por Luminus em 15 Jul 2009, 18:18
Post duplo, eu sei... porém, certos sentimentos, melhor não guardá-los.
Hoje, ao que me parece, nasce outro Cruzeiro.
Saí agora a pouco da UFMG, e o trânsito naquele entorno já se complica mais que o normal para o horário. Carros, motos, ônibus e pedestres, sempre em grupo ou comboio, indo em direção ao Mineirão. Ainda me lembro da final de 1997 com seus quase 100.000 pagantes (recorde de público em uma final de Libertadores até hoje), e posso dizer: a movimentação desse ano está maior, mesmo sendo o público inferior a 65.000... há algo muito diferente acontecendo.
Haverá, sim, um telão no estacionamento para quem quiser acompanhar o jogo, mas não creio que esse seja o único motivo do aumento do fluxo de pessoas... o cruzeirense está mais azul que há 12 anos atrás.
Mais azul e mais feliz.
É anormal ver tantos cruzeirenses e não encontrar as famigeradas referências ao Atlético-MG, ainda mais quando eles fazem questão de aparecer: recebem o time adversário no aeroporto, dão camisa do clube ao Verón, fora ficar na porta do hotel e engrossar a torcida do Estudiantes e tal... mas, hoje, não vi menção ao arquirrival. Só vi alegria.
Talvez a torcida cruzeirense, a grande torcida cruzeirense, esteja se manifestando como há muito não se via. É sabido que, dos 61.800 ingressos disponíveis, mais de 30.000 foram direcionados aos sócios torcedores... seria esse o motivo dessa "outra cara" da torcida? Serão eles, efetivamente, outras pessoas?
Há muito se discute em Minas Gerais a elitização do futebol, mais especificamente de seu público... o esporte saiu do gueto, subiu a serra e parece que fincou residência. Não se vendem ingressos para jogos a menos de 10 reais nem mesmo no Campeonato Mineiro (o Atlético-MG ainda vende a Geral a 2 reais, mas é só). Para esse jogo, então... concomitantemente, o preço de todos os petiscos e bebidas subiu: o tropeiro (que subiu de preço e diminuiu de tamanho) a 7 reais, hoje, deve ir para 10. Um copo de água, de 2 reais, deve ir a 5... isso muda, e muito, o público no estádio: todos sabemos que o dinheiro nesse país separa não apenas ricos e pobres, mas também negros e brancos, homens e mulheres, universitários e analfabetos. Seria o caminho para a prosperidade do futebol sua adesão a esse modelo? Isso refletirá em melhorias para a torcida? Tendo uma cobrança de primeiro mundo, teremos também um futebol desse nível? São todas questões que me incomodam, mas que deixarei para outra hora. Um outro aspecto me incomoda muito mais: estou eu correto, e a classe de torcedores do jogo de hoje, mais endinheirada, mais alheia aos estádios, mais distante do cotidiano das filas e esperas, será essa classe de torcedores inerentemente mais feliz que aquele torcedor que realmente acompanha o time? Mais felizes, digo, claro, por um deslumbramento por um "Cruzeiro ideal", por não serem os torcedores calejados? Um Cruzeiro que nunca viram em campo, ou que só veem vez por outra...
Será que eles empurrarão o time com o coração de quem acompanhou o clube de perto, passou sufoco nas etapas anteriores, etc ou farão como o típico público exigente, preguiçoso, letárgico e passivo das cadeiras inferiores, que se senta naquelas malditas cadeiras vermelhas, abre o jornal e, quando você se levanta para acompanhar um momento de perigo, reclama que você o está atrapalhando?
É sabido que João Gilberto reclama e muito dos palcos onde atua. Para a apresentação, conversa daqui, mexe dali... seja aqui ou em Nova York. A diferença é que, lá, o público compreende que ele quer (e merece) ser atendido em todas as suas exigências. Já aqui, o público compreende que ele deveria calar a boca e tocar logo. Ambos pagaram caro para ver o mesmo João Gilberto... qual deles está mais interessado no vicejar do espetáculo, e qual deles está ali porque, bem, é aquela a atração semanal que, compreende-se, está à altura de seu poder aquisitivo?
Será na arquibancada, hoje, a paixão pelo clube... ou será o reflexo de se poder pagar o ingresso?
... será o Cruzeiro, ou o Cr$?
E.