Crônicas de Contonópolis: A Guerra dos Sonhos

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Crônicas de Contonópolis: A Guerra dos Sonhos

Mensagempor Gehenna em 14 Nov 2007, 00:41

"Todos esperavam pelo Contos-100, em Contonópolis, porém, o evento fora cancelado. Chateados, ninguém percebeu que o personagem psicopata de uma obra de Sampaio surgiu também em um conto de Ironsoul e, pouco depois, em um conto de Gehenna. Os habitantes estavam ocupados com seus afazeres e não notaram que aquele personagem estava ganhando forças, reaparecendo em várias outras obras. Uma idéia, se infiltrando nas mentes dos escritores e forçando-os a usá-lo em seus contos. Poucos meses depois, Ronaldo saiu dos textos, adquirindo forma física e intelecto próprio. Uma idéia em um invólucro de carne imaginária, independente de outras mentes para dar-lhe consistência. O povo não tinha consciência disto, mas entre eles, agora, caminhava incógnito um devorador de criatividade. Contonópolis estava em perigo uma vez mais".


A Guerra dos Sonhos

Parte 1: Criador e Criaturas


Gehenna estava debruçado sobre a mesa de seu escritório abarrotado de livros e tomos por todos os lados. As sombras bruxuleavam, pelas paredes de pedras negras, devido à fraca iluminação proporcionada por velas que se espalhavam pelo aposento. Parecia concentrado, enquanto a pena em sua mão trabalhava incessantemente, tal qual as pragas que saíam de sua boca, reclamando sobre prazos e seu terrível hábito de deixar tudo pra última hora. A porta de madeira então se abriu e por ela entrou um jovem que mal havia completado a maioridade, vestindo uma camisa preta de mangas curtas e desabotoada, bermuda preta estampada com flores brancas, sandálias e óculos escuros. Seus cabelos pretos eram longos e ele trazia na mão um copo de onde bebia um líquido negro-avermelhado. “E aí, chefia? Quando é que eu volto à ativa?”

“Athos, já disse que não gosto de ser interrompido em meu escritório”. Gehenna disse sob as pesadas sombras de seu manto, enquanto parava por um instante, retirando os óculos e apertando os dedos contra os olhos cansados.

“É, eu sei. Foi mal. É que to parado há um bom tempo, então resolvi ver se tem alguma notícia. Aceita coca?”

“Não, obrigado. Se quer mesmo saber, não tenho previsão pro seu retorno. Agora saia e espere, como os outros”.

“Como os outros? Cara, eu não sou como os outros. Qual é? Eu sou o protagonista da sua obra principal. Essa torre só está de pé aqui, firme e forte, por minha causa. Acho que mereço um pouco mais de consideração”.

“Eu tenho muita consideração por você. Agora, cai fora”.

Gehenna não podia ver, mas a expressão de Athos mostrava que o rapaz não estava nem um pouco satisfeito com aquilo. Ele ergueu a mão direita e fitou o anel de metal negro em seu dedo. De repente, as sombras do aposento se intensificaram e velas se apagaram. Tentáculos negros surgiram ao redor do escritor, se enrolando em seu corpo, prendendo-o e elevando-o, colocando seu rosto de frente com o de Athos, que mesclara trevas em seu corpo e suas vestes, aparentando um demônio sombrio. Quando falou, sua voz soou tenebrosa e assustadora. “Roxane teve um conto recentemente e o Ceifador não para de falar que será o próximo. Creio que você me deve satisfações por meu conto estar parado”.

“O que eu te devo é uma boa surra”. Gehenna disse, enquanto moveu seu braço direito rapidamente, arrebentando os tentáculos e atingindo o punho contra o queixo de seu personagem, jogando-o para trás. Athos se recompôs rapidamente, sacou um pedaço de madeira do bolso e concentrou trevas ao redor dele, transformando-o em uma lâmina tenebrosa que usou para golpear horizontalmente seu criador. Gehenna sentiu a espada se desfazer assim que tocou seu braço direito, que usara para bloquear. Com a mão esquerda, segurou a mão de Athos, que ainda segurava o cabo de madeira, enquanto chutava-o na barriga, arrancando o ar de seus pulmões.

Enfraquecido com o golpe, o rapaz quase não teve reação, quando seu criador arrancou o anel de sua mão, fazendo as trevas se dissiparem do local, deixando a fraca iluminação voltar ao normal. Athos estava sentado no chão e fitava Gehenna de pé, com sua capa e capuz esvoaçando mesmo sem vento, e sua mão esquerda erguida com o punho fechado. Por um momento, pareceu o Dr. Destino.

“Adamantium, vibranium, mithril, ferro frio e vários outros metais reais e imaginários, com propriedades para absorver qualquer tipo de energia, cancelar qualquer tipo de magia e quebrar qualquer tipo de arma”. Gehenna disse, ao puxar a manga de seu braço direito, revelando o membro metálico meca-místico que sobrepujara tão bem os truques de seu adversário.

“Depois eu que sou apelão...”

“Você vai ficar sem o anel por um tempo, porque você não merece. Você é moleque. Mo-le-que! Agora, pede pra sair!” Gehenna disse, dando um tapa em Athos, fazendo-o correr para fora do escritório, após a citação ao poderoso Capitão Nascimento.

Guardou o anel no bolso, recolocou os óculos e se sentou mais uma vez em sua cadeira, para continuar a praguejar contra o que estava fazendo. Não durou muito quando a porta se abriu novamente, interrompendo-o com a entrada de uma jovem garota de cabelos aloirados e belos olhos azuis curiosos. “Aconteceu alguma coisa, chefe? Senti um certo distúrbio na Força”.

“Sem expressões Jedi, Roxane. Isso me lembra algo que eu devia ter feito há tempos e ainda não fiz...”

“Cruzei com o Athos, agora. Ele não parecia muito satisfeito”.

“Pelo visto, ninguém nunca está, nessa maldita torre”.

“Aconteceu alguma coisa?”

“Aquele merda do Athos veio se achando importante, pra cima de mim”.

“Hã... Mas ele não é o protagonista da sua obra principal? Essa torre está aqui por causa dele, não?”

“Foi ele quem te pediu pra dizer isso?” Gehenna perguntou levantando uma sobrancelha.

“Não, mas é a verdade, não é?”

“Em parte, sim, mas Athos é só um plaboyzinho num carro tunnado com a grana do pai. Só que adaptado para um ambiente sobrenatural e infernal”.

“É, olhando por esse lado...”

“Agora, Roxane, meu pequeno e querido prodígio, eu estou muito ocupado no momento. Será que você pode sair e ser mais útil em outro lugar? Aposto que Athos está precisando de apoio”.

“Não do meu...” Ela disse, se virando para sair, quando parou repentinamente, ao se ver de frente com uma bela garota ruiva, com um olho verde e outro azul, usando óculos e vestindo short e camiseta, sobre um biquíni ainda úmido.

“Ah, oi, Daniele”.

“Oi, Roxane! Nossa, ainda não te parabenizei pelo conto-solo. Ficou muito bom! Você foi muito corajosa, lá com o fantasma...”

“Para de puxar saco, Daniele!” Gehenna ergueu a voz, interrompendo a ruiva.

“Hã, obrigado. A gente se fala depois, ok? Até mais”. Roxane disse, saindo.

“Eu não estava puxando saco. Estava apenas...” Daniele tentou retrucar, mas foi logo interrompida novamente.

“Estava puxando saco, sim. Você sabe que ela é mais querida e está tentando ganhar maiores participações forçando amizade com ela”.

“Argh! Não é justo! Ela ganhou um conto-solo e fiquei sabendo que está na fila para ganhar outro. Porque diabos ela tem todas essas regalias e eu nada?”

“Porque todo mundo gosta dela e você só ta na história pra preencher a vaga obrigatória de ruiva”.

“Poxa, eu posso dar boas histórias. Me dá uma chance, chefinho”. Ela disse, enlaçando-o em seus braços e colando o corpo junto ao dele.

“Devo lembra-la que seu sex-appeal não funciona em mim?”

“Po, que saco! Porque não me dá uma chance? Coloque fadas, na história. Ouvi dizer que estão me chamando de Garota-Fada”.

“Não ‘estão’ te chamando. O Lobo Branco está. E só porque ele não lembra teu nome”.

“Ele não precisa lembrar meu nome. Ele sabe quem eu sou e tem tanto poder quanto você. Eu entendo um pouco como as coisas aqui em Contonópolis funcionam. Se ele diz que sou fada, uma hora ou outra as palavras dele me afetarão. Daí você vai me implorar pra fazer um conto-solo”. Daniele disse, enquanto saía frustrada.

“Mas não tem fadas em Sombra!”

“Dane-se! Você sabe que é verdade! E eu sei que ele não é o único me chamando assim. A Magistrada Lady Draconnasti também já se referiu a mim como Guria-Fada. Acho melhor reavaliar as regras desse universo, chefinho, ou algo dito inexistente pode acabar surgindo e derrubando sua preciosa torre”. Ela finalmente saiu, após plantar a semente da dúvida na mente de seu criador. Ela estava correta, o poder de outros habitantes poderia acabar invadindo sua torre e afetando Daniele. Ela nunca se tornaria uma fada, mas o que ela poderia se tornar sob as influências de um arauto da guerra e de uma adoradora de drows e dragões?

As divagações de Gehenna não duraram muito, quando foi novamente interrompido por alguém que adentrara seu escritório, caminhando em sua direção. Era um homem jovem, com roupas comuns de camponês. Parecia bastante familiar, mas não conseguia se lembrar de quem era. Talvez algum figurante de um de seus contos ou um personagem de algum outro habitante de Contonópolis.

“Olá, chefe. Lembra de mim?”

“Hã... Sinceramente, não”.

“Não? Poxa... Isso quer dizer que não tenho chance de ganhar um conto-solo, né?”

“Definitivamente, não”.

“Ah, droga. Então terei de tomar à força”. Ele disse, quando estava perto o suficiente e, de repente, sua boca se alargou, abocanhando o rosto de Gehenna, que começou a se debater e golpear seu agressor, enquanto sentia sua mente se esvaziando, tendo seus pensamentos e criatividade sugados pela criatura. Infelizmente, seus golpes nada faziam, pois a coisa parecia ser feita de algum tipo de gosma. Por um momento, se lembrou de quem era a face que o monstro usara para se aproximar. Um personagem figurante do conto-solo de Roxane a quem dera o nome de Ronaldo.

POW

A explosão reverberou pelo aposento, quando Afonso surgiu pela porta, empunhando seu enorme e belíssimo revólver prateado, com entalhes e detalhes dourados, e vestindo seu casaco marrom que tremulava com a brisa do corredor. Gehenna não o viu, pois ficou paralisado por um momento, após ver o disparo do caçador passar sobre seu rosto, quase explodindo sua cabeça.

Já a criatura, nada sofrera, pois abandonara a forma humanóide, parecendo uma massa disforme de carne gosmenta, com olhos e bocas surgindo e desaparecendo em sua extensão. Pelo menos, quando sua cabeça se desfizera, para evitar o projétil, teve de interromper sua alimentação no ponto crucial, quando Gehenna teria sua alma devorada pelo monstro, que agora se voltava para a porta. Quando falou, com suas inúmeras bocas, as vozes ecoaram em uma cacofonia terrivelmente alienígena, enquanto o som soou como se estivessem arranhando por dentro o crânio dos ouvintes. “Não podes me vencer, caçador! És apenas matéria de sonhos! Vou te devorar como um aperitivo!”

“Chefe!” Afonso gritou em desespero, clamando por ajuda, enquanto disparou uma segunda vez, fazendo a massa gosmenta se contorcer, evitando o disparo, sem frear seu avanço. Suas bocas salivavam, enquanto chegavam mais perto do caçador, que suava frio, fazendo mira de forma que seus disparos não atingissem Gehenna. Um novo tiro, mais uma vez evitado pela criatura, que cobria a distância rapidamente.

“Sou eu... que mando nessa porra aqui... E eu digo... que o Afonso PODE te vencer!” Gehenna disse, exausto, gastando suas últimas forças para imbuir seu personagem favorito com poder para vencer a criatura, que já se preparava para abocanhar o caçador, quando um novo disparo foi feito, atingindo-a em cheio e abrindo-lhe um enorme buraco sangrento, fazendo-a se contorcer no chão. Afonso mirou mais uma vez e disparou pouco antes de ver a criatura saltar rapidamente pela janela do escritório, evitando ser destruída.

“Chefe, você está bem?!” Afonso perguntou afoito, alcançando Gehenna, que jazia no chão, sem forças.

“Primeiramente... se você me beijar... juro que te mato... A criatura me roubou... criatividade... não vitalidade”. Disse com dificuldades, o jovem escritor, enquanto várias pessoas se aglomeravam na porta procurando saber o que havia acontecido, algumas até adentrando no escritório, saltando a mancha de sangue deixada pela criatura.

“Gastei minhas últimas forças... sincronizando sua arma com a criatura... ela usará meu poder para se proteger... de outras coisas, mas... esta arma já a feriu uma vez e... ela não poderá se defender disso... Avise os Magistrados... Estamos em perigo...” Gehenna disse, pouco antes de perder a consciência e adentrar em um sono profundo que seria vazio e sem sonhos, devido ao ataque da criatura. Suas idéias foram todas roubadas.

“Eu sou médico, vou cuidar dele, mas preciso de alguém para levar minha arma e o recado aos Magistrados”. Afonso disse, pegando seu criador nos braços.

“Eu faço isso”. Daniele disse, com um brilho no olhar.

“Seria melhor que fosse outra pessoa, Daniele. Talvez Roxane”. Afonso sugeriu.

“Claro! Mandem a Roxane, afinal de contas, ela é melhor em tudo e todo mundo a adora. Mas lembrem-se que, se formos atacados novamente, eu não conheço fórmulas místicas para conjurar fogo”.

“Ela tem razão. Precisamos proteger a torre”. Athos disse, pegando seu anel no bolso de Gehenna e colocando-o no dedo novamente.

“Certo. Daniele, procure os Magistrados. Mestre Gehenna foi atacado por uma criatura que se alimenta de criatividade. Entregue a arma e diga que isto pode feri-la. Ela tem apenas uma bala, então, têm que tomar cuidado. Depois volte imediatamente. Você corre perigo lá fora” Afonso disse, saindo do escritório, enquanto as pessoas, que se aglomeravam no corredor, lhe davam passagem.

“Tome cuidado, Daniele”. Athos disse, após acompanha-la até a porta da enorme torre negra e inacabada onde morava Gehenna. Quando a ruiva se distanciou, as trevas o envolveram, escurecendo todo o ambiente já noturno daquele lugar. A Torre Sombria tinha de ser protegida...

Daniele se distanciou da torre, atravessando as brumas noturnas e chegando a uma cidadela cheia de casas e pessoas, que caminhavam sobre um céu claro, porém, nublado. Caminhou por algumas ruas, tentando despistar possíveis perseguidores e depois, rumou em direção a um bosque com ares de floresta, na periferia de Contonópolis. Se Gehenna não queria lhe dar um conto-solo, faria sua própria história e não conseguia pensar em companheiro melhor que aquele que lhe deu a alcunha de ‘Fada’: o Lobo Branco.

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“Tem certeza que é uma boa? Justo agora, que seu conto-solo pode sair?” Uma bela mulher perguntou, enquanto empurrava, pelos corredores da torre, uma cadeira de rodas, onde estava um homem negro alto e forte, com a cabeça raspada e estranhas tatuagens tribais pelo corpo.

“Gehenna serviu de jantar para um ser que se alimenta de criatividade. Depois disso, tenho certeza que meu conto não sairá tão cedo. E nem ao menos é certeza que voltarei a andar, nele. Lá fora, tem uma coisa que absorve criatividade, Márcia. Em Contonópolis, criatividade é poder, puro e irrestrito. Acredito que seja nossa melhor chance de tomarmos as rédeas de nosso destino”. O homem disse, com sua poderosa voz de trovão, sonhando com sua restauração e a reconquista de seu nome e cargo: Ceifador, O Avatar dos Sete Pecados.
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Mensagempor Elara em 14 Nov 2007, 17:05

Muito bom.

Lembra-me os Colapsos em edições anteriores.

Pena que eu estive inativa e não pude me inscrever.

Chero!
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Mensagempor Gehenna em 14 Nov 2007, 20:06

Elara escreveu:Lembra-me os Colapsos em edições anteriores.

O.O
Não diga isso, milady!
Esse nome é agourento. :bwaha:
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Mensagempor Lady Draconnasti em 14 Nov 2007, 21:25

Eu senti um cheiro de HdT ai...

XD

Vamos ver como a obra anda.
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Mensagempor Lobo_Branco em 17 Nov 2007, 19:53

Muito boa introdução!!! A garota-Fada ganhando destaque!!! :victory:

hahaha

Muito bom.

Lembra-me os Colapsos em edições anteriores.

Pena que eu estive inativa e não pude me inscrever.

Chero!


O.O
Não diga isso, milady!
Esse nome é agourento. :bwaha:



Incrível não, mas nomes de mau agouro podem ser substituídos..haaha

Chefe, eu tinha dito que 9 era ideal...haha

Logo mais postarei minha parte. Está em fase de revisão e diminuição. Meus dedos não queriam parar. :bwaha:

Abraços!
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Mensagempor Ermel em 18 Nov 2007, 19:55

Ficou divertidissimo o primeiro capitulo!
Mal posso esperar pela minha vez. Mas infelizmente, realmente segue os padroes do Conton-dito-cujo (lol?) e HdT, mas acho que é isso que faz desses contos tão divertidos.
"And the question is
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Mensagempor Malkavengrel em 19 Nov 2007, 11:04

Bom vim fazer meu comentario formal.
Inicialmente, medo. :twisted:
Secundariamente, explicando o meu medo, como que vou fazer para manter o nivel disso, terei que me superar.
Terceariamente, Lobo Se você falou que o seu está grande... bem eu terei que passar umas duas horas para ler?
Por fim, O Dito-Cujo é o mesmo que me causa calafrios?

MAs a sua parte está ótima, como falei por msn.

Bom, vou nessa, desculpa a demora
Abraço.
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Mensagempor Lobo_Branco em 19 Nov 2007, 16:48

O dito cujo é o "Colapso", ñ o outro que vc e Lady não dizem o nome nem sobre tortura.

Bem, ñ acredito que passe nem um quarto disso. rsrs

Tá no tamanho normal de meus contos... o que pode ser classificado como grande, ou não..hahahaha


Abraços!
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Mensagempor Lobo_Branco em 21 Nov 2007, 11:42

Bem, como chegou minha vez já, e estou sem tempo por conta das ultimas semanas de aula, aqui vai minha parte. Abraços!!!


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Guerra dos Sonhos – Parte II (Lobo_Branco )

A Fada, os Nobres e o Lobo.



Antes de cair a massa disforme tinha mudado mais uma vez. Enquanto vinha de encontro ao chão, voltava a ter membros e cabeça bem definidos.

Pousou suavemente, já revelando uma constituição diferente daquela que mostrou em suas aparições anteriores. Trajava um, sobretudo negro – um tanto justo ao tronco e folgado após a cintura – com ombreiras metálicas, sua calça, lembrava as calças de um bucaneiro, com um grosso pedaço de pano amarrado a cintura, tomando parte do abdômen – toda sua indumentária era negra, deixando sua pele pálida com uma aparência mais branca.

Cabelos longos caiam por sobre seus ombros, com alguns “dreads” e apetrechos que estariam na moda nos mares caribenhos do séc. XVII-XVIII, assim como uma bandana, também negra, segurando seus cabelos.

Pensou seriamente em ter um tapa-olho, porém, isso lhe prejudicaria a visão.

Preso a sua cintura estava um poderoso gancho de prata com escrituras demoníacas, e do lado uma pequena bolsa com um desenho desbotado de um morcego.

Encarou por alguns instantes sua nova e poderosa forma, apesar dela apresentar um furo, causado pela bala. Aquilo iria demorar a cicatrizar, mas contara as balas, eles agora teriam apenas mais uma.

Repentinamente olhou para o lado, vendo um pequeno gato negro de olhos verdes lhe encarando. Sorriu, abaixando junto ao gato.

- Tenho uma missão a você, minha pequena criatura. Vigio-os. – disse com sua voz tenebrosa, que ressoava na alma da vitima – Mantenha-me atento aos planos deles. Sei que como todo herói, será formado um grupo, que os magistrados irão ser avisados.

- Sim, Mestre – disse o gato com sua voz esganiçada – Loki, será útil, será sim!

A criatura sorriu, mostrando seus caninos, enquanto via o diabrete disfarçado voltar para a Torre.

- Preciso de generais, e de um exército. – disse o monstro, enquanto caminhava em direção a cidade, sumindo em meio às sombras da Noite Eterna – Logo conhecerão a dor e o tormento, Senhores de Contonópolis, logo.

(...)



A jovem andou por meio as ruas e vielas da gigantesca Contonópolis. A cada passo, parecia estar em um local diferente, em um mundo diferente.

Via cavaleiros medievais e robôs gigantescos convivendo como se fosse à coisa mais comum. Padres compravam coisas em tendas de demônios, e elfos andavam lado a lado de seus parentes escuros, apesar de toda a inimizade, discutindo sobre a nobreza de carregarem picaretas ou sabres.

Os locais conseguiam ser realisticamente sujos, porém, com um ar fantasticamente limpo.

Tudo parecia um grande amalgama de culturas e desejos. Tudo exalava perigo, fascinação e a possibilidade infinita das mais incríveis aventuras já imaginadas.

Apesar de conhecer seu destino, pouco sabia como chegar até ele.

Ouvia as vozes de outros criadores, vindo de seus lares infinitos, rodeados de casas e prédios, árvores e morros.

Aquilo tudo vibrava como se fosse um ser vivo, em eterna evolução.

Deslumbrou a Torre da Radio, assim como pode ver cartazes com dizeres dos “Penas&Espadas”, e uma foto perfeita da gigantesca arena da cidade.

Todas aquelas informações eram de mais para alguém acostumado a estaticidade de uma realidade próximo do que muitos classificariam como “fisicamente possível”, da qual a bela jovem tinha saído.

Apesar de Daniele ter se informado, aprendido um pouco sobre o mundo que englobava o mundo dela, ela não estava de todo preparada para isso.

Deveria ter pedido um mapa antes de sair. Talvez devesse voltar, porém, depois de tantas voltas, não tinha certeza se conseguiria fazê-lo.

Respirou fundo, apertando a pequena mochila, onde carregava a “Mão de Deus”. Pelo menos nada ali, teoricamente, poderia feri-la.

- Vamos Dani, isso é apenas o inicio de sua jornada. Levante-se e tome seu rumo garota, não vai ser uma cidade bizarra que irá te derrotar, não é mesmo? – disse de si para si, com uma confiança não antes existente em sua voz.

- Irá até o “bosque com ares de floresta”, encontrará com Lobo Branco, o avisará que o chefinho ta maus, ganharás dele seus poderes plenos de fada, e junto com ele, irá avisar os magistrados e caçar aquela maldita bizarrice. – disse sorrindo, se erguendo, encarando os muitos transeuntes que por ali passavam, a ignorando ou não – E então, o “Senhor” Gehenna – havia um forte tom de sarcasmo em sua voz nesse ponto - me pedirá para ser sua personagem principal, e eu direi um belo “Não””. Assim ele aprende a ser um pouco mais humilde e ouvir quem sabe das coisas.

Com passos confiantes, retornou sua jornada. Estranhamente viu as ruas se tornarem mais desertas, e a voz dos criadores se tornavam sussurros.

De alguma forma, a cidade estava sendo abandonada, depois de meses tendo suas ruas movimentadas como no passado glorioso.

A jovem, de olhos de cores diferentes, creditou isso apenas à chuva que se preparava para tomar aquelas imediações. Nuvens pesadas tomavam os céus sobre Contonópolis, com relâmpagos vermelhos e trovões surdos.

- Vejas Fangral, as criaturas somem com o prenuncio da tempestade. – disse uma voz infantil, porém autoritária – Juro pelos Deuses, se teu atraso me privar da minha flor, irás se arrepender!

- Não compreendo este teu interesse por flores. – soou a glutônica voz. – Deverias ser mais paciente, pequena, logo será primavera, mais uma vez, e terás tantas flores que teus olhos se cansaram das mesmas.

A jovem voltou-se para os donos das vozes, vendo-os atravessar em meio a barracas do bazar, sendo desmontas. Uma jovem de em média oito anos de idade, com um belo, porém rústico, vestido azul, com longos cabelos ruivos, presos a um belo coque de tranças nas laterais da cabeça. Seus olhos azuis brilhavam autoritários, procurando em meio às barracas ainda montadas.

Poucos passos atrás dela, estava um ser de quase três metros de altura. Senhor de um físico musculoso, trajava um colete de lã, um grosso e largo cinturão de couro e calças também de couro. Suas botas de pelo de lobo, e a faca presa à bainha, juntamente com o longo cabelo preso a uma trança e a longa barba – ambos loiros, beirando o branco – lhe davam o ar de bárbaro nórdico.

Tatuagens azuis se destacavam na pele braça, quase tão alva quanto à neve.

Daniele já tinha ouvido falar deles, apesar de não muito do gigante. Tinha uma certeza, contudo, a jovem era criação do Lobo.

A conhecia de um pequeno cartaz que seu chefe tinha, com dizeres em letras medievais: “Fã Clube Brunnhild – “És um ser vil, papai”.

Eles poderiam lhe guiar, e o melhor, podiam fazê-lo antes que a chuva começasse.

- Hei, com licença – disse um tanto tímida, Daniele, enquanto se aproximava dos “irmãos”.

Brunnhild parou, encarando a jovem, fazendo Fangral parara entre ambas. Por um breve instante Daniele se arrependeu de ir pedir informações a eles, o gigante tinha um olhar que metia medo em qualquer um.

- Err, bem... – gaguejou a garota-Fada, procurando pelas palavras mais apropriadas -... Sabe, é que vocês...

- Digas o que desejas mulher. – disse o gigante, vendo a impaciência da irmã, ao olhar as barracas sendo desarmadas e os lojistas sumindo.

Daniele pigarreou, olhando para o chão. Encarou por um breve momento a jovem, sorrindo.

- Não pude deixar de ouvir vocês dizendo que querem uma flor. – disse encarando o gigante, se esforçando para suprir aquele medo incoerente.

- Minha irmã anseia por uma. Sabes onde posso encontrá-las nestas terras amaldiçoadas? – respondeu Fangral, fitando a jovem.

Daniele balançou a cabeça positivamente.

- Então digas! – gritou Brunnhild, sem conseguir esconder seu entusiasmo.

- Direi. – disse Daniele pausadamente – Porém, há um preço. Devem me dizer por onde devo ir para chegar ao bosque com ares de floresta, onde reside o Lobo Branco.

Fangral coçou a barba tranquilamente. Sorriu, aproximando seu rosto da jovem.

- Aquelas paragens não são destinadas a mulheres. – gracejou o gigante – Mesmo àquelas que se assemelham com os seres da Corte dos filhos de Eirinn.

- Cala-te, néscio! – gritou à jovenzinha, tomando a frente do irmão. – Sigas reto, até o chafariz com a forma de um grupo de homens estranhos. De lá, siga ladeira abaixo, até esse amotinado de casas darem lugar a pequenas e isoladas moradias. Poderás avistar de lá a orla ocidental do bosque.

Daniele sorriu, decorando cada detalhe.

- Bem, sua flor, poderá ser encontrada logo após aquela esquina. Há uma bela praça lá, com um bom punhado delas. – sorriu para a jovem.

Brunnhild sorriu de volta, girando nos calcanhares. Logo sumia virando a esquina. Fangral parou observando a garota com ares feéricos.

- O que te levas até o local de repouso do Senhor das Tempestades e Guia dos Mortos? – disse, de forma sinistra o bárbaro.

- Bem, é que...

- Vamos Fangral! As flores estão logo ali, e sabes que tanto nossa senhora, quanto o deus Lobo, mandou que tu fiques junto de minha pessoa! – gritou Brunnhild, interrompendo Daniele de responder.

Com uma leve vênia, Fangral se despediu, sumindo ao virar a esquina.

- Lembre-me de dar as mais sinceras condolências ao teu futuro marido e senhor, minha jovem. – pode-se ouvir a voz jocosa do gigante ressoar pelas ruas vazias.

Daniele observou por um momento ambos se afastarem, respirando fundo, para retornar sua viagem. Via os céus ficarem mais escuros, quase como se a noite se alastrasse por todo aquele local.

Com passos rápidos, chegou até o belo chafariz, que tinha a estatua de quatro homens com pose de heróis, na plaqueta havia os dizeres: “Uma homenagem do rei Dahaketada aos Heróis do Tópico, por se arriscarem e terem salvado minhas bolas!”.

- Que tipo de gente estranha se arrisca para salvar as bolas dos outros? – sussurrou Daniele, em meio a um sorriso irônico.

Olhou ao redor, encontrando a ladeira que a pequena tinha falado. Algo extenso de se perder de vista. Respirou fundo, começando sua longa descida.

Via os prédios darem lugar a pequenas casas de madeira com aparência rústica, e as vias asfaltadas, logo davam lugar a ruas de paralelepípedos, em seguida sendo trocados por um acidentado caminho de barro e areia, cortando um belo e verdejante campo.

As árvores começavam a aparecer no caminho e ela já podia ver os limites do bosque com ares de floresta.

Pode ouvir um medonho uivo cortar o silêncio, algo que assustaria qualquer outro a encheu de animo.

Com passos rápidos, adentrou o bosque, vendo as árvores vivas e verdejantes, aos poucos dando lugar a escuras, retorcidas e macabras árvores. A temperatura ia caindo aos poucos, e ela podia ver alguns pontos salpicados de neve.

- Por que ninguém me disse que aqui nevava?! – perguntou irritada – Se soubesse, não teria vindo com roupas tão diminutas!

Continuou seu caminho pela trilha, que ia sumindo aos poucos. Galhos se projetavam sobre ela, como garras, e os relâmpagos vermelhos, faziam com que as sombras parecessem vivas e em movimento.

Dani abraçou a mochila, a deixando aberta, pronta para caso fosse ameaçada. Viu um vulto atravessar a trilha alguns metros à frente.

Podia jurar que via outros vultos passando pelas árvores laterais. Olhou em volta, não vendo nada preciso. Com passos incertos, avançou alguns metros, podendo ver agachado na trilha. Parecia que algo estava se alimentado ali.

Estagnou ao ouvir o barulho de carne sendo rasgada e o respirar ofegante da criatura que se alimentava.

Recuou alguns passos, quando pode ouvir a criatura farejar o ar, e erguer-se, revelando um ser maltrapilho, com roupas sujas, lembrando uma mortalha ao redor de seu corpo de aparência doentia.

Com olhos vazios olhou a jovem, revelando um sorriso diabólico em seus lábios espectrais.

Com passos largos avançou contra a jovem, que assustada tentava sacar sua arma contra a criatura.

Lembrou das palavras de Afonso, o que a levou a soltar um palavrão e decidir correr para longe da criatura que já estava próxima dela.

Abandonou a trilha, correndo por entre as árvores torcidas. Via a neve tomar mais e mais o local, dificultando seu avanço.

Via agora vários outros espectros andando por entre a mata, alguns belos, outros horripilantes, se desfazendo, como se fossem fantasmas de leprosos. Seus olhos vazios de propósito caiam sobre ela, e sorrisos abriam em seus rostos.

Avançavam aos poucos e tímidos, porém, depois de formado um pequeno grupo, avançavam ávidos contra a jovem.

- Criatividade! Propositooo! – gritavam com suas vozes sussurrantes e macabras.

Daniele continuou correndo tentando se afastar dos espectros, quando pode ouvir um estrondo, e a cabeça de um dos espectros explodir.

O bando parou indeciso. Outros dois estrondos ressoaram pela mata, e mais duas aberrações incompletas iam ao chão.

Eles se encaravam, olhando. Farejando. Mais um tentou avançar contra a jovem assustada, sendo atingido em meio aos olhos.

Aos poucos eles começaram a dispersar, porém, não se afastavam, ficando escondidos entre as árvores, sob ou sobre elas, como abutres esfomeados.

Daniele olhava em volta, procurando a ameaça que teria que enfrentar. Seu corpo tremia sem ter a certeza se pelo medo ou pelo frio gritante.

- O que faz aqui garota? – disse uma voz severa, de meio as árvores.

A jovem se voltou em direção à voz, vendo um homem de cabelos ruivos e longa barba aparecer. Seus olhos azuis acinzentados amotivos, atentos ao movimento dos espectros.

Trajava uma jaqueta com a bandeira da Irlanda bordada no braço, uma calça jeans e coturnos. Tinha nas mãos um rifle de caça, que ainda se revelava com o cano fumegante.

- E-e-e-eu estou atrás do Lobo Branco. – disse Daniele, assustada, encarando seu salvador se aproximar.

- Você é a jovem que ele sentiu o cheiro então. Bem venha comigo. – disse de forma apática – Não demorará a esses fantasmas perceberem que eu não tenho balas para todos.

O ruivo mostrou o caminho a jovem, que tomava a frente, enquanto ele ia logo atrás, atento ao movimento dos espectros.

- Fantasmas, é? – disse Daniela, animada, por se encontrar com essas criaturas, e melhor que Roxane, foram varias. – Ninguém me disse que tinham fantasmas aqui.

- Não são bem fantasmas. Seriam os espectros das idéias não concluídas de Contonópolis. Geralmente são inofensivos, sempre procurando por propósitos. Ultimamente andam mais selvagens, atacando, para devorar a criatividade das criações, que por aqui se arriscam.

Daniele olhou em volta, vendo alguns encararem os andarilhos, ávidos para consumi-los.

Via construções se mesclarem com as árvores, ruínas de reinos e cidades. Viu até mesmo um navio tombado próximo a uma nave espacial, comum nos filmes de Guerra nas Estrelas.

- Por que ele mesmo não veio? – disse Daniele, querendo quebrar o silêncio do bosque.

- Estava fazendo outras coisas, coisas essas que eu não sei o que são. – disse de forma seca, o ruivo – Então me pediu, para que eu fosse verificar se ele estava certo.

Logo se podia ouvir, ecoando pela mata o som de uma gaita de foles e harpa, como se reproduzissem musicas celtas de outrora.

A musica “New Age”, logo deu lugar à voz de um conhecido Profeta, Maluco Beleza que Nasceu há Dez Mil anos Atrás – aquele que sempre é pedido para ser lembrado em qualquer show de qualquer tipo musical.

Passaram por duas longas estacas, com ossos e vísceras pendurados, com cabeças de lobos enfiadas na ponta, como um marco demoníaco.

- O que é isso? – disse a fada, olhando assustada a bizarrice próxima.

- Uma barreira de espíritos. Geralmente impede alguns espectros de avançar, além d’aqueles que existem próximos de mais do Criador. – disse Sean, indiferente.

Logo a música dava lugar mais uma vez a sonoplastia céltica.

Uma grande clareira se abriu, frente a eles, revelando algumas estatuas de deuses antigos e modernos, profetas e homens santos. Um freixo e um carvalho se estendiam formando um arco e sombra sobre boa parte do local.

Um leve córrego corria por ali, e instantes com livros antigos se encontravam espalhadas. Alguns estavam soltos na relva fresca, livros sobre povos antigos, sobre sistemas biológicos, animais e flores.

Sentado sobre um belo tapete com um gênio e um dragão bordados, tinha um belo árabe com imagem translúcida, fumando. Próximo a ele, soberanos com super-poderes discutiam o destino do mundo sobre a influência de uma guerra-civil.

Dois franceses – um velho investigador e um jovem capitão – jogavam dados, enquanto dois “jedis” meditavam.

- Quem são esses? – perguntou Daniele, fascinada.

- Os “fantasmas” pessoais dele. – disse Sean, encarando os presentes com certo ar de superioridade.

Pouco a frente podia-se ver, uma rede, e o som, que só sabia tocar duas coisas. Manuscritos estavam espalhados pó ali, assim como uma variedade de caules, flores e brotos, inteiros ou desfacelados.

Deitado sob a sombra das árvores, lendo um livro antigo de paginas amareladas, estava o lobo de pelugem albina.

Preguiçosamente, ele voltou a cabeça em direção aos recém-chegados, levantando em um aparente esforço. Bocejou, balançando o pelo, como se quisesse acordar.

Daniele encarava seu anfitrião, meio admirada, meio assustada. Viu ele e Sean se abraçarem, como velhos e queridos amigos.

- Acho que a nosssa disscussão a resspeito de seu novo final irá ter que esperar. – disse sorrindo o Lobo.

- Sem problemas. – disse Sean, guardando a arma e pegando seu cachimbo.

- Olá garota-Fada, a muito essperava ver você caminhando sozinha. O que lhe tráss até mim? – disse o albino canídeo, sentando próximo a jovem, a encarando com seus olhos marotos. – Esstá tudo bem com meu querido Gehenna-que-já-foi-Sombra?

- Também queria muito andar sozinha, e a muito queria te conhecer. – disse a jovem com certo brilho nos olhos, sentindo um comichão estranho ao ouvir as palavras do Lobo a definirem como garota-Fada. – Agora quanto ao chefinho, bem, ele está maus. Uma criatura devoradora de criatividade, o atacou, e conseguiu roubar-lhe quase tudo.

- Fui escolhida para avisar os magistrados, porém, pensei, se eu vou fazer algo tão grandioso, o farei com o Lobo Branco. Afinal ele me dá valor e pode me mostrar mais sobre mim do que qualquer um pode mostrar. – sorriu a jovem.

Lobo encarou a jovem, “sorrindo” de volta.

- Outra ameaça sobre Contonópoliss? – disse com certa animação – Meu deuss adoro essses coletivos. Pena que não lembro muito do evento-que-não-pode-sser-nomeado. Bem, amor meu, não possso revelar muito sobre você. Você é de outro, por mais que eu te ame. – disse com um ar brincalhão.

- Mass, pelo o que me foi revelado de você, acredite você terá uma participação esspecial no futuro, pelo menos nissso eu acredito. Esssa ameaça que deve esstar causando a selvageria dos meus vizinhos essspectrais. – disse, tentando não falar muito sobre a jovem.

Daniele mostrou certa decepção ao ouvir a sentença do Lobo, porém, sentia certa influência dele nela, alguma mudança, apenas não sabia dizer o que seria.

- Bem, como te foi dado a misssão de avisar a chefaiada, você continuará com ela. – disse, caminhando até um velho baú, do qual começou a “chafurdar”, retirando alguns objetos, como uma puída garrafa térmica, um pequeno tambor, folhas secas e alguns cogumelos, além de revistas clássicas de um herói quiróptero. – Eu sabia que fiz bem em guardar um pouco do chá do Capitão Coração de Boi. Bem, eu irei desspertar Gehenna, ele será de todo importante para o que essta por vim – afinal ele tem um forte controle sobre feitos heróicos, mesmo sendo um demonólogo.

- Não iremos juntos? – disse um tanto receosa a jovem.

Lobo apenas balançou a cabeça negativamente, enquanto com dificuldade enfiava tudo em uma pequena mochila tricotada.

- Você já tem sua função, amor meu. Não irei eu a estragar os holofotes sobre você. – sorriu, piscando para a jovem – Mass, para sua proteção, terá contigo um grande e querido amigo meu, grande estrategista militar, quase um paladino.

Sean mantinha sua atenção na conversa, em meio ao fumo. Suspirou ao ouvir essas palavras.

- E pode ficar tranqüila, apesar de tudo, o irlandês ai é boa gente. – disse, passando pela jovem – Apenas não mencione coisas de origem britânica com ele. – sussurrou

- Chefe, sabe onde conseguir suas armass por aqui. – disse o canídeo albino se dirigindo a Sean, enquanto se afastava.

- Mas Lobo, não pode nos deixar assim. Somos apenas pessoas comuns, contra um monstro terrível! E a arma de Afonso só tem uma bala! – disse nervosamente a ruiva, indo atrás de Lobo.

Ele parou, olhando para seus olhos bicolores, pensando nos grandes heróis que também são “apenas pessoas comuns”.

- Podia ao menos nos dar algum item de poder. – disse em tom de suplica – Como o anel de Athos.

- Anel?! – ganiu o Lobo – Não, se fossse nega-braceletes ou pulsseiras quânticas, mas nada de anel. Bem, para proteção, na minha mesa tem um patuh’a, irá te proteger contra influênciass malignas. Sean, no baú tem um martelo forjado pelo anão Mimir a partir dos osssos de Ymir nas chamas de Surtur. Um dos mais poderosos malhos da existência. Leve-o com você, no fim das contas você até o sabe usar direitinho.

- Um martelo escandinavo? – reclamou Sean, mexendo no baú, retirando armamento militar leve de lá.

- Dê um tempo Sean, esstou enferrujado no campo céltico das coisass. – sorriu o Lobo, dando as costas – Mass creia, ele carrega o sangue e dor de muitoss anglo-normando-saxões, a.k.a ingleses!

Sean o puxou em meio a tralhas, com um sorriso nos lábios. Com um tom prateado e runas esculpidas, era um belo martelo de guerra.

- Uma ultima coisa, caso algo aconteça com a garota-Fada, diga que acredita e bata palmas Sean! – uivou Lobo, enquanto sumia em meio às árvores torcidas e escuras.

Daniele o observou partir, e viu o ruivo se preparando para partirem. Suspirou, mas no fim percebeu que ela era o mais próximo de protagonista até então.

(...)



- Mestre Sombra, o que fazemos aqui? – disse a bela Márcia, acompanhando aquele que já foi Ronaldo, pelo frio e pouco amistoso corredor de um castelo medieval.

- Já tenho meu assassino pessoal, com conhecimentos de magia negra. Agora terei meu general, que apesar de criatura, pode se confundir com criador. – sorriu o ser sombrio, se dirigindo ao portão duplo de onde sentia a presença do templário.

- E porque o Ceifador não veio conosco? – indagou mais uma vez a mulher, não se mostrando muito a vontade. Claramente ela preferia a segurança do assassino ao entrar nos dominós de outro.

- Ele está preparando o ritual que me dará poder sobre aqueles que se parecem comigo, os espectros. – sorriu diabolicamente, fechando sua mão sobre o batente pesado da porta.

- Mestre, tem certeza que ele é uma boa escolha? – disse temerária, a bela mulher. – Além do que, deve ser um velho invalido, nos dias de hoje.

Sombra parou, encarando a grossa porta de madeira.

- Contra quem podemos vir a enfrentar, ele é a melhor escolha. Não se preocupe com a idade, ele estará como é lembrado, como os outros o vêem. – sorriu, podendo sentir a forte presença vinda do cômodo.

Com um forte ranger a porta se abriu, deixando um forte cheiro acre de sangue, urina e fezes tomar o corredor.

Iluminado pela chama bruxelante das tochas próximas, estava um homem sentado em um trono.

Sua tez revelava certa idade – não era o homem que ganhou fama, mas também não o velho inútil de seu amargo fim -, porém seus olhos traziam a mesma sagacidade e brilho orgulhoso de sempre.

Trajava a túnica dos Cavaleiros Pobres do Templo de Salomão sobre uma vistosa cota de malha espanhola.

- Márcia, lhe apresento, o mais odiado homem dessas paragens. E devo dizer um homem temido por aquele que dizem ser um “Arauto da Guerra”. – sorriu o monstro vendo os olhos calculistas lhe encararem. – O maior “f.d.p. entre os f.d.ps.” quer por aqui já pisou...

O Templar direcionou seus olhos assim como um sorriso “puro” a mulher.

Ergueu-se imponente, sem apresentar a dureza em seus membros, que Márcia jurava encontrar.

- Teodoro de Funssac, um dos maiores Templários de sua época. – conclui Sombra, sorrindo diabolicamente, enquanto Teodoro fazia uma pequena vênia a eles, porém, sem tirar os olhos da mulher.

- Encantado minha senhora. – respondeu o cavaleiro, com uma voz encantadora – E meu senhor, pelo preço combinado, tu terás teu general, e toda sorte de ensinamentos da mais poderosa ordem de cavalaria que já andou por esse mundo, cristão ou não.
Editado pela última vez por Lobo_Branco em 21 Nov 2007, 13:14, em um total de 1 vez.
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Mensagempor Gehenna em 21 Nov 2007, 12:43

Muito bom, Lobo!

“Fã Clube Brunnhild – “És um ser vil, papai”.

:rolando:
Kkkkkkkkkkkk

Excelente! Grande, pq vc é um fanfarrão que escreve demais ( :roll: ), mas com a boa qualidade de sempre, dá pra ler tudo tranquilo e ainda achar curto.

O devorador ter roubado meu nome, também foi ótima. "Nomes têm poder" é uma verdade incontestável. E o visual pirata emo (Sephirot + Jack Sparrow) tambem ficou show. :bwaha:

Eis que o exército começa a se formar e Contonópolis ainda está indefesa. Os Magistrados serão avisados à tempo? Quantos mais se unirão ao Capitão Sombra, o terrível Devorador de Criatividade?

Caberá a DarkLady responder algumas destas perguntas.
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Mensagempor Malkavengrel em 21 Nov 2007, 23:30

Bom conhecendo seus contos lobo. esse capitulo foi digamos assim... Normal... em tamanho.

Muito bom.
A ideia dos espectros muito boa.
Por algum motivo isso me, o martelo me lembro Cronicas Saxonicas.

Eu estou tentando acabar com os espectros meus por acaso. ^^'

Parabens pela sua parte.
Um Abraço.
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Mensagempor Elara em 22 Nov 2007, 16:24

Enorme, Lobo! (e eu não quero dizer que vc seja um lobo enorme. Me refiro ao texto. :bwaha: )

Bem, vc não tem jeito mesmo, então, meus parabéns!

Entretanto, precisa de uma revisadinha. Notei umas crases e outras coisitas meio perdidas no texto.

^^

No mais, "esclareceu" bastante.

Chero!
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Mensagempor Mai em 23 Nov 2007, 11:15

Ai, ai, senti que vou ter trabalho... -_-''''''''''

Vou ter de me esforçar pra manter o nível! \o/

*Começando a pensar no capítulo*
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Mensagempor Lady Draconnasti em 24 Nov 2007, 23:04

KIBA, SEU LOUCO!!! o.O

Eu vou ter que imprimir 11 páginas pra ler isso!
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Mensagempor Lobo_Branco em 25 Nov 2007, 02:43

Gente, juro que tentei escreve pouco, mas estava na ânsia de mostrar td que foi mostrado. E olhe q eu acabei tirando umas 2-3 paginas a mais. Na próxima, me esforçarei bem mais para escrever bem menos. Palavra! :victory:

Gehenna-que-já-foi-Sombra, claro que palavra tem poder, é uma das verdades do mundo. os Egipcios, Celtas, Nordicos, Helenicos, td mundo sabia disso. Ronaldo tbm. Ele não roubou apenas sua criatividade naquele momento intimo de vocês dois. Mas nada que uma macumbinha, chá, ervas e cogumelos não amenize!!! :bwaha:

Malka, como eu disse, ele não estava tão grande para meus padrões.Infelizmente meus padrões são um tanto distorcidos..hahaha
Crônicas é um livro de Crowell que eu tenho q ler, nem q eu tenha que sacrificar uma costela para tal. O martelo foi referência a outra obra, do mesmo patamar que as pulseiras quanticas e o nega-braceletes.. :rolando: - td p/ contrapor o morcego e o anel...hahahahaha

No mais a mais, respiro aliviado por saber que consegui a duras penas, manter certo nível. Espero a continuação e as novas duvidas que a Dama das Trevas nos mostrará. Abraços!!!
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