por Luminus em 29 Ago 2009, 23:37
Celton arrumou suas roupas, bateu o barro da barra de sua túnica e suspirou pesadamente. Seu mentor jamais toleraria recebê-lo em tais condições, e o fato de o jovem ter passado os últimos dez dias em meio a terreno selvagem não serviriam sequer de desculpas. Mas Celton não pensava nisso, ele tinha coisas mais importantes com o que se preocupar.
Por exemplo, a pilha de ouro cuja sombra passava sobre sua cabeça.
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Tudo começou duas semanas atrás, quando Celton tentava, pela enésima vez, otimizar o processo de fixação híbrida conjugada, a fim de obter uma maior durabilidade dos unguentos e emplastos que produzia. Até então, não tivera sorte.
Quando estava prestes a sair de sua casa e procurar por outras raízes de andiroba e frutos de caviúna, Celton percebeu o discreto conjunto de pétalas de rosas próximo ao batente da porta, um sinal claro de que seu mentor chamava-o com urgência. O frescor das pétalas já se dissipara, e isso era um sinal de que o aviso já estava ali há pelo menos um dia... ele estava, novamente, atrasado.
Celton acertou os utensílios em sua mesa da maneira mais simples possível, removeu o pesado avental, as luvas e as botas, e então vestiu-se com roupas mais leves, arejadas, apropriadas para sua reunião. Era estranho: ele se habituara ao peso e ao incômodo do avental e, agora, mesmo vestido, sentia-se como nu. Desfez-se desse pensamento, e tratou de ganhar o exterior de sua cabana.
Enquanto caminhava pela mata, Celton reparou que as coisas estavam, ainda, normais. O inverno avizinhava-se e, embora sua existência fosse mais uma formalidade no calendário que uma mudança climática propriamente dita, ele achou por bem colher os últimos frutos e flores comuns aos últimos dias desse outono brando. Em menos de uma tarde de caminhada, ele chegou ao seu destino.
O círculo de anciãos desfazia-se quando Celton se aproximava. Todos perceberam sua aproximação, mas a maioria ignorou-o. Seu mentor ainda recebera alguns olhares reprovadores, que Celton sabia ser ele mesmo o causador.
"Você está atrasado"
"Sim, eu sei... meus experimentos..."
Seus "experimentos" são uma afronta ao ciclo natural, ao ciclo da vida, àquilo que procuro inutilmente focalizar sua atenção.
"Poderia me dizer de que maneira, exatamente, eles constituem essa afronta?"
"Em outro momento. Agora, tens obrigações a cumprir"
O velho aproximou-se de Celton carregando um pergaminho amarrotado, antigo, e gesticulou para que este saísse de seu caminho. Ele então estendeu o papel sobre uma pedra razoavelmente plana e, como se procurasse por algum segredo, correu os olhos pelo mapa ali desenhado. Por fim, apontou para um vale recluso, nas bordas das florestas e dos montes, e falou pausadaente:
"Você sabe o que é isso?"
Celton examinou o local apontado, tentando referenciá-lo ao local onde estava, a fim de estimar a distância, o melhor caminho para fazer a viagem, os pontos de rios e de caça, quando um tapa tomou sua testa:
"Então? Já sabe me dizer como chegar a esse lugar?"
"Hm, eu acredito que fique... naquela direção. A uns... vinte dias de viagem. Quinze, se formos apenas nós dois"
"Ah, mas eu não vou a lugar algum... essa região não mais é de minha responsabilidade!"
"Mas como ass...", Celton então lembrou-se que a cada noviço cabe uma área a ser estudada e protegida. A sua área, para sua sorte, ficava no meio do nada, realmente longe de qualquer ponto de interesse, de estradas, tribos de orcs... era um recanto calmo e esquecido, realmente um local desinteressante, onde não havia muito o que se vigiar. Ele agradecera à sabedoria dos deuses por terem colocado aquela região sob sua tutela: isso permitiria que continuasse seus estudos e pesquisas dentro de sua cabana, sem se preocupar com o que acontecia do lado de fora. Ele sequer fora àquela região, realmente não a conhecia.
"Sim, vejo nos seus olhos o impasse que se descortina: terás de abandonar suas "pesquisas", e embrenhar-se no meio do mato, para proteger aquilo que lhe é obrigação... a não ser, é claro, que você prefira abandonar nosso círculo..."
"Tal atitude jamais passou pela minha cabeça. Diga-me o que devo fazer"
Algo contrariado, o ancião continuou:
"Um grupo de pessoas foi visto viajando nessa direção. Eles caminham sem pressa, mas em breve entrarão nos seus territórios. Você deve partir para lá imediatamente, e vigiar suas atitudes. Se possível, investigue suas motivações, mas não arrisque ser descoberto. Se convier, envie-me um mensageiro silvestre".
"Está certo, apenas retornarei à minha casa para...", o ancião cortou-o:
"Qual parte do 'imediatamente' você não entendeu?"
Celton então despediu-se, com o mapa memorizado, e começou a caminhar em direção ao noroeste, aliviado pelo suave declive que percorreria pelo restante do dia, mas já consternado pelos tantos dias de viagem que o aguardavam...
CONTINUA
E.