"Todos esperavam pelo Contos-100, em Contonópolis, porém, o evento fora cancelado. Chateados, ninguém percebeu que o personagem psicopata de uma obra de Sampaio surgiu também em um conto de Ironsoul e, pouco depois, em um conto de Gehenna. Os habitantes estavam ocupados com seus afazeres e não notaram que aquele personagem estava ganhando forças, reaparecendo em várias outras obras. Uma idéia, se infiltrando nas mentes dos escritores e forçando-os a usá-lo em seus contos. Poucos meses depois, Ronaldo saiu dos textos, adquirindo forma física e intelecto próprio. Uma idéia em um invólucro de carne imaginária, independente de outras mentes para dar-lhe consistência. O povo não tinha consciência disto, mas entre eles, agora, caminhava incógnito um devorador de criatividade. Contonópolis estava em perigo uma vez mais".
A Guerra dos Sonhos
Parte 1: Criador e Criaturas
Gehenna estava debruçado sobre a mesa de seu escritório abarrotado de livros e tomos por todos os lados. As sombras bruxuleavam, pelas paredes de pedras negras, devido à fraca iluminação proporcionada por velas que se espalhavam pelo aposento. Parecia concentrado, enquanto a pena em sua mão trabalhava incessantemente, tal qual as pragas que saíam de sua boca, reclamando sobre prazos e seu terrível hábito de deixar tudo pra última hora. A porta de madeira então se abriu e por ela entrou um jovem que mal havia completado a maioridade, vestindo uma camisa preta de mangas curtas e desabotoada, bermuda preta estampada com flores brancas, sandálias e óculos escuros. Seus cabelos pretos eram longos e ele trazia na mão um copo de onde bebia um líquido negro-avermelhado. “E aí, chefia? Quando é que eu volto à ativa?”
“Athos, já disse que não gosto de ser interrompido em meu escritório”. Gehenna disse sob as pesadas sombras de seu manto, enquanto parava por um instante, retirando os óculos e apertando os dedos contra os olhos cansados.
“É, eu sei. Foi mal. É que to parado há um bom tempo, então resolvi ver se tem alguma notícia. Aceita coca?”
“Não, obrigado. Se quer mesmo saber, não tenho previsão pro seu retorno. Agora saia e espere, como os outros”.
“Como os outros? Cara, eu não sou como os outros. Qual é? Eu sou o protagonista da sua obra principal. Essa torre só está de pé aqui, firme e forte, por minha causa. Acho que mereço um pouco mais de consideração”.
“Eu tenho muita consideração por você. Agora, cai fora”.
Gehenna não podia ver, mas a expressão de Athos mostrava que o rapaz não estava nem um pouco satisfeito com aquilo. Ele ergueu a mão direita e fitou o anel de metal negro em seu dedo. De repente, as sombras do aposento se intensificaram e velas se apagaram. Tentáculos negros surgiram ao redor do escritor, se enrolando em seu corpo, prendendo-o e elevando-o, colocando seu rosto de frente com o de Athos, que mesclara trevas em seu corpo e suas vestes, aparentando um demônio sombrio. Quando falou, sua voz soou tenebrosa e assustadora. “Roxane teve um conto recentemente e o Ceifador não para de falar que será o próximo. Creio que você me deve satisfações por meu conto estar parado”.
“O que eu te devo é uma boa surra”. Gehenna disse, enquanto moveu seu braço direito rapidamente, arrebentando os tentáculos e atingindo o punho contra o queixo de seu personagem, jogando-o para trás. Athos se recompôs rapidamente, sacou um pedaço de madeira do bolso e concentrou trevas ao redor dele, transformando-o em uma lâmina tenebrosa que usou para golpear horizontalmente seu criador. Gehenna sentiu a espada se desfazer assim que tocou seu braço direito, que usara para bloquear. Com a mão esquerda, segurou a mão de Athos, que ainda segurava o cabo de madeira, enquanto chutava-o na barriga, arrancando o ar de seus pulmões.
Enfraquecido com o golpe, o rapaz quase não teve reação, quando seu criador arrancou o anel de sua mão, fazendo as trevas se dissiparem do local, deixando a fraca iluminação voltar ao normal. Athos estava sentado no chão e fitava Gehenna de pé, com sua capa e capuz esvoaçando mesmo sem vento, e sua mão esquerda erguida com o punho fechado. Por um momento, pareceu o Dr. Destino.
“Adamantium, vibranium, mithril, ferro frio e vários outros metais reais e imaginários, com propriedades para absorver qualquer tipo de energia, cancelar qualquer tipo de magia e quebrar qualquer tipo de arma”. Gehenna disse, ao puxar a manga de seu braço direito, revelando o membro metálico meca-místico que sobrepujara tão bem os truques de seu adversário.
“Depois eu que sou apelão...”
“Você vai ficar sem o anel por um tempo, porque você não merece. Você é moleque. Mo-le-que! Agora, pede pra sair!” Gehenna disse, dando um tapa em Athos, fazendo-o correr para fora do escritório, após a citação ao poderoso Capitão Nascimento.
Guardou o anel no bolso, recolocou os óculos e se sentou mais uma vez em sua cadeira, para continuar a praguejar contra o que estava fazendo. Não durou muito quando a porta se abriu novamente, interrompendo-o com a entrada de uma jovem garota de cabelos aloirados e belos olhos azuis curiosos. “Aconteceu alguma coisa, chefe? Senti um certo distúrbio na Força”.
“Sem expressões Jedi, Roxane. Isso me lembra algo que eu devia ter feito há tempos e ainda não fiz...”
“Cruzei com o Athos, agora. Ele não parecia muito satisfeito”.
“Pelo visto, ninguém nunca está, nessa maldita torre”.
“Aconteceu alguma coisa?”
“Aquele merda do Athos veio se achando importante, pra cima de mim”.
“Hã... Mas ele não é o protagonista da sua obra principal? Essa torre está aqui por causa dele, não?”
“Foi ele quem te pediu pra dizer isso?” Gehenna perguntou levantando uma sobrancelha.
“Não, mas é a verdade, não é?”
“Em parte, sim, mas Athos é só um plaboyzinho num carro tunnado com a grana do pai. Só que adaptado para um ambiente sobrenatural e infernal”.
“É, olhando por esse lado...”
“Agora, Roxane, meu pequeno e querido prodígio, eu estou muito ocupado no momento. Será que você pode sair e ser mais útil em outro lugar? Aposto que Athos está precisando de apoio”.
“Não do meu...” Ela disse, se virando para sair, quando parou repentinamente, ao se ver de frente com uma bela garota ruiva, com um olho verde e outro azul, usando óculos e vestindo short e camiseta, sobre um biquíni ainda úmido.
“Ah, oi, Daniele”.
“Oi, Roxane! Nossa, ainda não te parabenizei pelo conto-solo. Ficou muito bom! Você foi muito corajosa, lá com o fantasma...”
“Para de puxar saco, Daniele!” Gehenna ergueu a voz, interrompendo a ruiva.
“Hã, obrigado. A gente se fala depois, ok? Até mais”. Roxane disse, saindo.
“Eu não estava puxando saco. Estava apenas...” Daniele tentou retrucar, mas foi logo interrompida novamente.
“Estava puxando saco, sim. Você sabe que ela é mais querida e está tentando ganhar maiores participações forçando amizade com ela”.
“Argh! Não é justo! Ela ganhou um conto-solo e fiquei sabendo que está na fila para ganhar outro. Porque diabos ela tem todas essas regalias e eu nada?”
“Porque todo mundo gosta dela e você só ta na história pra preencher a vaga obrigatória de ruiva”.
“Poxa, eu posso dar boas histórias. Me dá uma chance, chefinho”. Ela disse, enlaçando-o em seus braços e colando o corpo junto ao dele.
“Devo lembra-la que seu sex-appeal não funciona em mim?”
“Po, que saco! Porque não me dá uma chance? Coloque fadas, na história. Ouvi dizer que estão me chamando de Garota-Fada”.
“Não ‘estão’ te chamando. O Lobo Branco está. E só porque ele não lembra teu nome”.
“Ele não precisa lembrar meu nome. Ele sabe quem eu sou e tem tanto poder quanto você. Eu entendo um pouco como as coisas aqui em Contonópolis funcionam. Se ele diz que sou fada, uma hora ou outra as palavras dele me afetarão. Daí você vai me implorar pra fazer um conto-solo”. Daniele disse, enquanto saía frustrada.
“Mas não tem fadas em Sombra!”
“Dane-se! Você sabe que é verdade! E eu sei que ele não é o único me chamando assim. A Magistrada Lady Draconnasti também já se referiu a mim como Guria-Fada. Acho melhor reavaliar as regras desse universo, chefinho, ou algo dito inexistente pode acabar surgindo e derrubando sua preciosa torre”. Ela finalmente saiu, após plantar a semente da dúvida na mente de seu criador. Ela estava correta, o poder de outros habitantes poderia acabar invadindo sua torre e afetando Daniele. Ela nunca se tornaria uma fada, mas o que ela poderia se tornar sob as influências de um arauto da guerra e de uma adoradora de drows e dragões?
As divagações de Gehenna não duraram muito, quando foi novamente interrompido por alguém que adentrara seu escritório, caminhando em sua direção. Era um homem jovem, com roupas comuns de camponês. Parecia bastante familiar, mas não conseguia se lembrar de quem era. Talvez algum figurante de um de seus contos ou um personagem de algum outro habitante de Contonópolis.
“Olá, chefe. Lembra de mim?”
“Hã... Sinceramente, não”.
“Não? Poxa... Isso quer dizer que não tenho chance de ganhar um conto-solo, né?”
“Definitivamente, não”.
“Ah, droga. Então terei de tomar à força”. Ele disse, quando estava perto o suficiente e, de repente, sua boca se alargou, abocanhando o rosto de Gehenna, que começou a se debater e golpear seu agressor, enquanto sentia sua mente se esvaziando, tendo seus pensamentos e criatividade sugados pela criatura. Infelizmente, seus golpes nada faziam, pois a coisa parecia ser feita de algum tipo de gosma. Por um momento, se lembrou de quem era a face que o monstro usara para se aproximar. Um personagem figurante do conto-solo de Roxane a quem dera o nome de Ronaldo.
POW
A explosão reverberou pelo aposento, quando Afonso surgiu pela porta, empunhando seu enorme e belíssimo revólver prateado, com entalhes e detalhes dourados, e vestindo seu casaco marrom que tremulava com a brisa do corredor. Gehenna não o viu, pois ficou paralisado por um momento, após ver o disparo do caçador passar sobre seu rosto, quase explodindo sua cabeça.
Já a criatura, nada sofrera, pois abandonara a forma humanóide, parecendo uma massa disforme de carne gosmenta, com olhos e bocas surgindo e desaparecendo em sua extensão. Pelo menos, quando sua cabeça se desfizera, para evitar o projétil, teve de interromper sua alimentação no ponto crucial, quando Gehenna teria sua alma devorada pelo monstro, que agora se voltava para a porta. Quando falou, com suas inúmeras bocas, as vozes ecoaram em uma cacofonia terrivelmente alienígena, enquanto o som soou como se estivessem arranhando por dentro o crânio dos ouvintes. “Não podes me vencer, caçador! És apenas matéria de sonhos! Vou te devorar como um aperitivo!”
“Chefe!” Afonso gritou em desespero, clamando por ajuda, enquanto disparou uma segunda vez, fazendo a massa gosmenta se contorcer, evitando o disparo, sem frear seu avanço. Suas bocas salivavam, enquanto chegavam mais perto do caçador, que suava frio, fazendo mira de forma que seus disparos não atingissem Gehenna. Um novo tiro, mais uma vez evitado pela criatura, que cobria a distância rapidamente.
“Sou eu... que mando nessa porra aqui... E eu digo... que o Afonso PODE te vencer!” Gehenna disse, exausto, gastando suas últimas forças para imbuir seu personagem favorito com poder para vencer a criatura, que já se preparava para abocanhar o caçador, quando um novo disparo foi feito, atingindo-a em cheio e abrindo-lhe um enorme buraco sangrento, fazendo-a se contorcer no chão. Afonso mirou mais uma vez e disparou pouco antes de ver a criatura saltar rapidamente pela janela do escritório, evitando ser destruída.
“Chefe, você está bem?!” Afonso perguntou afoito, alcançando Gehenna, que jazia no chão, sem forças.
“Primeiramente... se você me beijar... juro que te mato... A criatura me roubou... criatividade... não vitalidade”. Disse com dificuldades, o jovem escritor, enquanto várias pessoas se aglomeravam na porta procurando saber o que havia acontecido, algumas até adentrando no escritório, saltando a mancha de sangue deixada pela criatura.
“Gastei minhas últimas forças... sincronizando sua arma com a criatura... ela usará meu poder para se proteger... de outras coisas, mas... esta arma já a feriu uma vez e... ela não poderá se defender disso... Avise os Magistrados... Estamos em perigo...” Gehenna disse, pouco antes de perder a consciência e adentrar em um sono profundo que seria vazio e sem sonhos, devido ao ataque da criatura. Suas idéias foram todas roubadas.
“Eu sou médico, vou cuidar dele, mas preciso de alguém para levar minha arma e o recado aos Magistrados”. Afonso disse, pegando seu criador nos braços.
“Eu faço isso”. Daniele disse, com um brilho no olhar.
“Seria melhor que fosse outra pessoa, Daniele. Talvez Roxane”. Afonso sugeriu.
“Claro! Mandem a Roxane, afinal de contas, ela é melhor em tudo e todo mundo a adora. Mas lembrem-se que, se formos atacados novamente, eu não conheço fórmulas místicas para conjurar fogo”.
“Ela tem razão. Precisamos proteger a torre”. Athos disse, pegando seu anel no bolso de Gehenna e colocando-o no dedo novamente.
“Certo. Daniele, procure os Magistrados. Mestre Gehenna foi atacado por uma criatura que se alimenta de criatividade. Entregue a arma e diga que isto pode feri-la. Ela tem apenas uma bala, então, têm que tomar cuidado. Depois volte imediatamente. Você corre perigo lá fora” Afonso disse, saindo do escritório, enquanto as pessoas, que se aglomeravam no corredor, lhe davam passagem.
“Tome cuidado, Daniele”. Athos disse, após acompanha-la até a porta da enorme torre negra e inacabada onde morava Gehenna. Quando a ruiva se distanciou, as trevas o envolveram, escurecendo todo o ambiente já noturno daquele lugar. A Torre Sombria tinha de ser protegida...
Daniele se distanciou da torre, atravessando as brumas noturnas e chegando a uma cidadela cheia de casas e pessoas, que caminhavam sobre um céu claro, porém, nublado. Caminhou por algumas ruas, tentando despistar possíveis perseguidores e depois, rumou em direção a um bosque com ares de floresta, na periferia de Contonópolis. Se Gehenna não queria lhe dar um conto-solo, faria sua própria história e não conseguia pensar em companheiro melhor que aquele que lhe deu a alcunha de ‘Fada’: o Lobo Branco.
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“Tem certeza que é uma boa? Justo agora, que seu conto-solo pode sair?” Uma bela mulher perguntou, enquanto empurrava, pelos corredores da torre, uma cadeira de rodas, onde estava um homem negro alto e forte, com a cabeça raspada e estranhas tatuagens tribais pelo corpo.
“Gehenna serviu de jantar para um ser que se alimenta de criatividade. Depois disso, tenho certeza que meu conto não sairá tão cedo. E nem ao menos é certeza que voltarei a andar, nele. Lá fora, tem uma coisa que absorve criatividade, Márcia. Em Contonópolis, criatividade é poder, puro e irrestrito. Acredito que seja nossa melhor chance de tomarmos as rédeas de nosso destino”. O homem disse, com sua poderosa voz de trovão, sonhando com sua restauração e a reconquista de seu nome e cargo: Ceifador, O Avatar dos Sete Pecados.




), mas com a boa qualidade de sempre, dá pra ler tudo tranquilo e ainda achar curto.