Emil escreveu:Mas até aqui eu estou assumindo que você também não leu o Guerras Táuricas, e falha minha, você pode já ter lido.
Realmente não li.
Pois é, justamente, também grifei sua resposta. Se este é um tópico sobre tormenta e não sobre as implicações da escravidão, então não faz sentido implicar com as implicações (uff, doeu) sobre escravidão pra atacar o material ou pra defender o material.
Reformulando o que eu disse: Este é um tópico sobre Tormenta. Estamos discutindo as implicações da escravidão dentro do cenário de Tormenta, não as implicações da escravidão em geral.
Todos os seus personagens choram as mortes de todos os goblins, orcs e necromantes?
Não, só os personagens que são feitos para serem justos.
E eu ia te zoar, dizendo que se você se incomoda frequentemente com situações violentas ou imorais que ocorrem dentro de jogo, é melhor parar, dar um tempo. Mas não vou fazer isso não, que seria sacanagem e arranjar farpa a toa.
Eu me incomoda quando isso destoa da proposta. Eu fiz um jogo sobre demônios! Nós matávamos, arruinávamos e dominávamos, e foi um dos jogos mais divertidos (e amorais) que já mestrei. Mas essa era a proposta do jogo.
Por outro lado, quando um heroi galante começa a torturar prisioneiros só porque é conveniente, isso incomoda. Foge à ideia, à proposta do que se tem.
Cada cenário tem suas particularidades. Quais são as de Tormenta? Ele é um cenário leve ou pesado? Complexo ou simples? Maniqueísta ou cheio de tons de cinza? Os autores não conseguem se decidir. Uma hora você tem elfos com pés de coelho, na outra você tem elfos escravos sexuais. Bom, na contracapa do jogo diz que é um jogo de heroísmo, em que você salva o mundo, etc e tal. Ali estão os minotauros invasores e escravagistas, mas isso é pra ser tratado normalmente? O livro tem mesmo que tomar uma posição e tentar defender o modo de vida deles?
Existem maneiras de um autor retratar temas polêmicos. Uma é tratá-los realistica e neutramente, descrevendo-os e deixando ao leitor a decisão de se aquilo é certo ou errado. Outro é assumir uma postura para defender ou atacar o tema, mas essa é mais perigosa porque você pode estar criando uma dissonância moral (defender uma prática repugnante, ou acusar uma prática admirável). Com meu parco conhecimento do livro, aparentemente ele pende para essa dissonância. Mas você está certo, eu não o li ainda.
Meio off:
Isso me lembra uma campanha minha no meu cenário "Anima", em que os NPCs mais queridos e admirados pelos jogadores vinham de uma sociedade "maligna" e seguiam os preceitos dessa sociedade.
(Engraçado, era um reino parcialmente baseado em elementos da sociedade romana/espartana e expancionista, que dominava política ou economicamente quase todas as nações do mundo...).
A questão é que a ideologia dessa sociedade, e portanto os guerreiros que vinham dela (inclusive o imperador) eram admiráveis, mas quando se aplica isso a uma nação (era o que eu chamava de ideologia da "nação heróica"), tudo se tornava desastroso, pois o império se via no direito de invadir outras terras para "salvar o mundo" (exatamente o que heróis de fantasia fazem), e todos os males causados por ele se voltavam a proteger o mundo da vinda de um deus insano do passado.
Para expor isso, porém, eu apenas apresentei fatos, não fiquei puxando "sardinha" para justificar os atos deles; deixei os jogadores escolherem se o que essa sociedade fazia era aceitável ou não. Os resultados foram muito interessantes.
Na verdade, não é sessão da tarde, é "o que você quiser que seja", e essa é uma das principais críticas ao cenário, não é?
Talvez seja por isso que tanta gente critique o cenário. Cada um tem uma visão dele, então sempre tem elementos que "não se encaixam".
Porque se o problema dele for só ser sessão da tarde, então a gente precisa deletar metade deste tópico, acho. Mas suponhamos que essa parte das Invasões Táuricas seja sessão da tarde...
Um cenário pode ser simples e tocar questões complexas. Eu leio One Piece, por exemplo, e para um mangá shonen sobre piratas, tem umas questões extremamente interessantes, como escravidão, abuso de poder, autoritarismo, corrupção, guerras... Ainda assim, esses tópicos são tratados apropriadamente e não destoam da proposta do mangá nem são tratados de forma que ferem a inteligência do leitor. É isso que falta a Tormenta: coerência na forma de tratar seus temas.
No mais, eu fiquei curioso pra saber como Dark Sun resolve o problema da escravidão. Não sou familiarizado com o cenário. Alguém pode me contar? Talvez já fazendo a comparação com Tormenta?
Não resolve. ELa está lá, é parte do cenário, e ninguém está nem aí. Mas o cenário é feito em cima da ideia de um mundo corrupto e brutal, onde os mais fortes sobrevivem e os fracos padecem, e que se você não tiver 100 quilos de pura massa muscular, você vai acabar morrendo ou sendo abusado pelos mais fracos. É um mundo impiedoso que não tenta ser maniqueísta, e em que os personagens dos jogadores não são supostos heróis galantes que vão salvar o mundo, só sobreviver nele.
Agora para comparar com algo mais maniqueísta, vou falar de One Piece, que não é RPG, mas tem um cenário pra lá de rico. Ali, escravidão é proibida... exceto que os nobres mais altos e poderosos do mundo mantém escravos e os tratam como absoluto lixo (tipo, eles chegam a cavalgar pessoas até que elas morram de exaustão, prendem pessoas com colares explosivos pro caso de tentarem escapar, e humilham seus inferiores sempre que podem). Ou seja, a nata do mundo é o pior tipo de gente. O cenário não é exatamente maniqueísta (o tema é mais "liberdade vs opressão" e "amizade vs estar sozinho no mundo" do que "bem contra mal"), mas quando vai abordar o tema ele o faz sem tons de cinza, pois isso não seria apropriado à proposta.
Mas a situação material que possibilita os elfos se sujeitarem aos minotauros está toda lá: eles não têm mais um reino, não têm uma sociedade organizada, e existe uma outra raça no cenário que considera seu imperativo categórico (eu ia escrever dever natural, mas assim é muito mais chique) acolher e proteger os mais fracos.
Eu acho que de estar sem reino e sem sociedade pra aceitar escravidão há um pulo muito grande. Eu não duvido que alguns elfos possam fazer essa escolha. Na hora do desespero, qualquer "ajuda" pode ser a salvação. O problema é a mentalidade de que "a maioria" aceitaria isso. Credo, é mais difícil formar um gueto numa grande cidade ou fundar um vilarejo para acolher o próprio povo do que aceitar escravizar-se? Na minha opinião, se meu povo já está sem pátria e sem organização porque os perdeu para uma raça inumana e expancionista, o que ele menos precisa é de se sujeitar a outra raça inumana e expancionista.
É por isso que o autor tem que inventar essa história de que a deusa se sujeitou a isso, então os elfos também fazem o mesmo. O próprio autor mostra com essa jogada que é difícil explicar como uma "maioria" aceitaria tal tratamento sem algum tipo de "Deus Ex Machina" para justificar.