por Ermel em 17 Fev 2008, 21:20
Capítulo VIII.
Sentada em frente a um enorme poço onde um líquido cinza se remechia calmo, e que em resposta a sua chegada, mãos e rostos brotavam freneticamente tentando alcança-la, lutavam entre si por espaço e por ela. Ansiavam por carne. Pelo corpo.
Com os olhos esbugalhados encarava todo aquele líquido que ganhava forma e ia em sua direção. Sentiu um frio gelatinoso torcar-lhe a perna, uma daquelas mãos tinha conseguido pega-la sem que notasse. Instintivamente lançou a perna para o ar tentando se soltar daquela aberração que a segurava. A mão esticava a medida que tentava se soltar, novas formas brotavam do poço e serpenteavam pelo chão de pedra em direção a suas pernas.
Em desespero olhou para o monstro que bloqueava o único local que servia tanto de saída como entrada. Não soube o que dizer, pensava em pedir-lhe socorro, mas poderia também ser um erro. As várias mãos lhe puxavam para dentro do poço. Deitada no chão tentava se segurar, mas suas mãos escorregavam, suas unhas arranhavam o chão deixando marcas pelas pedras. Exerceu toda a força que podia em seus finos dedos e outro barulho estridente se fez do encontro das unhas com as pedras fazendo com que uma saltasse de seu dedo, gritou desesperadamente de dor. Nesse instante de fraqueza fora tragada rapidamente para o poço.
Fechou os olhos. Sentia aquele liquido por todo o corpo, mas não se sentia molhada. Prendeu a respiração. Sentia mãos lhe acariciarem o corpo. Faltava ar. Mais uma vez se pos a chorar copiosamente, não queria morrer tão cedo e não daquele jeito. Vendo que morreria afogada decidiu abrir os olhos e se soltar. Soltou o resto de ar que lhe enchia os pulmões, o liquido entrou por suas narinas e corria frio até seus pulmões, e a sensação, daquele ar tão essêncial, tão vital, lhe preencheu todo o ser.
Haviam pessoas formadas pela mesma substância daquele estranho liquido, elas nadavam ao seu redor, aqueles mais próximos acariciavam seu corpo, mexiam em seus cabelos e os cheirava. Alguns lambiam suas pernas e braços expostos, pareciam degustar seu sabor. O silêncio reinava naquele meio.
Ergueu a cabeça encarando a superfície onde brilhava uma intensa luz. Tentou nadar, mas fora impedida pelos vários que voltavam a segura-la de modo que não conseguia sair do lugar. Bateu as pernas, outros se abraçavam e o seu peso começava a aumentar afundando gradativamente naquele poço sem fim.
Ao fundo os corpos liquidos abriam alas para uma outra que subia em direção a jovem. Sua velocidade aumentava com a aproximação. Parou frente a jovem que tentava desesperadamente nadar para a superfície que mal notara a figura feminina a sua frente.
Facilmente esgueirou-se pelas suas narinas e lábios semi-cerrados. O corpo de Alice contorcia a cada centímentro em que o liquido avançava dentro dela. Uma dor avassaladora tomou sua cabeça subitamente fazendo com que pendesse a cabeça para trás e seu semblante tomasse uma feição desesperadora. Seus olhos ardiam, sentia um gosto frio de metal tomar-lhe o paladar e as entranhas queimarem contorcendo com mais força o frágil corpo. Como um feto, boiava abraçada as pernas dentro daquela imensidão cinza.
Os olhos ardiam mesmo fechados e com certo esforço levantava as pálpebras. Uma vaga lembrança do que acontecera tomou sua mente. Segurou a cabeça tentando compreender melhor o que havia acontecido. Seus olhos varreram o local, estava escuro, mas o suficiente para ver que não estava mais no poço, muito menos na biblioteca. Um choro fraco e abafado se propagava no local e enchia seus ouvidos. Deu uma meia volta ainda sentada no chão, em um canto havia uma mulher nua, aparentemente mais velha que ela, de cócoras, seus cabelos negros cobriam parcialmente suas costas. Olhou mais uma vez ao seu redor. Nada.
Levantou receosa, queria correr, gritar, e bater em algo se possível. E com passos pequenos na ponta do pé se aproximava da mulher que chorava. Com as mãos que tremulavam percorreu o ar em direção a mulher e lhe cutucou o ombro. Parou de chorar. Sua mão continuava encostada a sua costa.
Ela virou lentamente a cabeça encarando-a. Seus olhos eram fundos e estavam vermelhos. Com um sorriso mórbido levantou encarando a criança nos olhos. Estava totalmente nua, era magra, até de mais, alguns ossos pareciam pular de seu corpo. Esticou as mãos em direção a garota envolvendo-a em um abraço frio e indiferente. Alice continuava estática. Os lábios dela tocaram o seu. Pareceu durar uma eternidade. E daquele beijo seu corpo enfraqueceu, roubava suas energias, seu corpo parecia pesar mais do que aparentava, a cabeça pendia para o lado e a mulher seguia seu compasso ainda com os lábios grudados ao seu. Algumas veias saltavam em seu rosto, um enorme cansaço tomou-lhe.
- Somos eu e você. - disse a mulher ainda com os lábios no dela - Vou cuidar de você.
Uma lágrima escorreu do olho da mulher e gotejou na bocheca da criança, que escorreu pela face caindo no chão. Piscava rapidamente a cada gota que tocava sua face, não conseguindo mais sustentar nem ao menos seus olhos abertos adormeceu em seus braços.
Seus olhos abriram lentamente, sentia seu corpo levemente dolorido. Estava dentro do poço. Mas não tinha mais aquela coloração cinza de outrora, muito menos aquelas pessoas da mesma substância. Era azul, azul como o próprio céu, e límpido, nada mais a segurava. Livre nadou até a superfície. Apoiou-se na borda e subiu com certa dificuldade. Infelizmente, ele ainda estava lá. Aquele horrendo monstro ainda estava lá. Pensou em se jogar novamente n'água, mas ele fora mais rápido segurando-a pela cintura e a colocando em seu ombro. Voltavam pelo mesmo caminho que vieram, entre aquelas paredes de ossos humanos.
Em frente a porta da biblioteca podia ver Albert ainda catatônico. A luz que iluminava a biblioteca não ousava passar da porta que a delimitava. A criatura colocou-a frente a si. E frente a frente ele sorriu.
- Parabéns jovem Alice, parabéns.
Arremessou-a como uma bola para dentro. Seu corpo voou em direção a Albert.
Debateu-se freneticamente na cadeira fazendo-a cair abruptamente contra o chão. Remexia-se histericamente no chão. Suas mãos esfregavam com força seu rosto - seus cabelos tomaram totalmente seu rosto - as pernas chacoalhavam com força. Estava tomada pelo desespero. Albert levantou rapidamente e tentou conte-la.
- Acalme-se criança, já passou! Acalme-se! - gritava Albert enquanto continha Alice que o encarava por entre os fios negros em seu rosto com pavor -.
"And the question is
Was I more alive then than I am now?
I happily have to disagree
I laugh more often now
I cry more often now
I am more me!"