por Sampaio em 08 Jul 2008, 21:33
Existe uma frase que diz: "Você pode calcular, determinar e prever a órbita e direção de um planeta, mas jamais poderá determinar a rota do vôo de uma mosca."
A frase está dizendo que corpos pouco complexos ou inanimados estão sucetíveis a poucas leis, todas elas previsíveis se dado o empenho necessário, mas que os seres vivos seriam imprevisíveis. Que o vôo de uma mosca, usando o exemplo, seria impossivel de se prezer cada movimento, pra trás, pra frente, circular, etc.
TALVEZ isso não seja verdade. Então vamos trabalhar com a hipótese de que isso não seja verdade, que é como acreditam alguns empiristas radicais:
Uma corrente da área de humanas inclusive, defende que essa afirmação seja falsa. Diz que é possível sim, calcular e prever a rota exata do vôo de uma mosca, mas esse empreendimento iria tomar tantos recursos, tanto tempo, tanto investimento, que não vale o esforço. Isso pq, segundo essa linha de raciocínio, a diferença da mosca para o planeta é que a mosca está sucetível a milhões de estímulos a mais, mas que nem por isso tem respostas aleatórias, e só não conseguimos prever pq não estamos empenhados (e nem deveríamos) em observar e separar cada mini-estímulo. Ou talvez a ciência AINDA não esteja preparada para simplificar a enormidade de estímulos em uma equação mais simples que permita-nos prever.
Essa visão, como muito devem saber, é chamada de DETERMINISMO. No caso, "determinismo científico" ou "determinismo empírico". Na Psicologia, já que citamos, uma das mais populares correntes trabalha com essa visão, o Behaviorismo Radical.
Acontece que, mesmo os behavioristas radicais e qualquer pessoa determinista com experiência na área de humanas, sabe que, se a rota de vôo de uma mosca já é algo absurdamente complexo a ponto de ser possível apenas TEORICAMENTE falar na previsibilidade, imagina o comportamento humano?
Por isso, mesmo os deterministas, já aceitam que é necessário saber observar apenas as coisas mais relevantes que eliciam os comportamentos, e não tentar fazer uma previsibilidade matematicamente segura. Pq, no REAL (que infelizmente é onde a maioria de nós vivemos), não é possível.
Por isso foi importante a mudança do vetor epistemológico para as ciências humanas. Antes era necessário uma comprovação empírica para se desenvolver uma teoria em cima da observação. Ou seja, o vetor era: Experiência ----> Razão. Como eu disse, e reafirmei acima, isso ferra com todas as áreas de humanas. E, no entanto, conforme observaram, a área de humanas não é menos digna de crédito do que a de exatas. Bem da verdade, os relativismos da humanas não são maiores que o das exatas (alguem falou entropia? em caos subatômico? em matéria imaterial? em número IREAIS? hein? hein?).
Enfim, dado isso, foi importante então mudar o vetor epistemológico para: Razão ----> Experiência. Foi essa mudança que possibilitou o próprio behaviorismo, por exemplo, a existir. Eles apresentaram as teorias e sabiam que elas não eram matematicamente comprováveis, mas eram comprováveis em escala menor (como nos experimentos usando a Caixa de Skinner por exemplo), e tb era comprovável via os resultados da clínica psicológica.
O mesmo se aplica a antropologia, sociologia e todas as demais de humanas: acredita-se, observando as poucas tribos de caçadores-coletores que ainda existem em nosso mundo, e comparando com a nossa, que a nossa civilização evolui mais ou menos da maneira x ou y. Que, baseado no pouquíssimo que temos da época e o que observamos hoje, havia uma adoração totêmica, que os humanos criaram a religião devido, principalmente (e inicialmente), ao assombro com o mundo natural, etc,
Faz muito sentido (razão), mas tem como ter certeza absoluta que isso ocorreu conosco baseado na experiência dos outros e nos poucos relatos? Nops.
Mas só solucionaremos isso com uma máquina do tempo.
Enfim, tudo isso só pra demonstrar que o autor desse artigo é um imbecil e já há um século a área de humanas tem uma confiabilidade tão grande quanto a de exatas. O problema da área de humanas é que, devido ao fato de muitas coisas não poderem, nem exigirem portanto, ser comprovadas empiricamente, os charlatões tendem a vir pra essa área.
Eles são rapidamente descartados para quem realmente estuda ou pensa nessa áreas (razão - só usa-la), mas podem acabar fazendo sucesso junto ao "grande público".
Afinal, diga o que quiserem, xinguem o quanto quiserem, mas Le Bon estava certo: o povo é burro.