Olá. Meu cliente, Lune, está cansado de repetir os mesmos argumentos. Portanto hoje serei eu, promotor Miles Edgeworth, a apresentar o caso.

O caso em si é muito simples: o réu está fabricando falsificações grosseiras da realidade, tentando convencer os jurados de que há de fato uma maneira certa de se jogar o hobby conhecido como RPG. A promotoria vai apresentar evidência conclusiva de que a defesa, francamente, não sabe do que está falando. Vamos analisar algumas frases utilizadas pela defesa.

planes escreveu:Se você criou um guerreiro corajoso e honesto não pode sair por aí correndo de qualquer luta e passando meio mundo para trás, isso é jogar mal e tem sim de ser penalizado de alguma forma
Ora meus caros, se um guerreiro corajoso e honesto sai por aí correndo de lutas e passando meio mundo pra trás, bem, ele não era tão corajoso e honesto assim, não é mesmo? Por acaso o ponto da defesa é que se o jogador não obedecer fielmente o que declarou no começo do jogo, sem jamais alterar a personalidade do personagem, ele estaria jogando errado? Não faria mais sentido adequar a reação dos NPCs à atitude verdadeira do jogador? Em que, exatamente, o guerreiro/ladino em questão está prejudicando o jogo? Me parece um personagem bem interessante, na verdade.
vincer escreveu:Quando eu falo que há várias formas corretas de se jogar rpg, eu nunca disse que é correto jogar sem roleplay. Um mínimo dele é necessário. É inclusive a essência do jogo.
vincer escreveu:Se o roleplay não faz parte do roleplaying game, eu não sei mais o que é rpg. No jogo devemos assumir um personagem que não nós, e interpretar um mínimo o que aquele personagem faria. Discorda?
A promotira concorda, o roleplay é absolutamente a essência do RPG. Entretanto, roleplay não significa necessariamente interpretação. Certamente não significa interpretação teatral, e nesse ponto todos concordamos. Mas digo mais: é possível RPG sem interpretação alguma além do simples fato de escolher um personagem e decidir suas ações. Detalharemos esse ponto melhor mais adiante.
planes escreveu:O que não pode acontecer é o cara (...) mudar de personalidade da maneira que mais convir, ao invés de tentar resolver a dificuldade com criatividade ele mudas as regras para facilitar sua vida, isso não é algo apreciavel, não passa de uma trapaça (...)

Uma teoria risível.
Sem dúvida, violar as regras previamente combinadas do jogo se qualifica como trapaça e é uma atitude reprovável. Entretanto, o RPG não tem regras fixas. Algumas campanhas e personagens pedem por mudanças de personalidade. Contanto que todos os jogadores envolvidos concordem com as regras em questão, não se trata de trapaça, não é mesmo? E por isso mesmo, repito,
não faz sentido falar em uma maneira certa de se jogar RPG.
Permitam-me apresentar algumas das pressuposições da defesa e por que elas estão incorretas:
Ponto um: a defesa afirma que RPG pressupõe interpretação, baseada no significado da sigla.Resumo aqui o que foi dito em outro tópico: se trata de um erro de tradução, eternizado pela Dragão Brasil. A tradução "oficial" de RPG seria Jogos de Interpretação de Personagens, uma frase que pressupõe Interpretação e Personagens. A sigla em inglês, Role-Playing Games, não pressupõe nem uma coisa nem outra, já que Roleplay pode ser mais corretamente traduzido como "assumir um papel", não necessariamente no sentido teatral do termo.
Uma outra forma de apontar a falácia contida nesse argumento é voltar nossa atenção para a palavra geralmente esquecida da sigla, o Game. Jogos são o objeto de estudo de uma rica tradição acadêmica na área de estatística, e nesse campo, assim como no senso comum, a idéia de "jogo" está intimamente ligada à idéia de um "vencedor". Ora, todos sabemos que RPG geralmente não apresenta vencedores ou perdedores, não é mesmo? Se formos realmente definir o verdadeiro significado do nosso hobby a partir da etimologia das palavras que compõem sua sigla, creio que vamos descobrir que estão todos jogando errado há um bom tempo...
Ponto dois: a defesa afirma que a interpretação é a essência do RPG.Alguém já jogou Arena? Geralmente acontece quando o Mestre está atrasado, e os jogadores entediados decidem jogar seus personagens uns contra os outros para passar o tempo. Não importa se eles são companheiros de grupo que jamais teriam motivo para lutar, ou que um deles seja um paladino. A interpretação é completamente dispensável. O que importa é a diversão pura. Claro, não é o único exemplo: os primeiros RPGs davam uma ênfase muito pequena à interpretação, e muitos grupos a ignoravam por completo, como de fato ainda acontece hoje em muitas mesas ao redor do mundo.
Logo, se é possível jogar RPG sem interpretação, não podemos dizer que ela é a essência do RPG, da mesma forma que como é possível jogar RPG sem dados, não podemos dizer que os dados são a essência do RPG. A imensa maioria dos jogos de RPG atuais envolvem interpretação? Sim. Isso não significa, entretanto, que grupos que não a utilizem estejam jogando errado.
Ponto três: a defesa afirma que essas regras arbitrárias são necessárias para diferenciar o RPG de outros jogos, i.e, o "argumento Super Mario".De forma alguma, a questão depende apenas de como formular a definição. Por exemplo, considere a afirmação "RPGs sempre utilizam dados para a resolução das ações". Ela é falsa, não é mesmo? Agora considere "RPGs geralmente utilizam dados para a resolução das ações", e você tem uma frase que consegue delimitar o que é um RPG sem excluir as várias exceções à regra. Para citar um exemplo da defesa, você pode distinguir calculadoras de computadores ao dizer que geralmente calculadores lidam com problemas mais específicos e têm uma interface otimizada para números, enquanto computadores são mais versáteis e sua interface é voltada para a programação. Dessa forma, você não elimina calculadoras mais abrangentes, e nem computadores voltados para tarefas mais específicas - é bom lembrar que as calculadoras modernas fazem muito mais que os primeiros computadores...
Encerrando:

O único motivo pelo qual a defesa quer convencer o júri de que de fato há uma maneira certa de se jogar RPG é
covardia, como bem ilustra um post no começo desse tópico, dizendo que o RPG precisa se separar "desse tipo de coisa". Pessoalmente, eu nunca vou entender por que um bando de nerds como os jogadores de RPG precisam discriminar outros nerds, baseados em critérios invisíveis que eles inventam para si próprios. Com a imagem negativa que o hobby já tem, é realmente necessário se separar entre Ortodoxos e Reformistas? True Roleplayers e Wargamers?
Patético, francamente.
Encerro o meu caso.
