão remetendo a um Absoluto? E acho indiscutível que, senão ambas, ao menos a última seja uma ação desejável.
E acredito que esses conceitos devem sim mudar com o tempo. Por isso eu não vejo necessidade em justificar os valores absolutos, pelo menos não além da justificativa racional que eu citaria ao justificar o utilitarismo, por exemplo.
Dado tudo que apontei sobre os perigos, insuficiencias e falta de embasamento último destas visões e dado que concorda que estes conceitos devem ser individuais e alterarem-se com o tempo, apenas posso entender que está me dizendo que opta pelo relativismo moral, ou seja, uma não-fundamentação. E isso obviamente não é um embasamento, mas a admissão de não te-lo ou acreditar que ele não é necessário para o funcionamento. Em suma: de que não há resposta a minha pergunta e o laico, ao menos você, não tem fundamento que sustente seu agir e tampouco uma proposta de agir coletivo.
A única coisa que esboça-se nas respostas, é de ter como fundamento o outro, e o outro enquanto outro "nós", aonde seria fundamental a solidariedade para ser justo. Isso me toca muito, especialmente quando vejo funcionar na prática para estimular obras de solidariedade até mesmo para com o distante, o estrangeiro. Toca-me também porque, a luz das reflexões crentes de São Paulo sobre o único Corpo do qual somos todos membros (cfr. I Carta aos Corintios cap.12 e Carta aos Romanos cap.12), ele assume um forte realismo e pode ser lido numa chave de fé cristã. Mas eu me pergunto justamente se a leitura laica, que não tem essa justificativa de fundo, tem uma força de convicção ineludível de sustentar, por exemplo, o perdão aos inimigos.
Por que o altruísmo, a sinceridade, o respeito pelos outros, o perdão dos inimigos são sempre um bem e devem ser preferidos mesmo ao preço da própria vida, a comportamentos contrários? E como fazer para decidir com certeza, nos casos concretos, o que é altruísmo e o que não é?
O que você me responde é que não, estes valores não são sempre um bem e você acha positivo estarmos submetidos ao contingencial e relativismo deles, e que também não há esse motivo inflexível que os faça ser preferível a todo custo aos comportamentos contrários. Da mesma forma, assegura que simplesmente não há como dizer o que é altruismo e o que não é, já que não há nada Absoluto e Superior que o nomeie, e que estes tambem devem sim ser conceitos vacilantes.
Se é assim, se bem o compreendi, acho que sua resposta diz por sí só o porquê da minha preferência por uma escolha religiosa, assim como o porquê da
rigidez moral do Papa e as críticas ao ateísmo, em específico neste tópico, ao nihilismo e valores igualmente vacilantes de Nietzsche.