por Lune em 07 Mai 2008, 14:17
Eu acho uma reflexão interessante, na verdade.
Conhece o Paradoxo do Barco de Teseu? Resumidamente, a história é a seguinte: um museu grego tinha guardado a embarcação que Teseu havia utilizado em suas navegações. Mas cupins atacaram a madeira, e a metade do barco teve que ser reformada.
A pergunta é: esse barco reformado ainda é o mesmo barco que Teseu usou em suas aventuras? E se ao invés de terem trocado metade da madeira, tivessem trocado tudo?
Enfim, trata-se de uma discussão sobre identidade. Você é seu corpo, sua mente, ou os dois? Em que parte do corpo "você" fica guardado? No cérebro? Nos genes?
É interessante porque ocidentais e orientais têm visões diferentes sobre o assunto. Para nós, é um paradoxo - nossa identidade não está em lugar nenhum, mas também não existe sem o corpo. Já os orientais enxergam a questão da identidade a partir de uma referência externa - se as pessoas consideram um barco como o Barco de Teseu, então aquele é o Barco de Teseu, independentemente de Teseu ter de fato usado aquela embarcação ou não. Um exemplo claro disso está nos templos e castelos japoneses, que já foram queimados e reconstruídos dezenas de vezes, sem que ninguém pense que aquela não é a construção original.
Kojima se aproveitou bem dessa discussão no personagem do Raiden, fazendo com que o jogador acompanhe o desenvolvimento da identidade dele ao longo do jogo, explorando quanto desse processo é artificial e como é dependente das pessoas ao nosso redor. Mais tarde, ele faria o mesmo com Snake em Metal Gear AC!D.
E o final do jogo é meramente a extensão lógica do raciocínio, se aproveitando de uma das características fundamentais dos jogos: a confusão entre o jogador e o personagem. Depois de reconstruir a identidade de Raiden, Kojima se vira para o jogador e o convida a fazer o mesmo, no que talvez seja o melhor uso da quebra da quarta parede em jogos desde o zeramento de Chrono Cross.
Enfim. Eu gostei.