Dragão de Bronze escreveu:As duas ideias são simplesmente ruins. A primeira, sobre cobrar mensalidade, tem muuuuitos problemas implícitos, a segunda, sobre querer que o Estado pare de bancar cursos baratos, é uma visão muito simplista pra um professor de universidade pública.
Cobrar mensalidade de uma universidade pela qual você já paga por meio dos impostos é cobrar duas vezes da mesma pessoa. A carga tributária do Brasil já é grande demais pra considerar isso uma boa ideia.
Excelente. Até aqui concordo 100%. Até estranhei que já vão seis páginas de discussão e ninguém ainda havia levantado essa lebre.
Dragão de Bronze escreveu:E na boa, eu conheço bem a estrutura interna da USP, e digo com certeza absoluta que as bases lá estão tão erradas que não é mais dinheiro que vai resolver. Aliás, mais dinheiro só vai servir pro que sempre serve no Brasil um dinheiro extra nas mãos do governo. Na USP, a universidade com maior orçamento do estado mais rico do Brasil, e a que tem de longe a maior produção acadêmica (em quantidade), 85% do orçamento é gasto com salários.
Concordo que a USP sofre de problemas estruturais. Falta a gente levantar quais são.
Falando de um deles, ligado a questão dos salários. Aconteceu quando a governo do estado "promoveu" a USP à condição de autarquia. Foi uma manobra bem nas coxas, pra cortar alguns gastos. A universidade atualmente é responsável pelo pagamento dos próprios aposentados. Isso mesmo, o pagamento dos aposentados da universidade não vem do INSS, mas do próprio orçamento da USP. E o governo do estado continua com a mãozona lá dentro, sendo responsável, por exemplo, por decidir quem será o reitor (o Rodas, por exemplo, ficou em segundo lugar nas eleições, mas o governador mandou o foda-se e escolheu o cara mesmo assim).
Dragão de Bronze escreveu:Quanto à segunda, primeito: não adianta querer avançar apenas no sentido técnico-econômico-industrial. Segundo: essa história de que "estudar humanas é exercitar o senso crítico e estudar as outras áreas não" é uma balela sem tamanho. Estudar humanas te exercita um tipo de raciocínio, exatas outro, e biológicas outro. Todos vêem o mundo, cada um por um aspecto diferente. Eu tenho sorte de ver múltiplos pontos de vista no meu curso.
Em suma, o Brasil está errado em sua estrutura básica. Com bases podres, nada para em pé. E é por isso que o Brasil depende tanto de jeitinhos e continua lutando tanto por tão pouco. Com a força de vontade do brasileiro, é incrível ver onde ele chegou. Meramente um grande "avanço técnico e científico para fins industriais" vai servir apenas pra deixar o Brasil com economia forte e tecnologia avançada. A diferença entre aqui e os países desenvolvidos será que ainda vai ser tudo na base da trambicagem, o poder de compra vai estar abaixo de países com renda per capita similar, as coisas vão continuar dando menos certo que em países com a mesma tecnologia, etc, etc, etc. Ou seja, especializar assim dará muito trabalho pra dar errado de novo.
Concordo com a primeira afirmação. Em partes com a segunda: claro que jogar as coisas assim, em preto e branco, resultará em balela, em erro crasso. Mas o foco de boa parte dos cursos de humanas é (ou deveria ser) o raciocínio
(não o senso) crítico. E pulando pra quinta frase: por favor, que pontos de vista? Sério, é curiosidade mesmo. Você estuda engenharias, é isso? Quais são os pontos de vista que você vê no seu curso (se é que você estava falando do curso nessa frase, eu posso muito bem ter entendido errado)?
Eu ia reclamar da trambicagem também, mas deixa quieto, percebi uma coisa legal ali no que você disse e vou deixar pra outra conversa.
Dragão de Bronze escreveu:Mas sinceramente, as humanas são os cursos que mais precisam de reforma. Muitos deles são uma doutrinação política tão desgraçada que não é raro ver alguém que deveria criticar a partir daquele ponto de vista o fazer de forma tão alienada que seria mais válido não ter crítica nenhuma.
Primeira frase: sem apontar os motivos, os porquês, e onde, é só achismo. Segunda frase: é meio achismo. Aliás, são vários achismos juntos. Eu sou formado em letras, e eu tive professores estruturalistas, materialistas históricos, formalistas, gerativistas, muita vez tudo no mesmo semestre. Se você pula pras ciências socias, você vai estudar Marx, Webber, com professores marxistas e webberianos. E nem quero pensar na sopa que é um curso de filosofia. Claro que isso não impede de aparecer de vez em quando um trololô auto-dogmático, e a galera das humanas leva a fama em cima deles, porque eles são minoria, mas são muito mais barulhentos. Por outro lado, parece haver um silêncio geral sobre o fato de que as exatas podem ser tão doutrinárias quanto as humanas, e de maneira até mais sutil, já que nas humanas você ainda tem a chance de estudar o discurso, ele é obrigado a se colocar claramente, e nas exatas não, ele pode se imiscuir.
Dragão de Bronze escreveu:Por que não fazer como fizeram na França e investir pesadamente em ensino de base?
Porque não dá resultado a curto prazo, e quem vai colher os frutos não vai ser quem os plantou. E isso não acontece no Brasil.
Concordo 100%.
Dragão de Bronze escreveu:Emil escreveu:Sabe, eu nunca dou palpite sobre uma obra, por exemplo, porque eu sei que me falta conhecimento para produzir uma opinião ao menos adequada. Portanto, eu tenho muita dificuldade de entender porque gente com formação em engenharia, ou nem isso (porque vamos combinar: pra ser "empresário" não precisa de porra nenhuma) insiste em querer discutir educação.
Porque o cara com formação em engenharia teve educação ao longo de sua vida inteira, e
viu vários professores diferentes aplicando vários métodos diferentes em vários alunos diferentes. Não é equivalente a você sem ter o estudo para tal falar mal de uma obra, é como se você nunca tivesse estudado administração e falasse mal da administração de alguém. Totalmente válido.
Ver vários professores diferentes aplicando vários métodos diferentes não necessariamente garante uma posição privilegiada para opinião. Além do mais, o raciocínio é falseado porque: a) não estamos falando de métodos educacionais; b) se concordamos que o problema é estrutural, dificilmente será a mudança dos métodos de ensino que irá resolver. Aliás, quando as mudanças vêm, elas vêm pra f*der, como por exemplo o próximo grifo:
Dragão de Bronze escreveu:E porque muitos pedagogos de hoje falam algumas asneiras incríveis, e o fato de nossa educação estar a merda que está deve muito a isso. Exemplo, progressão continuada.
E já que você trouxe o assunto, a progressão continuada isolada não foi implantada por pedagogos. A progressão fazia parte de um projeto que mexia na estrutura no ensino básico. O intuito do projeto era acabar com o ensino seriado, e focar o ensino na necessidade individual do aluno. Em vez de primeira série, segunda série, terceira série, com matérias fixas, o ensino seria divido em áreas, e seria possível para um aluno, conforme o desenvolvimento dele, as facilidades e as dificuldades, ter, por exemplo, alfabetização de terceira série, ensinado por uma professora de alfabetização de terceira série e noções matemáticas de primeira série, com uma outra professora, aplicando metodologias mais adequadas à primeira série. Se ficou muito confuso, eu explico melhor depois, prometo. Por enquanto, guarde as críticas a este modelo, só pra eu mostrar o que aconteceu.
Este projeto era o projeto idealizado por pedagogos, que, é óbvio, passível de críticas. Quando ele caiu na mão dos caras responsáveis pela secretaria da educação, eles jogaram tudo fora, e ficaram só com o que interessava: a progressão continuada. Veja bem, a ideia do projeto era mexer nas estruturas do ensino seriado. E alguém, que não era um pedagogo, mas que era responsável pela pasta de educação, modificou o projeto e manteve apenas a progressão continuada, porque era um jeito de combater a evasão escolar e ganhar uma verba ou um empréstimo da unesco, se eu me lembro bem. O governo sacrificou a educação pública de toda uma geração para melhorar as estatíscas. E os pedagogos levaram a fama.