Aluriel de Laurants escreveu:Youkai X escreveu:No Cenário oriental da Spell ninguém poderia ter certeza da origem da magia divina, apenas ter fé em sua origem, visto que não se há certeza da existência de deuses e cada povo tem sua religião própria e em povos próximos existe muito sincretismo , demonizações e empréstimos de elementos mitológicos, teológicos e etc.
Isso me lembra da minha impressão sobre a magia divina ser uma espécie de efeito placebo.
O que é mesmo. Isso me lembra das pílulas de papel que curam... sem fundamento científico, mas as pessoas melhoram com a fé de que vão melhorar. Eu estou gostando do tratamento da religião no cenário oriental, mesmo que ele ande a passos de tartaruga.
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Quanto ao artigo, achei muito infantil, muito... bobo. Trata a questão com a típica ignorância de quem desconsidera "complicações" como bobagem. Para que complicar a questão das religiões? É só um jogo! O pior de tudo ainda é discutir naquele formato do Multiply, acho terrível. Mas ele está livre para dar as opiniões dele. Afinal, cada um prefere um tipo de cenário, e eu sempre prefiro ir pelo verossímil, pelo possível.
Eu resumiria o que o Roquen disse de um jeito: em religião, todos estão certos e, ao mesmo tempo, todos estão errados. Acho muito tolo que certos cenários dispensem enormes descrições sobre os primórdios, sobre a criação do universo, com um tom jornalístico de verdade absoluta. Ora, isso é uma bobagem tremenda. Se tomarmos nosso mundo como exemplo (afinal, é nossa única referência segura), cada povo tem sua versão da Criação e isso faz parte de sua identidade cultural; não se pode provar que eles estão certos ou errados. Claro que a ciência teve um papel fundamental em desmistificar os mitos (aqui na acepção do sagrado)... afinal, muita coisa provada pela ciência não foi sequer prevista ou citada pela esmagadora maioria das religiões.
Contudo, muitos cenários, ao retratar mundos "medievais", acabam pecando por essa obsessão do homem moderno acerca da "verdade" em tom jornalístico, da crônica do "real" e acabam fazendo mitos de Criação tão certinhos e absolutos que a coisa descamba para o risível. É inverossímil, é ingênuo e é simplista demais colocar verdades absolutas na criação do universo. Claro,
é só um jogo...
Mas criar uma versão "absoluta" da criação e, pior, criar um povo que acredite e pregue essa versão absoluta acaba criando um mal ainda maior: o povo
certo. Pensem naquele cenariozinho mequetrefe, Forgotten Realms. Temos certeza, por exemplo, de que a "deusa da magia" (um conceito tão bobinho) existe, afinal, os deuses têm sua vida social documentada e ocorrendo junto da mortal, e ela protege Sean Connery, o maior mago do cenário. Não é a vida dos deuses gregos, que se vêem andando com os mortais apenas nos grandes épicos, mas é uma existência mais palpável e verdadeira.
E se um povo acreditasse em outra deusa da magia, ou num deus da magia, ou em nada, ele estaria simplesmente... errado. Essa bobagem do povo
certo é um ranço da modernidade, de acharmos que a exatidão, a lógica e a coerência povoam as relações humanas... e não povoam. No tocante do social, do sagrado, do religioso, o ser humano é tão aleatório e incoerente quanto pode ser. No exemplo do artigo a respeito do Egito, duas cidades nunca tinham o mesmo panteão:
Claude Traunecker escreveu:Os egípcios não sentiram necessidade de estabelecer um inventário de seus deuses. O esforço dos hititas, que fizeram laboriosas listas de concordância entre seus deuses e os de seus vizinhos, devia fazê-los sorrir. Essa ausência deve-se à própria natureza do panteão, em que as divindades aparecem, desaparecem, mudam de nome e de função segundo as circunstâncias. Os poucos repertórios conhecidos de divindades inscrevem-se num contexto limitado e visam a uma aplicação precisa.
(Os deuses do Egito, trad. Emanuel Araújo. 1995, editora da UnB)
Há um esforço realmente ridículo em se fazer listas concisas e certas de divindades sem se considerar coisas importantes como:
aleatoriedade (panteões variegados, com discordâncias internas e variantes que vão desde nome e função até aparência dos deuses, passando pela existência de uns ou outros),
verossimilhança (criar o "deus das espadas" e não fazê-lo ter papel dentro de um panteão é inverossímil. Certos papéis atribuídos a deuses de fantasia são tão irreais que parecem piada. Mas, é claro, ler sobre o assunto é trabalhoso e o importante é jogar, porque é apenas um jogo),
contaminação (afinal, sabemos que o mito de Odin pendurado na árvore do conhecimento para descobrir o segredo das runas tem fortes ligações com o Cristo crucificado, por exemplo. Culturas próximas, e às vezes distantes, têm a capacidade de se entrelaçar, criando mitos sincréticos ou altamente influenciados),
sincretismo (a existência de religiões que têm uma base similar, mas cujas parecenças páram em certos pontos, como o islamismo, o judaísmo e o cristianismo) e a
impossibilidade empírica de verificação da veracidade de uma religião em detrimento de outras.É ver artigos levianos tratando tão cruamente de temas tão interessantes que me dá ganas de escrever um sobre religião. Acho que vou me mexer e escrever um artigo ou série de artigos sobre religião em RPG.
Quanto às críticas ao artigo do Valberto, espero que todos compreendam a validade de se criticá-lo. Afinal, tendo ele publicado o artigo em via pública, é patente que nem todo comentário deva ser elogioso (e é bom que nunca o sejam, pois as concordâncias em excesso nublam o julgamento apropriado de um trabalho). Quem publica apenas para colher elogios tem sérios problemas de autoafirmação e autoimagem. Os autores geralmente sabem disso, mas a fúria dos leitores mais fanáticos sempre pesa nessas horas.